A história do absorvente

Pesquisa que parte de 2000 a.C se debruça sobre o artefato íntimo e seu simbolismo para a construção da mulher na sociedade

28.03.2018  |  Por: Juliana Porfirio

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A história do absorvente

Ilustrações: Juliana Porfirio

Em 2012, a artista plástica portuguesa Joana Vasconcelos foi convidada para expor seu trabalho no Palácio de Versalhes. Dentre suas obras estava A Noiva – um lustre de cinco metros de altura composto por mais de 25 mil absorventes femininos internos – que foi vetada pela organização sob a justificativa de que não era adequada ao espaço. Em 2015, a musicista americana Kiran Gandhi participou da Maratona de Londres menstruada, dispensou o uso de absorvente e o sangue escorreu por suas pernas. Sua iniciativa ganhou destaque no mundo todo, dividindo as opiniões. Recentemente, uma marca britânica do segmento de higiene feminina chamou a atenção com sua campanha “Blood Normal”, na qual o líquido azul, usado nas propagandas para simular a capacidade de armazenamento dos absorventes, é substituído por sangue. Além disso, ela mostra um homem comprando o produto no supermercado e uma mulher tomando banho enquanto o sangue escorre. O anúncio é acompanhado pelo slogan: “Menstruação é normal. Mostrá-la deveria ser também. Viva sem medo.” Por que um artefato tão corriqueiro na vida das mulheres ainda causa tamanho estranhamento?

Ao longo do tempo, foi possível observar alternativas diversas para conter o sangramento mensal. Entretanto, seu registro é pequeno. Notam-se grandes saltos no tempo, com o predomínio de informações superficiais e impessoais, que impossibilitam uma visão completa do que seria o produto e, principalmente, como seria sua utilização. É preciso observar que os registros encontrados são ora falhos ora espaçados e, em grande parte, técnicos.

O absorvente, como artefato, surgiu em várias culturas, a princípio, como alternativa higiênica. Posteriormente, outros atributos foram considerados relevantes, como aqueles que se referiam à liberdade da mulher moderna, o que é possível observar pela análise de peças publicitárias de lançamento desse produto no mercado. Nesse sentido, deve-se ressaltar que a modernidade dessa mulher retratada se dava pelo uso do absorvente, pois seu papel continuava sendo subjugado na sociedade.

 

A menstruação é uma peculiaridade do corpo feminino com a qual lidamos mensalmente. O fluxo menstrual é composto por sangue e tecido interior uterino, que decorre da descamação do endométrio de um útero não fecundado. Menstruar, portanto, é um processo natural do ciclo reprodutivo da mulher e os absorventes íntimos são os dispositivos utilizados para conter o fluxo que expelimos durante esse período. Mas a verdade é que, na prática, a história do absorvente, assim como a da mulher, é cercada de tabus que esbarram nas múltiplas interpretações culturais.

Os primeiros registros de absorventes são egípcios e datam por volta de 2000 a.C. Eram proteções internas feitas de papiro processado. Em Roma, os tampões eram feitos de lã macia e posteriormente aparecem, também, absorventes de lã nos manuscritos de Hipócrates, que viveu entre 460 e 370 a.C, na Grécia. Na Era Medieval e Renascença europeia, eram usadas toalhas e almofadas feitas de gaze e pedaços de cambraia e de algodão envoltos por musgos e outras gramíneas para aumentar a absorção. Observa-se que a menstruação, nesta época, era considerada como algo ruim e até venenoso, não representava apenas um período de não fecundação, mas a liberação de todos os possíveis excrementos ruins do corpo, que poderiam transmitir doenças. O sexo era desencorajado durante esse período, já que esse “veneno” poderia queimar a pele do pênis. É possível compreender que já era instaurado um imaginário negativo sobre o período menstrual.

Os primeiros absorventes desenhados para o consumo foram produzidos por volta de 1854, nos EUA. Existem registros de inventores americanos que buscam as primeiras patentes de um cinto com tecidos absorventes laváveis, pensado para substituir as toalhas usadas até então. O cinto, nesse caso, era necessário para a fixação do produto no corpo, ainda não eram usuais as tiras de adesivos coláveis, hoje encontradas na maioria dos absorventes externos. Paralelamente, na Alemanha, por volta de 1890, apareciam os primeiros absorventes descartáveis, semelhantes a bandagens para serem colocados sobre a calcinha. Eram vendidos em caixas com seis unidades. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), enfermeiras francesas observaram que as faixas utilizadas para curativos poderiam ser úteis para a absorção do sangue menstrual, porque continham celulose, material com características mais absorventes que o algodão.

O protótipo para a produção de um absorvente como conhecemos hoje começava a ser traçado: retalhos de algodão, celulose, gaze e algo para fixa-lo à calcinha, prevenindo seu deslocamento durante as atividades rotineiras. No Brasil, há relatos sobre proteções menstruais a partir de 1930, quando se observa a chegada do Modess. Trata-se de uma marca de absorvente americana, da Johnson & Johnson, sendo a primeira a desenvolver absorventes descartáveis com uma parte adesivada para fixação na calcinha.

Em se tratando de absorventes internos, tem-se registros de 1929 do médico americano Earle Haas (1888-1981). Ele desenvolveu tampões com aplicadores, que eram cabos de remoção. Sua invenção posteriormente se transforma no Tampax, o primeiro absorvente interno com aplicador comercializado, e apesar de ser bem aceito em outros territórios, as brasileiras só teriam contato com essa novidade em 1974, quando é lançado o concorrente O.B., criado e desenvolvido na Alemanha, cujo o nome origina-se de ohne binde, expressão alemã que em tradução literal corresponde “sem toalha”.

Em sequência aos absorventes internos, há registros da tentativa de emplacar o coletor menstrual, criado em 1930, nos EUA, cuja a fabricação foi interrompida devido ao desconforto alegado pelas usuárias. Atualmente, o coletor ressurge timidamente no mercado e talvez nem emplaque uma vez que para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o produto não tem finalidade terapêutica definida, por isso não é considerado para a saúde e não possui regulamentação. Mas é possível que ainda seja pouco difundido por uma questão cultural que envolve a manipulação da vagina, assim como os tampões sobre os quais pairam muitas dúvidas. Como por exemplo: o uso de um tampão antes da iniciação sexual implicaria em perda da virgindade?

Outras questões relevantes dizem respeito à saúde da mulher e ao meio ambiente. Em 2015, a modelo americana Laura Wasser teve uma perna amputada quando contraiu uma rara doença provocada pelo uso prolongado de absorvente interno. A Síndrome do Choque Tóxico, uma complicação de infecções bacterianas, que envolvem bactérias estafilococos. Atualmente, cresce um movimento pela abolição dos absorventes descartáveis, que não apenas podem agredir a pele sensível da vulva como, também, agridem o meio ambiente. Esse movimento prega a volta das “toalhinhas” por serem mais naturais, econômicas e ecológicas.

Aqui, no Brasil, os absorventes íntimos são ilustrados e descritos como fármacos, remédios que tratam uma doença encoberta de vergonha e de não-me-toques. A menstruação parece não ser tratada como uma ação natural, corriqueira e fundamental para a garantia da espécie humana. Por que tratamos esse assunto de maneira quase fóbica?

A mulher sempre foi, culturalmente, muito reprimida em relação ao próprio corpo e à sexualidade. Aprendemos, desde pequenas, uma série de tabus como, por exemplo, que a menstruação é suja e que não se deve tocar a própria vagina. Nas entrelinhas, as mulheres são doutrinadas, social e culturalmente, a sentirem desprezo por elas mesmas. Não é uma questão fácil e nem toda mulher está disposta a romper com esse paradigma. A educação tradicional de um grande extrato da população corrobora para a falta desse autoconhecimento.

Por fim, e não menos importante, é preciso questionar a acessibilidade e necessidade deste produto às mulheres da atualidade. Ainda se trata de um produto inacessível a uma grande parcela da população feminina. No Brasil, por exemplo, as presidiárias não têm acesso a absorventes: como revela a jornalista Nana Queiroz no livro Presos que Menstruam, elas utilizam miolo de pão para conter o sangramento, moradoras de rua também passam por esse problema. Apesar de iniciativas que buscam o desenvolvimento de baixo custo e até mesmo a doação de coletores menstruais para comunidades carentes, entende-se que é preciso refletir melhor sobre o assunto para compreendê-lo em sua complexidade.

 

Juliana Porfírio é uma artista independente mineira. Mestranda em Artes Visuais pela UEMG, especialista em Moda pela UFMG e bacharel em Comunicação Social, transita entre desenho, bordado, costura, fotografia e eletrônica, sempre investigando as inter-relações entre corpo, moda e sociedade. Desde 2015, é colaboradora do Coletivo Gambiologia, ministrando oficinas que desenvolvem conceitos básicos de eletrônica aliados a questões de sustentabilidade e design

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