A ciência contra o sexismo

Livro da jornalista britânica Angela Saini recém-lançado no Brasil destrincha os estereótipos de gênero e prova que não há fator biológico que sugira que a equidade é impossível

27.11.2018  |  Por: Maria Clara Drummond

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A ciência contra o sexismo

“A fim de provar a inferioridade da mulher, os antifeministas apelaram não somente para a religião, a filosofia e a teologia, como no passado, mas ainda para a ciência, biologia, psicologia experimental etc.” Esta citação de Simone de Beauvoir, tirada do livro O Segundo Sexo (1949), abre o primeiro capítulo do livro Inferior é o Car#alhØ, escrito pela premiada jornalista de ciência britânica Angela Saini e recém-publicado no Brasil pela DarkSide Books. Afinal, como bem lembra a autora, o próprio Charles Darwin acreditava na inferioridade das mulheres, e reagiu com condescendência e desqualificação quando cientistas mulheres apontavam a fraqueza de sua retórica. “Fazendo justiça a Darwin, ele era um homem de seu tempo. Suas opiniões tradicionais sobre o lugar da mulher na sociedade não orientam apenas suas obras cientificas, mas também aquelas de muitos eminentes biólogos da época. Suas ideias sobre evolução podem ter sido revolucionárias, mas sua atitude em relação às mulheres era absolutamente vitoriana”, relativiza a autora quando fala do assunto em entrevista para a Hysteria.

Inferior é o Car#alhØ é uma pesquisa minuciosa que examina e contesta teorias científicas que buscaram provar que mulheres eram inferiores aos homens – inclusive cobre pontos de vista opostos ao que o livro busca provar, incluindo pesquisadores que claramente têm a misoginia como fio condutor de suas pesquisas. No final, fica claro por A + B que o que atrapalha as mulheres na sociedade é mais a cultura patriarcal do que a biologia. “Na verdade, há pouquíssimas diferenças psicológicas entre os gêneros. O que nos divide é a diferença individual. Eu posso ser mais empática do que a pessoa X, e ela pode ser mais analítica do que a pessoa Y. Nós somos todos diferentes e únicos, com nosso próprio conjunto de talentos e forças”, diz Angela Saini.

A autora ressalta que não há evidência nenhuma de que mulheres são cuidadoras naturais enquanto homens tem nos seus genes a vontade de caçar e prover. Há comunidades na Tanzânia e nas Filipinas em que a realidade é a oposta do que aprendemos ser o senso comum. Da mesma forma, mulheres não são naturalmente castas enquanto homens são promíscuos. Tudo isso é construção cultural, vide a supressão sexual feminina da era vitoriana.

São os preconceitos que influenciam a suposta condição biológica da mulher

O livro – que recebeu elogios entusiasmados de veículos como The Guardian, The Economist e The Financial Times – convida o leitor a esquecer tudo o que aprendeu sobre as diferenças entre os sexos e a perceber as mentiras e meias-verdades que a ciência propagou ao longo dos últimos séculos. Sua mensagem principal: não há nada na ciência que sugira que a equidade é impossível, e a noção de que homens e mulheres são fundamentalmente diferentes em sua biologia nos afeta não apenas individualmente, mas também como sociedade. São os preconceitos, ela defende, que influenciam a suposta condição biológica da mulher. Angela Saini chega lá jogando luz sobre pesquisas e estudos tendenciosos que não incluíram a outra metade da população e até mesmo o machismo impregnado em laboratórios e universidades.

Há muitos estudos que apontam a disparidade de gênero na ciência – só para ficar com o exemplo da astrofísica, apenas 17% dos membros da União Internacional de Astronomia são mulheres, segundo dados de 2016. “Não acho que seja apenas uma questão de encorajar as meninas. Acho que o trabalho precisa vir do outro lado, construindo uma cultura que torne a ciência menos masculina, e que mude o modo de pensar daqueles que ainda têm ideias antigas. É também preciso eliminar o machismo e o assédio sexual das instituições, e torná-las mais favoráveis a famílias. Uma vez que as meninas virem que essas profissões são acolhedoras, elas naturalmente vão escolhê-las”, acredita a autora.

A cada capítulo, Angela Saini apresenta um recorte da história da ciência que difundiu o mito de que mulheres são inferiores. Ela entrevista cientistas, pesquisadores e especialistas, sempre preocupada em obter os dois lados da história. A edição nacional tem um trabalho da artista americana Barbara Kruger na capa e introdução da professora de teoria literária e pesquisadora Heloisa Buarque de Hollanda.

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