A menina que foi pro inferno

Ainda adolescente fui expulsa de casa grávida. Hoje agradeço: foi fora dali que aprendi muita coisa importante na vida

08.04.2019  |  Por: Thais Prado

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A menina que foi pro inferno

Fui uma criança criada no Evangelho. Toda a minha família materna frequentava a igreja evangélica, assim como os amigos que nos cercavam. Ou seja, não tinha nenhuma conversa sobre sexo, nenhuma orientação ou qualquer forma de diálogo sobre o assunto. Quando eu fazia perguntas sobre o tema, minha mãe desconversava. Tudo o que eu sei, descobri sozinha e escondido.

E olha que eu alternava a igreja pra ver se melhorava, ora ia com a minha mãe em uma, ora ia com a minha tia em outra. Mas o silêncio sobre sexo sempre imperava. Isso não era assunto pra menina. Ainda mais eu, a única mulher entre os três filhos – e não por coincidência, a única que passava, lavava e ajudava nos trabalhos domésticos. Assim como minha mãe, fui doutrinada.

É como se eu vivesse em outra época, no tempo em que as mulheres não trabalhavam e mal tinham vida. Ou tinham: a vida do lar, dos filhos e do marido. Só que estamos falando de 2008. Chocante, eu sei.

Hoje, eu sou a prova viva de que esse método de doutrinação não funciona.

Aos 15 anos conheci meu primeiro namorado. Depois de muito suar contei pra minha mãe e a primeira pergunta foi: “A família dele é de qual igreja?” Ela não escondeu a decepção quando respondi que eles não eram evangélicos.

Com muito custo apresentei o rapaz para ter o “aval” pro namoro. Consegui, mas jamais poderíamos dormir na mesma casa e nem mesmo ficar a sós. O objetivo era claro: não podia ter a menor chance de a gente transar.

Curioso é que com meu irmão não era assim. Minha mãe foi na casa da namorada dele e depois de uma conversa, acordaram que ela poderia dormir lá em casa. Disse a minha mãe que com ela “era diferente”. Lembro inclusive de escutá-lo pedindo dinheiro emprestado para levar a namorada num motel. Que ano é hoje? Eu não posso nem tocar no assunto e ele pode receber auxílio pro motel? Enquanto meu irmão e a namorada tomavam banhos intermináveis juntos, eu não podia nem ficar sozinha com o meu. No único dia em que ele dormiu em casa, por causa de uma forte chuva, fui trancada no quarto enquanto ele dormia na sala. Pra seguir a encenação, fingi que não percebi minha mãe passando a tranca na porta.

Muito dessa proibição nunca foi dita com palavras claras, mas com sinais, como por exemplo no dia em que ganhei uma calcinha da esposa do meu tio e por ser considerada pequena demais, fui proibida de usá-la. Era uma tanga. Mais uma vez não questionei, porque tinha medo de ser repreendida e considerada pecaminosa.

A adolescente grávida

E tudo isso funcionou? Claro que não. No final de 2009, prestes a fazer 17 anos e cursando o ensino médio, engravidei. Sim, porque toda supervisão tem suas brechas.

Iniciei a vida sexual sem nunca ter ido ao ginecologista. Usava camisinha e escondia ao máximo de toda a minha família, porque sexo “só depois do casamento”.

Falhei na prevenção, e num descuido engravidei. Daí se seguiu o roteiro clássico: fui expulsa de casa. Saí sob a certeza de que iria para o inferno ou morreria na fila do SUS com meu filho. Foi meu namorado que me acolheu. Me levou para sua casa carregando um saco grande de lixo com todas as minhas coisas e eu, que naquele momento me sentia como aquele saco.

Minha primeira consulta ginecológica foi para fazer o pré-natal. Minha sogra me acompanhou e, pensando aqui, acho que ela nunca soube que eu nunca tinha feito exames ginecológicos de rotina. Ainda bem, porque eu não saberia explicar o porquê de nunca ter ido ao ginecologista.

Mulher boa é mulher feliz e realizada

Hoje, meu filho tem 8 anos. E, percebam, não fui parar no inferno. Eu e meu primeiro namorado, pai do meu filho, seguimos juntos, cuidando um do outro e ambos cuidando do pequeno. Consegui concluir o ensino médio, me inscrevi no Enem e entrei na faculdade.

E meus pais? Eles se separaram. Meu pai foi morar com a mulher que até então era sua amante – sim ele, bastião da moral que me pôs pra correr de casa, teve uma filha fora do casamento. Ela tem a mesma idade do meu irmão mais novo.

No dia da matrícula na faculdade, me vi sozinha em um mundo completamente novo. Estava orgulhosa e um pouco melancólica. Liguei pra eles: “Consegui uma bolsa através do Enem, vou fazer jornalismo!”

Quem diria, logo eu, “essa vergonha”, seria a primeira da minha família a cursar o ensino superior.

Precisei passar por tudo isso (me tornar mãe, jornalista e pagar minhas próprias consultas ginecológicas) para perceber o meu corpo. Esse que sempre esteve aqui e nunca tinha sido cuidado de forma gentil. Nunca tinha sido observado com calma e amor. Descobri o prazer da masturbação e sempre me pergunto: por que diabos (ops) eu nunca tive uma orientação sexual? Por que raios acham que classificar as coisas como “pecado” e dizer “você vai para o inferno se fizer isso” é educar? Doutrinação não é escola, e fugir dela é tão difícil como libertário.

Estou há nove anos fora da casa dos meus pais e de certa forma agradeço por ter sido expulsa de lá. Foi fora dali que aprendi muita coisa importante na vida. Pude crescer, realizar as minhas vontades e me dar prazer. Pude dividir a lavagem da louça e as contas, e hoje sou livre para ensinar meu filho que homem também cuida da casa e que mulher boa é mulher feliz e realizada.

Thais Prado é estudante de jornalismo, a única negra da sala e primeira pessoa da família a entrar em uma universidade.

 

3 Comentários

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3 respostas para “A menina que foi pro inferno”

  1. Ludmyla Juvenal disse:

    Putz amo essa menina, ela representa a mulher que luta pelo seu espaço, em qualquer geração.
    Eu tenho orgulho de fazer parte da vida dessa mulher-menina.
    Thaís o céu para vc é o limite. ❤️

  2. Luis Antonio disse:

    Nem me espanto conheço várias meninas que passam por isso, é triste porque a ignorância se torna o Deus maior da moral e bons costumes. Bacana é que a experiência a tornou uma mulher mais forte e segura de si, parabéns adorei o relato e sucesso em sua caminhada.

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