A vida como fio condutor de Mana Bernardes

Poeta, designer de relações e processos de objetos e instalações com desenvolvimentos humanos: é assim que a artista define seu caminho criativo. Atuando em múltiplas plataformas, ela bateu um papo com a gente sobre seu trabalho e a voz feminina (dela e do entorno)

03.01.2019  |  Por: Crib Tanaka

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A vida como fio condutor de Mana Bernardes

O fio condutor do trabalho de Mana Bernardes é a sua própria vida. Simples – e intenso – assim. Designer de acessórios, escritora, artista, ela passeia por diferentes plataformas: seja em trabalhos autorais ou em parcerias com outras marcas e mulheres.

Tudo começou quando, pequena, Mana viajou para uma aldeia Pataxó com seu pai e viu que os índios faziam colares com escama de peixe, raspa de pedra, sementes. De volta à cidade, começou a desenvolver peças com que ela achava no seu entorno: garrafas pet e o que mais era jogado no lixo. Suas criações, inusitadas, levam a um momento de reflexão e novo olhar sobre o descarte e objetos do cotidiano.

“Com 12 anos, fiquei dois anos sem poder ir para a escola, com uma doença autoimune no intestino, e comecei a fazer colares. O que me curou foi esse processo da manufatura, de não parar de mexer as mãos, do pensamento estar sempre no que se está fazendo, a relação do pensamento com a mão. Então, o fio de condutor de tudo o que eu faço é a minha própria história de vida, sabe? É exatamente como eu comecei e por que eu comecei, através de um processo de cura mesmo”, conta ela.

Depois dos acessórios, na adolescência, vieram os os poemas. E a escrita em si, muito peculiar, com uma caligrafia diferente que hoje tanto estampa telas quanto sapatos (como na coleção recém-lançada com Paula Ferber, tatuagens temporárias da Le Petit Pirate e objetos de decoração da Tok&Stok.

Sandália da coleção feita em parceria com Paula Ferber

“Quando era adolescente, mergulhei muito na escrita e de uma maneira totalmente intuitiva. Era tão intenso pra mim que baixavam as coisas e eu nem separava as palavras. Eu já tinha uma caligrafia toda diferente e escrevia com tanta intensidade que as palavras vinham juntas na minha mão, uma na outra, com várias histórias, que eu não conseguia parar de escrever”, ela diz, complementando: “O grande desenho que eu faço, quando eu escrevo, é desenhar a relação. E se tem uma coisa que sintetiza todos os projetos grandes que eu faço hoje, é de que maneira eu vou desenhar a relação.”

É essa relação que também permeia a sua recente parceria com o Avó Veio Trabalhar, um projeto português que reúne senhoras acima de 65 anos que produzem objetos de design. Com elas, Mana desenvolveu uma instalação que ficou em cartaz no MUDE (Lisboa), na exposição Tanto Mar, Fluxos Transatlânticos para o Design, com curadoria de Adélia Borges. A parceria resultou em uma grande espiral bordada em tecido com palavras que foram trocadas e divididas durante todo o processo de manufatura.

“Sou uma mulher que acredita muito profundamente na realização e a minha realização é uma maneira de trazer muitas mulheres comigo. Eu quero profundamente incentivar o processo de novas líderes, trazendo suas vozes pra ecoar, sua poesia pra fora, entendendo a arte e a expressão como um processo de cura do nosso próprio karma. Essa sou eu. Eu acredito na cura através da expressão.”

Esse mundo masculinizado que a gente atravessa, de líderes homens, virou um projeto falido, né?

Como estamos falando de arte, pergunto a ela como ela vê hoje os espaços em museus e galerias dedicados a artistas mulheres. “O mundo tem um débito muito grande com as mulheres. Estamos em minoria na liderança de empresas, na política e, por isso, acho importante que os museus abram espaços para nós. E acho importante que existam estes espaços e agendas não só pelo débito, mas também porque acho que tem um poder quando a gente se une. Quando a gente faz um movimento da nossa força conjunta, a gente cresce muito.”

Dentre os trabalho novos, Mana tem o livro Ritos do Nascer ao Parir  (em produção) e a exposição Entrefios, que entrará em cartaz em 2019 e para a qual ouviu mulheres contarem suas histórias. Sobre eles, ela explica: “O Ritos do Nascer ao Parir é: de que maneira eu posso me atualizar com esse feminismo atual, que tem tantas coisas que acho lindas – e tem coisas que também acho às vezes agressivas e um pouco falsas? Qual é a minha atualização com o feminismo hoje? E não tem pra mim atualização maior do que reverenciar a minha própria mãe. Do que mostrar pra ela o quanto a escutei ao longo da vida. Esse livro fala um pouco sobre isso. O Entrefios é um projeto também que fala sobre relação com mães, avós, ancestrais femininos e dramas amorosos”, ela conta.

 

O livro “Manuscritos”

Entrando nesse tema, pergunto a ela sobre a relação dela com sua própria essência
feminina. “Minha relação com o meu feminino é super complexa, porque eu tenho um lado
masculino muito forte. Talvez até os meus temas sejam femininos, como uma necessidade
de equilíbrio, porque nesse mundo da decisão, de ir pra fora, eu me sinto num lugar completamente masculino, que é muito da articulação e da produção necessária pras coisas
levantarem – não é um mundo da intimidade, da célula mais delicada. É um mundo, às
vezes, muito agressivo, guerreado… Então, uma forma d’eu mesma me trazer pro mundo feminino é criar grandes projetos que me tragam pra ele. Tem outros lados que são muito
femininos no meu trabalho, como a própria escrita feita à mão. É como uma relação de ‘vou
fazer um grande projeto feminino e, no fundo, isso vai me ajudar a equilibrar a própria força
que botar esse projeto no mundo requer, que é tão masculina’. É um pouco isso.”

E como ela vê a voz feminina e sua importância? “A gente precisa de mais mulheres autoras no mundo. A voz feminina é fundamental. A mulher é mais ligada ao processo, ao todo do que está acontecendo. A gente precisa ter mais mulheres líderes, porque a nossa ética, a nossa sensação de justiça, a nossa visão sistêmica é muito importante pra sairmos do lugar horrível a que o mundo chegou hoje. É muito importante ter mais mulheres autoras, mais diretoras de cinema, mais mulheres na política, porque isso vai, ao meu ver, salvar a gente. Esse mundo masculinizado que a gente atravessa, de líderes homens, virou um projeto falido, né?”

Crib Tanaka é jornalista e escritora

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