Amor e ódio pelo álbum de figurinhas da Copa

Como cada Messi repetido pode abalar seu amor pelo futebol

03.05.2018  |  Por: Leonor Macedo

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Amor e ódio pelo álbum de figurinhas da Copa

Eu amo futebol. Sempre fui louca pelo Corinthians e meu tio Paulo sabia disso. Até morrer, ele grudava os olhos na TV toda vez que passava um jogo do Coringão para ver se me via nas arquibancadas – ainda que ele em si não gostasse muito de futebol. Vai ver que foi por isso que tio Paulo nunca me deu um álbum de figurinhas da copa.

E este é um fato curioso, porque meu tio amava dar álbum de figurinhas para todos os sobrinhos. Era o presente preferido dele. Mas o que ele gostava mesmo era colar as dita cujas, sim, ele nos dava o álbum completo. Completinho da silva. Ficava meses comprando os pacotinhos, abrindo um por um e colando com perfeição a figurinha no retângulo. Não tinha nenhuma torra, engruvinhada ou com uma das pontas viradas para dentro. Nada.

Nunca entendi muito bem aquilo. Era até legal ter o álbum completo, mas dali duas ou três folheadas eu perdia o interesse e em pouquíssimo tempo ele estava no lixo. Porque o legal mesmo é abrir os pacotinhos, achar aquela figurinha rara ou a última para completar a página.

Mas tio Paulo nunca completou um álbum de figurinhas de futebol para mim.

Meu primeiro álbum da Copa do Mundo foi em 2002. Veja bem: eu era mãe de um bebezinho e, entre uma mamada e outra, desfrutava do prazer que era rasgar devagarzinho aquele pacote só pra descobrir se, finalmente, tinha tirado o Ronaldo, o Oliver Kahn ou o Darío Rodríguez. Apaixonante. Mas não me apeguei. Fiz alguns, outros não. Talvez se meu tio tivesse investido neste ponto específico, hoje eu seria apaixonada pelo maldito álbum e não estaria aqui para reclamar do preço das figurinhas da Copa.

Sim, o bebê cresceu (faça as contas) e é doido para completar o tal álbum. Só que quem paga os pacotinhos e as contas (todas elas) sou eu. Gente, R$2 por 5 figurinhas, sendo que depois de um tempo vêm quase todas repetidas? Socorro. A cada Messi que sai repetido vejo cifrões indo pro ralo. E cada vez que ele me pede uma grana para ir comer com os amigos ou pegar um cinema penso quantos pacotinhos daria pra comprar.

Você acha que eu estou exagerando? Li numa reportagem esses dias que para preencher o álbum se gasta entre R$ 447 e R$ 1.956, dependendo é claro da disposição de cada um para, além de comprar novos pacotinhos, trocar figurinhas. Supondo que meu filho esteja entre os que se dedicam à troca, mas próximo da média, significa que quando a figurinha derradeira for colocada com esmero e amor teremos gasto cerca de R$1.000. Meu Deus, algo me diz que eu jamais deveria ter feito essa conta…

E dizem que perder o campeonato para o principal rival é a pior coisa que o futebol pode fazer por nós. Agora, tenho dúvidas.

Leonor Macedo é jornalista, mãe do Lucas e corinthiana. Por trás do sorrisinho bobo da foto existe uma maloqueira que passou boa parte da vida no cimento duro das arquibancadas

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