10 lições do livro ‘O Feminismo é para Todo Mundo’

Considerado uma Bíblia feminista, o livro mais importante da ativista americana bell hooks chega ao Brasil com 18 anos de atraso

30.01.2019  |  Por: Mariana Filgueiras

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10 lições do livro ‘O Feminismo é para Todo Mundo’

A famosa lista de recomendações de leitura da Biblioteca Pública de Nova York, a quarta maior do mundo, atesta: o livro O Feminismo é para Todo Mundo, de bell hooks, lançado em 2000, é um dos 14 principais livros já publicados em todos os tempos sobre o assunto. Mas só agora, com 18 anos de atraso, a obra chega ao Brasil pelo selo Rosa dos Tempos, da editora Record. Com prefácio atualizado pela intelectual, ativista e escritora americana, e tradução de Ana Luiza Libânio, o livro seminal para a compreensão das relações entre gênero, raça e classe é um seminário completo em 175 páginas, escrito de maneira didática para não iniciados nos feminismos – assim, no plural, como ela prefere. Com capítulos que vão de políticas públicas a sexo, passando por violência, trabalho e corpo, bell hooks – uma homenagem em caixa baixa à avó, dona original do nome sonoro e forte – é leitura urgente no Brasil de hoje. Seguindo um dos conselhos da autora, que recomenda que o livro seja resenhado, discutido, presenteado e adotado em cursos, listamos algumas das muitas lições ensinadas em O Feminismo é para Todo Mundo.

  1. A importância de construir um movimento feminista de massa

A justiça social que advém do movimento feminista, defende bell hooks, muda todas as vidas. Logo, seu trabalho deve ser disseminado ao maior número possível de pessoas, femininas e masculinas, meninas e meninos. Para isso, ela escreveu um livro didático, que pudesse ser bastante resenhado, exposto em vitrines e adotado em cursos, e estimula que o material explore linguagens diferentes para atingir os jovens.

  1. Quando escrever, partir sempre de uma experiência concreta

A autora considera uma falha do movimento feminista não ser claro o suficiente em sua teoria, o que faz com que muitas pessoas se sintam repelidas por jargões e academicismos. Ainda que ela defenda que o movimento feminista se fortaleceu justamente quando encontrou a academia, a ativista sugere que a escrita e a comunicação na prática feminista devem sempre partir da experiência das pessoas, do que acontece cotidianamente na vida de cada um.

  1. É um movimento para acabar com o sexismo, a exploração sexista e a opressão

A definição sobre o que é o feminismo deve estar na ponta da língua, ser fácil de explicar e de ser compreendida, ensina a autora, que propõe o conceito forjado por ela no livro Feminist Theory: From Margin to Center, de 1984, ainda inédito no Brasil. A definição deixa claro que não é sobre ser anti-homem, e centraliza o problema no sexismo. Para acabar com o patriarcado, é preciso que todos participem da disseminação do sexismo, homens e mulheres, já que todos nós temos sido socializados para acatar pensamentos e ações sexistas. O problema é o sexismo, não é o homem, reitera hooks.

4. Uma revolução feminista sozinha não acabará com a opressão sem acabar com o racismo, o elitismo e o imperialismo

Aqui está uma das chaves do pensamento de bell hooks: sim, a sororidade é poderosa, diz ela repetidamente, “mas só podemos nos tornar irmãs na luta confrontando as maneiras pelas quais mulheres – por meio de sexo, classe e raça – dominaram e exploraram outras mulheres”. Não adianta um grupo de mulheres se libertar da dominação masculina no mercado de trabalho enquanto existe outro grupo de mulheres, de classe mais baixa, exploradas para fazer o trabalho sujo que o primeiro grupo se recusa a fazer. Não vincular as questões de raça e classe às questões de gênero é um erro, assegura a autora: “Enquanto mulheres usarem poder de classe e de raça para dominar outras mulheres, a sororidade feminista não poderá existir por completo.”

5. Feministas são formadas, não nascem feministas

Assim como todas as posições políticas, uma pessoa adere às políticas feministas por escolha e ação, detalha hooks: “Antes que as mulheres pudessem mudar o patriarcado, era necessário mudar a nós mesmas, criando consciência.” E essa conscientização deve enfatizar o aprendizado sobre o patriarcado como sistema de dominação, como ele se institucionalizou e como é disseminado e mantido. Além disso, a escuta, comunicação e diálogo são fundamentais no processo de conscientização.

6. Sem ter homens aliados à luta, o movimento feminista não vai progredir

O feminismo é antissexismo. bell hooks fixa o conceito já elaborado anteriormente: “Um homem despojado de privilégios masculinos, que aderiu às políticas feministas, é um companheiro valioso de luta, e de maneira alguma é uma ameaça ao feminismo; enquanto uma mulher que se mantém apegada ao pensamento e comportamento sexistas, infiltrando o movimento feminista, é uma perigosa ameaça.”

7. O foco na pauta dos direitos reprodutivos como um todo

Não é só o aborto: é a educação sexual básica, a medicina preventiva, o controle pré-natal e o fácil acesso a métodos contraceptivos também. A pauta dos direitos reprodutivos como um todo, e não só o aborto, deve ter centralidade em um movimento feminista de base popular, orienta bell hooks. O aborto chama mais a atenção da mídia de massa porque é o que desafia mais diretamente o pensamento cristão de que a função social da mulher é gerar crianças, mas ressaltá-lo frente a todos os outros direitos reprodutivos refletiu, durante muitos anos, o preconceito de classe de mulheres que encabeçavam o movimento. Bell hooks lembra que historicamente as mulheres brancas com privilégio de classe se identificaram mais intimamente com a dor da gravidez indesejada, destacando a questão do aborto – mas essa não era a única questão reprodutiva para uma multidão de mulheres pobres e negras. Se as mulheres não têm direito de escolher o que acontece com o próprio corpo delas – e isso não acontece só com o aborto – arriscam renunciar direitos em outras áreas da vida.

8. A maioria das pessoas ainda socializa só com pessoas do seu próprio grupo

Racismo e sexismo combinados criam barreiras nocivas entre mulheres, enfatiza a autora. Ainda que muitas feministas brancas e privilegiadas reconheçam que a questão de raça seja estruturante do feminismo, lembra hooks, e transponham a discussão para seus trabalhos acadêmicos, um dos problemas mais difíceis do movimento é a tradução da teoria para a prática. Interações antirracistas entre mulheres ainda são difíceis em uma sociedade que se mantém segregada racialmente.

9. O fim de todas as formas de violência

A maioria das pessoas tende a enxergar a violência doméstica entre adultos como algo separado e diferente da violência contra crianças, quando não é, observa hooks. E isso nubla a realidade de que muito da violência patriarcal é direcionada às crianças por mulheres e homens sexistas. E as crianças não têm uma voz coletiva organizada. “Em uma cultura de dominação, todo mundo é socializado para enxergar violência como meio aceitável de socialização.” Muitas vezes na contracorrente de muitas teóricas feministas, bell hooks defende a não-hierarquização das violências para combatê-las.

10. Não há amor onde há dominação

A autora é taxativa: se mulheres e homens querem conhecer o amor, é preciso aspirar ao feminismo. Sem o pensamento e a prática feministas não haverá base necessária para criar laços de amor. Nesse sentido, o amor romântico, da forma como é fomentado numa cultura patriarcal, deixa as pessoas inconscientes e fracas. Sustenta a noção de que um pode fazer qualquer coisa por amor: bater, oprimir, matar. Bell hooks faz uma autocrítica: “Em vez de repensar o amor e insistir em sua importância e valor, o discurso feminista sobre o amor simplesmente cessou. E várias mulheres se afastaram das políticas feministas porque sentiam que elas negavam a importância do amor.” Na obra, ela explica como um diálogo amplo sobre o amor no feminismo deve ser um ponto de vista alternativo: o amor jamais poderá se enraizar em uma relação fundamentada em dominação e coerção. “O pensamento e a prática feministas enfatizam o valor do crescimento mútuo e da autorrealização em relacionamentos íntimos”, reforça ela.

Mariana Filgueiras é jornalista especializada em cultura. Publica reportagens no jornal Folha de S. Paulo e nas revistas Piauí e Continente, além de ser uma das roteiristas do Greg News, da HBO/Brasil

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