Abraçando a solteirice

A vida de solteira feliz conquistada depois de dez anos entre lamúrias e aprendizados

12.06.2018  |  Por: Maria Clara Drummond

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Abraçando a solteirice

Gabriela Sánchez / Piscina

Eu levei um susto quando, durante um jantar depois do lançamento de uma revista, meu amigo disse: “Clara, você é a pessoa menos romântica que eu conheço. Você só quer saber de transar no banheiro da festa.” Ora, Daniel é meu amigo próximo, já me ouviu chorar por amor inúmeras vezes, como ele pode ter um diagnóstico tão equivocado!?

Durante o início da minha vida adulta, que foi quando eu comecei a ter uma vida social e sexual mais ativa, o conselho era sempre o mesmo quando eu me queixava de corações partidos: eu seria muito insegura e transmitiria demasiada ansiedade. Os homens sentiriam que eu estava à procura de um relacionamento. Somado a isso, aquele clichê velho: quando você parar de procurar, aparece.

Na época, eu era grande fã de Caio Fernando Abreu e gostava muito dessa citação: “Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado.”

De fato, eu era um anti-exemplo. Quando um paquera vinha falar comigo, meu corpo travava, as palavras não faziam o caminho do cérebro à boca, e, de repente, eu me percebia gaga. Numa tentativa de melhora, eu decorava assuntos por que eu sabia que o garoto em questão se interessava, mas é claro que isso soava forçado, e sempre acabava falando alguma bobagem.

Outro dia, uma memória remota me veio à mente. Eu devia ter uns 23 anos, estava pegando uma bebida no bar, e veio até mim um garoto que eu achava muito bonito, mas não acreditava que se interessaria por mim. Ele puxou algum assunto, num óbvio flerte. Nervosa, eu fiz alguma piada com o fato de eu estar bebendo cachaça, e citei, pasme, Marx. Não lembro exatamente o que era mas tinha a palavra proletariado envolvida. O garoto, iniciando sua carreira no mercado de capitais, se afastou, perplexo e assustado.

Por isso, encaro com surpresa a passagem abrupta entre essa garota inadequada e a mulher livre que me tornei – embora, convenhamos, igualmente inadequada. Minha impressão é que passei de um extremo para o outro pulando a etapa que seria da mulher autoconfiante e tranquila. Um dia, meu grande problema era minha insegurança. No outro, era excesso de liberdade, sobretudo de pensamento.

Desconfio que, em determinado momento, eu tenha perdido a paciência de tentar agradar os outros sem sucesso, e enfim decidi ser eu mesma, com todas as minhas excentricidades. Hoje, uso meus cabelos ao natural, e as travas são cada vez mais raras – ao contrário, eu literalmente me jogo no chão da pista de dança a qualquer sinal de músicas da Madonna ou Marina Lima. Isso resultou em alguma melhora da minha vida sexual e amorosa. Sobretudo, resultou em imensa melhora no meu estado de espírito.

É comum eu ter saudades de estar comigo mesma. Eu descarto programações para ficar sábado à noite em casa apenas com meus pensamentos. Também vou jantar sozinha num restaurante chique quando estou com vontade de comer determinado prato. Minha prioridade é estar onde eu quero estar. Tem vezes que é uma maravilha fazer sexo casual ou dançar até amanhecer. Tem vezes que é meio caído, e assim que eu percebo que não quero estar naquele lugar, volto para casa sem sentir culpa.

Não existe satisfação maior em ser quem se é, e todas as vezes que eu me vitimizo pelos meus infortúnios, eu preciso reconhecer que foram eles que me trouxeram até aqui

É estranho perceber que, apesar do meu histórico psiquiátrico complicado, uma série de desilusões amorosas, e sem a grande paixão que eu sempre aspirei, mesmo assim eu percebo que hoje sou verdadeiramente feliz. Sempre levo um susto quando tenho essa percepção.

Quando, num casamento, encontrei uma amiga de infância, e ela ao me cumprimentar, disse: “Clara, você está com sorriso de pessoa feliz!”, meu primeiro reflexo foi negar. Pelo Instagram, amigas casadas-e-com-filhos dizem que eu pareço ter a vida de solteira perfeita, e eu de imediato contra-argumento: “Isso é porque você não me vê chorando no táxi enquanto volto para casa às cinco da manhã ouvindo Roxette.” Mas não existe satisfação maior em ser quem se é, e todas as vezes que eu me vitimizo pelos meus infortúnios, eu preciso reconhecer que foram eles que me trouxeram até aqui.

Meus fracassos fizeram com que eu me esforçasse muito durante o processo de psicanálise – e demais terapias alternativas, tais como aula de teatro, canto, pintura, ginástica, dança do ventre, astrologia, meditação, corrida, tarô, missa, reiki. Eu confesso que todo esse tempo e dinheiro eram destinados mais a um objetivo específico que em alcançar a satisfação pessoal. Na minha cabeça, a satisfação viria com o sucesso profissional, financeiro e amoroso. Ou seja, uma visão bem burguesa da felicidade, digamos assim.

Esse texto não tem uma mensagem edificante. Sabe quando todo mundo diz que você só pode ser amada quando amar a si mesmo? Então, isso é apenas parcialmente verdade. Ao contrário, muitos relacionamentos são construídos na base da castração da personalidade da mulher que prefere estar com um sujeito canalha a estar solteira. A mulher foi educada para agradar o homem e não a si mesma. Dessa forma, a verdadeira satisfação pessoal feminina é postergada até que haja algum despertar interior.

A autoestima vem quando nos sentimos confortáveis na nossa própria pele. Mas, à medida que isso acontece, simultaneamente vamos deixando para trás aspectos que são considerados socialmente aceitáveis, como um padrão de beleza e de comportamento muito estrito. Em suma, nos tornamos menos normativas, e, na ausência de uma palavra melhor, mais autênticas. O preço que se paga por sermos fiéis a nós mesmas é que estamos mais propensas à rejeição. A sociedade não foi constituída para que as mulheres sejam livres e felizes. Há represálias muitas vezes dolorosas. A boa notícia é: uma vez que esse estado é alcançado, mais somos indiferentes à opinião alheia. Como diz a musa Tati Quebra-Barraco: “quem gostou bate palma, quem não gostou paciência.”

O.k., para ninguém essa sensação de bem-estar é estável. Às vezes, entro numa dialética perversa e neurótica, e me pergunto se essas afirmações empoderadoras não são apenas um método de consolo, ou esse ser humano amalucado não é apenas uma persona construída para me defender do mundo.

Tenho recaídas em que ligo para meus amigos chorando por causa de algum boy-lixo. Toda vez que isso acontece, significa a volta da menina com autoestima acachapante, aceitando migalhas na forma de afeto – ou, nas palavras de Stephen Chbosky, nós aceitamos o amor que achamos merecer. E então eu me percebo falando absurdos que confiscariam minha carteirinha de feminista. Inveja, ressentimento e esse sistema de valores superficial e burguês vêm à tona. Do nada, passo a delirar com um fim de semana de casal na praia, mesmo que seja ao lado do cara que provou por a + b que não presta.

Essas crises têm se tornado cada vez mais passageiras e raras. Recentemente, me deparei uma frase atribuída à jornalista francesa Françoise Giroud, e que acho que resume muito bem minha trajetória errante, porém nada solitária, e que muitas outras mulheres também podem se identificar: “Não sentir vergonha de si mesmo é a maior realização da liberdade.”

3 Comentários

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3 respostas para “Abraçando a solteirice”

  1. Renata Oliveira Santos disse:

    Amei o texto. Virei sua fã!

  2. Janda Tamara disse:

    me identifiquei profundamente!

  3. Ariane De Oliveira Mamede disse:

    ÓTIMO TEXTO. BEM FRANCO COM A AUTORA E COM O EXPECTADOR. ESSA FRANQUEZA EM SER QUEM SOMOS É EDIFICANTE, PRINCIPALMENTE EM ADMITIR A DOR E AS DUVIDAS QUE AS VEZES APARECEM E SÃO NORMAIS. PARA QUEM LÊ SOLTEIRA NUM DIA DOS NAMORADOS É INSPIRADOR E ENCORAJANTE. OBRIGADA!

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