A liberdade é grisalha

Como encontrei um atalho para dentro ao assumir os cabelos brancos e mergulhar no isolamento social às vésperas de completar 39 anos

19.01.2021  |  Por: Daniele Moraes

O ano mal tinha começado e ninguém imaginava o que estava por vir. Minha decisão de não pintar mais o cabelo veio exatamente duas semanas antes do início da quarentena, mais precisamente no dia 8 de março. Nada proposital, mas certamente simbólico. Decidi cortar, dando um destino final à quase inevitável fase loira. Ficou bem curto e assimétrico, diria: moderno. É, eu ia pagar para ver.

No mesmo dia, encontrei algumas amigas. A gente conversou sobre as recentes descobertas que eu vinha fazendo com a observação dos meus ciclos menstruais. Falamos sobre a relação que cada uma das fases tem com as nossas dinâmicas pessoais, nosso estado emocional e nossa potência criativa. Muito encantada com esse caminho, contei que havia percebido que essa observação e a intimidade com o corpo não tinham nada de místico, como poderia parecer, e que fugiam totalmente do estereótipo que eu também cultivava antes de conhecer melhor o assunto.

Tudo isso rolou às vésperas do meu aniversário de 39 anos, no combo: assumir os cabelos brancos e mergulhar no isolamento social. Vale dizer, é claro, que a minha história com o cabelo branco havia começado muito tempo antes. Eu só tinha 16 quando encontrei o primeiro fio branco na cabeça. Na época, não tive dúvidas: arranquei e pronto. E não sei dizer até hoje se foi por conta disso que tudo começou. Afinal, diz a crença popular que, se arrancar um, nascem mais 10. A verdade é que a herança genética não me deixa culpar o atrevimento.

Já vinha há tempos amadurecendo a decisão de parar de pintar. A vontade cresceu quando retocar a raiz a cada 15 dias já não era suficiente para manter o cabelo em dia. Eu me sentia refém desse processo cansativo (e caro). Por anos, desenvolvi várias técnicas para disfarçar. A que eu mais usava era um bastão em forma de batom, que deixava o cabelo meio duro, mas que pra dar um tapinha na raiz era perfeito. Assim, eu ganhava uns cinco a 10 dias a mais até a próxima tintura. Só precisava mesmo torcer para não tomar chuva – sob o risco de molhar o cabelo e ver escorrer uma tinta marrom na testa. Felizmente, tive sorte (além do que passei a andar sempre com um guarda-chuva na bolsa) e escapei do vexame.

Como disse, logo que cortei e parei de pintar, começou a quarentena (aquele troço que a gente um dia já achou que durava 40 dias). Acabei, então, passando quase todo o período de transição muito menos exposta aos olhares alheios do que fatalmente passaria em outro momento. Com o tempo, e uma mínima flexibilização, comecei a viver mais a fundo essa mudança a partir do contato com outras pessoas – pra além do meu espelho e dos olhares gentis de quem me cerca no dia-a-dia.

Não por acaso, esse processo de descobrir quem sou por debaixo da tintura veio no embalo de um mergulho interior ainda mais profundo

Foi, então, que comecei a lidar com novas camadas dessa decisão: a questão do envelhecimento, a sustentação das minhas verdades e escolhas, a relação com as minhas filhas, meu companheiro, amigos, e até mesmo nas relações profissionais. Notei olhares surpresos, poucos comentários elogiosos – nuances além da cor.

A vontade de olhar mais a fundo para o meu feminino e, de certa maneira, ressignificar a minha relação com o meu corpo, além do cabelo, foi crescendo. E aqui uma pausa para dizer que esse é um recorte da história – só um jeito de caminhar entre tantas estradas possíveis. Sinto que é importante pontuar isso, porque diante de tantos desafios que temos enfrentado não é exatamente decidir pintar ou não o cabelo, menstruar ou não, que vai dar conta dos nossos embates mais profundos. Mas, por outro lado, a gente espera demais do extraordinário da vida e muitas vezes acreditamos que algo muito impactante há de transformar tudo. Eu  desconfio, cada vez mais, que é no pequeno, no simples, nas atitudes cotidianas que estão os alicerces para a construção de uma experiência de vida mais verdadeira e com algum sentido.

Assim, a minha grande descoberta diante dessa decisão estética tem sido perceber que foi justamente nessa necessidade de me integrar que encontrei um atalho pra dentro. Corpo, mente, coração, espírito, jeitos de dividir o que é inteiro: a nossa essência. E vejo, nesse caminho, um convite a enxergar mais do que estamos acostumadas a ver. Há dias em que ainda me sinto incomodada – mesmo sem ter cogitado voltar a pintar por
enquanto. Às vezes me olho no espelho e me sinto muito bem. Vejo fotos antigas e me pergunto: onde eu me reconheço? Qual dessas imagens reflete quem eu sou? O que esse cabelo e essas escolhas contam sobre mim? Por que romper padrões é tão mobilizador?

Não por acaso, esse processo de descobrir quem sou por debaixo da tintura veio no embalo de um mergulho interior ainda mais profundo. Ficou claro que, mesmo de forma inconsciente e intuitiva, interromper processos de disfarce foi também um jeito de dar novos passos na minha caminhada de autoconhecimento.

Desde sempre, ouvimos: raspe seus pelos, pinte seus cabelos, maquie seu rosto, lute contra a balança, passe fome, passe vontade, tome hormônios, ofereça seu corpo em sacrifício. Eternamente infeliz, continue a buscar uma satisfação inalcançável. Olhe pra fora, se perca por dentro. Pois eu decidi olhar pro espelho. Ele me mostra que tenho escolha, e enxergo em perspectiva que a liberdade nem sempre é azul. Às vezes, a liberdade pode ser grisalha.

 

Daniele Moraes é jornalista, escritora e mãe de duas. Oferece cursos e mentorias sobre escrita, é apaixonada pela palavra – substantivo feminino de criação e potência – e deixa seus registros e causos no Instagram @danielemoraes e no site danielemoraes.com.br  

 

2 Comentários

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2 respostas para “A liberdade é grisalha”

  1. BIANCA disse:

    Adorei o texto. Comecei a ter cabelos brancos com 34 anos (estou com 35), mechas grandes nos pontos onde antes era castanho bem claro natural. No início me senti meio mal, porém, como eu detesto tinta e tonalizantes, percebi que eu teria que fazer logo a escolha de assumir ou não. E, aos poucos, tá tudo bem. Eu penso muito sobre a gente ter que ser sempre uma menina, nesse lance de não poder envelhecer e, como será um processo inevitável, tento levar isso da melhor maneira possível, já que ainda tenho muito chão pela frente.

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