A glamurização do boy-lixo

Quando músicas, filmes e livros romantizam o homem que não sabe lidar com os próprios sentimentos

22.03.2018  |  Por: Maria Clara Drummond

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A glamurização do boy-lixo

A maioria das histórias de amor do cinema e da literatura segue a estrutura narrativa de Romeu e Julieta – que é na verdade sobre política, mas vamos deixar essa gênese de lado por um instante. É a seguinte: duas pessoas se apaixonam mas não podem ficar juntas por causa de fatores externos. Em Casablanca, temos a guerra. Em Brokeback Mountain, o tabu da homossexualidade no Wyoming de 1963. Em Titanic, a diferença de classes. E por aí vai.

Mas essas justificativas foram deixando de satisfazer o público. Os conflitos externos, que funcionavam como uma subtrama que fazia a narrativa andar para frente, passaram a ser mais facilmente resolvíveis. A partir daí, a principal barreira que interferiria na felicidade do casal passou a ser o conflito interno, como traumas, neuroses, timidez etc. No filme Cenas de um Casamento, de Ingmar Bergman, isso é explorado de maneira radical, focalizando totalmente no psicológico dos personagens e ignorando o contexto sociopolítico.

Porém, eu acredito que o maior clássico dessa linha seja Orgulho e Preconceito, da Jane Austen – afinal, talvez seja a segunda história mais adaptada depois da peça de Shakespeare, com dezenas de filmes e livros baseados em sua estrutura. Embora tenha sido escrito em 1813, numa época que os casamentos arranjados eram regra, e o livro seja um retrato fiel daquela sociedade, o empecilho para o casal ficar junto não é tanto a diferença de classe que os separa, e sim eles próprios. Resumindo em uma frase: Mr. Darcy dá a impressão de desprezar Elizabeth Bennet, mas na verdade era tudo amor recalcado, porque ele tinha medo dos próprios sentimentos.

Essa estrutura é tão comum que extrapolou os limites da ficção. É, por exemplo, uma retórica recorrente também em canções de amor. Em Evidências, Chitãozinho e Xororó cantam: “Quando eu digo que deixei de te amar/ É porque eu te amo/ Quando eu digo que não quero mais você/ É porque eu te quero/ Eu tenho medo de te dar meu coração/ E confessar que eu estou em tuas mãos.” Já Elvis Presley canta o seguinte: “Maybe I didn’t treat you/ Quite as good as I should have/ Maybe I didn’t love you/ Quite as often as I could have/ Little things I should have said and done/ I just never took the time/ You were always on my mind.*” Oi? Por que diabos achamos isso tão romântico quando cantamos essas músicas no karaokê?

Essa estrutura é especialmente danosa para nós, mulheres. A ideia de um amor maior recalcado por trás de grosserias e abusos nos impele a aturar toda sorte de babaquices em prol de um ideal romântico. Graças a décadas de glamurização da dificuldade emocional masculina, que romantiza o homem que não sabe lidar com os próprios sentimentos, muitas vezes nos comportamos como se tivéssemos na nossa frente um Mr. Darcy, que um dia vai acordar para a realidade e correr na chuva na nossa direção para dizer: “Você me enfeitiçou de corpo e alma e eu te amo!” . Mas, na maioria das vezes, é só um boy-lixo meio cuzão mesmo.

O clichê mostra um grupo de mulheres conversando sobre relacionamentos enquanto os homens conversam sobre futebol. Aprendemos que isso é um aspecto negativo e uma prova da frivolidade feminina. Mas talvez seja exatamente o contrário, com mulheres empenhadas num trabalho emocional mais consistente, para lidar de forma mais madura consigo mesmas e com seus parceiros. Não é à toa que gastamos tanto tempo com esse assunto. Os homens parecem que não têm interesse em aprimorar sua abordagem com o sexo oposto, de tão acomodados com a hierarquia patriarcal, permissiva ao extremo com comportamentos babacas e abusivos. No final das contas, precisamos fazer o trabalho emocional duplo para aprender a lidar não só com nossa subjetividade, como também com as questões mal resolvidas do parceiro.

Mas talvez tenhamos alguma coisa a aprender com Orgulho e Preconceito. A personagem Elizabeth Bennet, mesmo tendo vivido mais de dois séculos atrás, muito antes da primeira onda do feminismo, não caiu facilmente no papinho do Mr. Darcy, lançando umas boas verdades sua na cara, apesar do peitoral sob camisa branca molhada do boy-magia (you go, girl!). Já Mr. Darcy,  ainda que esnobe e cheio de travas emocionais, foi visionário do lema moderno do consentimento explícito no means no, quando reitera no meio da sua declaração de amor: “Minha afeição e meu desejo permanecem os mesmos, mas é só você dizer uma palavra que me silenciarei sobre esse assunto para sempre” Ponto para os dois.

 

* Tradução para o trecho de Elvis Presley: Talvez eu não tenha te tratado/ tão bem quanto eu deveria/ talvez eu não tenha te amado/ com tanta frequência quanto poderia/ pequenas coisas que eu deveria ter dito e feito/ eu simplesmente nunca tive tempo/ você sempre esteve em minha mente

 

8 Comentários

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8 respostas para “A glamurização do boy-lixo”

  1. Alessandra Braz Dos Santos disse:

    Concordo, Andrews! O machismo infantiliza mulheres e homens e são poucos que conseguem, principalmente no lado masculino, quebrar esse padrão. Eu mesma já fui fã do tal cara problemático, que não sabe se expressar. Hoje, eu mando passear. Mas depois de muito ler e me empoderar. Mas acho que os homens têm problemas sérios no quesito reprima seus sentimentos!

  2. Jamille Gomes disse:

    Que texto ótimo! Me fez lembrar de um documentário que assisti na Netflix “The mask your live in”. Esse doc é fantástico, muito tocante! Fala sobr como a cultura machista afeta os homens e a ideia sobre masculinidade. Os homens não são ensinados a lidar com seus sentimentos, muito pelo contrário, são ensinados a reprimi-los em prol de uma masculinidade tóxica, que visa demonstrar força, virilidade entre outros aspectos da cultura machista. Vale muito a pena ver.

  3. Andrews Luiz Bianchi disse:

    Muito bom o texto, nós homens, em geral, tratamos pouco sobre nossos sentimentos e os conflitos se seguem, muito em prol disso e da construção social do machismo que vai formar esse menino até adolescência e vida adulta. Sem discordar do texto entro em outra questão. As mulheres também não sofrem deste mal, com conflitos internos em relação a romances? A própria “always on my mind”, é escrita por uma mulher, Brenda Lee. Agora, o sofrimento romântico feminino também me parece reflexo do machismo em boa parte das situações, isso procede?

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