‘Animal Cordial’: um filme sobre as relações de poder

Longa da diretora Gabriela Amaral retrata com sensibilidade, sarcasmo e muito sangue a cidade de São Paulo e suas latências

05.09.2018  |  Por: Yera Dahora

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‘Animal Cordial’: um filme sobre as relações de poder

Foto de divulgação | Josué Souza

Um restaurante paulistano pretensioso caminha para o fim do expediente com a presença de clientes em apenas duas mesas, está tarde. O restaurante é invadido por dois assaltantes que fazem os clientes e os trabalhadores de reféns. Em pouco tempo, o jogo vira: é o dono do restaurante armado que mantém os assaltantes, os clientes e os trabalhadores como reféns. É assim que se inicia a trama do filme Animal Cordial, de Gabriela Amaral Almeida, que se assume enquanto filme de gênero desbravando um suspense escatológico intenso e envolvente com passagens sarcásticas. Não gosto do termo spoiler e também não entendo o problema que as pessoas têm em saber os finais dos filmes antes de assisti-los; mas quem tem esse tipo de problema talvez prefira ler este texto somente depois de ver o filme.

Dentro do contexto do cinema nacional, que parece sempre ter enfrentado as dificuldades de um mercado carente no quesito financeiro (apesar de “filmes-exceções” e alguns momentos pontuais, essa carência permeia o histórico da cinematografia nacional), é preciso encontrar formas de se produzir histórias audiovisuais que driblem as dificuldades econômicas – ou seja, fazer um bom filme com pouco dinheiro. O primeiro longa de Gabriela Amaral resolve bem essa questão: se desenrola todo em uma única locação, diminuindo os custos de produção, ao passo que contempla um enredo inteligente e cativante. Fora a locação, o filme não conta com a participação de nenhum tipo de figuração, teve uma equipe mais enxuta em comparação à maior parte das produções brasileiras e, por consequência de vários fatores como os citados, foi filmado em apenas três semanas.

Trata-se de um filme de roteiro e de atuação, que é muito bem resolvido enquanto tal. A trama é envolvente, o que por si só já é uma vitória (não há filme bom sem roteiro bom, é ele o esqueleto e a estrutura da história narrada). Essa trama é representada por um leque de muitos bons atores (é o ator o “agente-alma” do filme, e, se o espectador não se deixar levar por sua presença, o processo de envolvimento é limitado). A história é sobre relações de poder. Poder que se desloca entre os personagens o tempo todo (embora prevaleça sobre o “homem hétero-normativo” na maior parte do tempo). À medida que o poder se desloca, o espectador se desdobra, na tentativa de compreender quem será o vencedor da história.

Apesar de o detentor de poder ser o dono do restaurante na maior parte da história, os únicos sobreviventes à série de mortes que ocorrem são a mulher e o cozinheiro gay e nordestino – os verdadeiros heróis. O cozinheiro sobrevive por conta de seu poder, que existe num lugar sutil e quase invisível, mas que está sempre ali. Ele incomoda o dono do restaurante por ser gay e, portanto, tem poder sobre seu imaginário. É ele também o verdadeiro responsável pelo sucesso ou insucesso do restaurante, por ser o chefe da cozinha: há uma dependência por parte do dono, por mais que pessoalmente não goste dele.

Em Animal Cordial, conhecemos um novo tipo de sexo representado: o sexo da mulher soberana que goza montada no corpo do homem imóvel e sem voz

A mulher garçonete – que é, ao longo de toda trama, submissa ao dono do restaurante, por quem é apaixonada – conclui a história sendo a real heroína. É essa exsubmissa que estupra o homem e, literalmente, destrói o seu corpo na cena final, nua, com os seios de fora. É a mulher empoderada que vence, assim como a diretora do filme e como todas nós que, cada vez mais, ganhamos um espaço mais justo na sociedade. As cenas de sexo são comuns no cinema desde sempre: num primeiro momento, eram apenas a exposição das panturrilhas das moças no cinema dos anos 1920 que causavam alvoroço; no cinema noir, as sugestivas cenas de sexo, que davam a entender o ato consumado; e assim por diante ao longo do século XX e início do século XXI. Já vimos cenas de estupro (sempre por parte do homem), cenas de sexo fogoso (com maior ou menor exposição do corpo) e cenas de sexo morno e banal. Mas, em Animal Cordial, conhecemos um novo tipo de sexo representado: o sexo da mulher soberana que goza montada no corpo do homem imóvel e sem voz.

A direção parece sempre muito consciente de suas escolhas de decupagem: as lentes fechadas para corroborar com a sensação de aprisionamento; os planos da cozinha-cativeiro são baixos, para reiterar a perspectiva dos presos; o vidro-janela da cozinha para o salão faz o cozinheiro ser um prisioneiro desde o início, por conta das escolhas de enquadramento. A trilha sonora feita para o filme é singular e envolve o espectador dentro da tensão proposta. O trabalho dos atores é muito bom, em especial do casal protagonista: Murilo Benício contido, com olhar impetuoso, dá conta de apresentar um psicopata em uma atuação nunca antes vista. Luciana Paes, sempre maravilhosa em tudo que faz, transita entre a apaixonada devota e um pequeno animal feroz.

Assim como Marco Dutra, Juliana Rojas e Kléber Mendonça conferem uma identidade a um cinema local (nesses casos, em São Paulo e Recife), sintetizando questões pertinentes ao Brasil, como as diferenças de classes sociais, a gentrificação ou a ideologia conservadora, Animal Cordial retrata com sensibilidade, sarcasmo e muito sangue a cidade de São Paulo e suas latências, trazendo uma forte contribuição ao cinema nacional. O coxinha careta arrogante – que, na “hora do vamo ver”, é um mijão nas calças; a madame pretensiosa e egoísta; o ex-policial decadente que não tem poder algum; os assaltantes desesperados e frágeis; o dono do restaurante ambicioso que almeja cinco estrelas na Veja; o “bicha” nordestino que não perde a compostura diante de uma ameaça e a mulher ex-submissa que, entre estar atrás do homem que ama e destruí-lo, se reestrutura internamente para ser uma nova mulher. Estão todos lá, presos em um restaurante – uma das marcas próprias da cidade de São Paulo. Não haveria cenário mais apropriado.

 

Yera Dahora participou do cineclube do Instituto Equipe, é formada em cinema pela FAAP e estudou os filmes de Pedro Almodóvar e comédias românticas americanas dos anos 1990/2000. Trabalhou na área de produção de elenco e assistência de direção de longa-metragem. Fez especialização em roteiro na ROTEIRARIA e inicia sua carreira como diretora 

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