As mazelas da Ilha da Fantasia por lentes femininas

Com equipe liderada por mulheres, o filme 'Los Silencios', de Beatriz Seigner, fala da guerra do tráfico sem mostrar violência

15.04.2019  |  Por: Taina Nogueira

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As mazelas da Ilha da Fantasia por lentes femininas

Cena do filme "Los Silencios". Foto: Juliana Vasconcelos

A Ilha da Fantasia é um lugar tão remoto da América Latina que tem até um “presidente” próprio – embora tecnicamente seja território colombiano. Localizada na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, é uma aldeia de casas de palafitas que fica submersa durante quatro meses do ano. Ali vivem cerca de 800 refugiados das guerras contra os narcotraficantes da região. Podemos dizer que é uma espécie de não-lugar latino-americano, assim como a Macondo do escritor Gabriel García Márquez.

É nesse cenário de realismo fantástico que a diretora Beatriz Seigner ambientou o longa-metragem Los Silencios. Premiado no Festival Internacional de Estocolmo e no Festival de Brasília, o drama – feito por uma equipe diversa e chefiada por mulheres – entrou em cartaz nos cinemas brasileiros em 11 de abril.

É um filme sobre as dores da guerra, mas no qual a violência está sempre fora de quadro – uma escolha ética e estética de Beatriz. O conflito é pressentido, por exemplo, pelos sons – de tiros ouvidos por um telefone celular, ou da hélice de um barco que é confundido com um helicóptero, evidenciando o trauma das vítimas. No olhar cuidadoso da diretora, essas memórias são embaladas pelo sobe e desce das águas do Rio Amazonas. “A Ilha da Fantasia virou a alma do filme. Era importante que ele tivesse esse movimento da água, que invade a casa conforme a dor de uma mulher (vivida pela colombiana Marleyda Soto) também transborda”, diz Beatriz.

A diretora Beatriz Seigner. Foto: Juliana Vasconcelos

A diretora conversou com mais de 80 famílias colombianas refugiadas no Brasil para escrever o roteiro. Na cena mais tocante e documental, a cineasta reúne ex-guerrilheiros das FARC, ex-paramilitares e parentes de vítimas – todos, por motivos diferentes, de luto. “São pessoas que estiveram em situação de guerra, que perderam o pai, o filho, irmãos. Pessoas de todos os lados do conflito que pela primeira vez falaram sobre como foi esse processo para eles. Aquilo foi tão forte… Filmamos por sete horas seguida. O resultado foi uma catarse”, ela relembra. No filme, a cena é tocante e reveladora.

Beatriz contou com uma equipe majoritariamente feminina e representativa da diversidade da região. A direção de fotografia é de Sofia Oggioni (Colômbia); Marcela Gómez (Colômbia) é a diretora de arte; Renata Maria (Brasil) assina a montagem; o figurino foi criado por Ana María Acosta (Colômbia); Mari Figueiredo (Brasil) é a responsável pela maquiagem; e Juliana Vasconcelos (Brasil) cuidou do still e do making of. “O importante era ter mulheres tomando as decisões. Precisamos lembrar que muitas vezes elas são colocadas nas equipes de filmagem como assistentes ou produtoras. Para mim, o importante era que elas fizessem de fato as escolhas”, diz a diretora.

A partir dessa experiência, formou-se um set mais acolhedor que os costumeiros. Durante as filmagens, por sinal, Beatriz e mais duas profissionais da equipe estavam amamentando. “Todo mundo que estava com bebê trouxe a avó ou o pai, então oferecemos hospedagem e alimentação para os acompanhantes também”, ela diz. Além disso, a produção escolheu um hotel com espaço para crianças e contratou uma pessoa para auxiliar as famílias. Essas pequenas ações tornaram o set mais confortável para mães e filhos, conta a cineasta.

O longa foi exibido em maio do ano passado no Festival de Cannes – onde Beatriz participou, ao lado de atrizes e diretoras, da marcha do tapete vermelho, protesto que cobrou paridade de gênero no cinema. “Só consegui montar a equipe porque teve muita luta de mulheres antes de mim”, ela afirma. “Agora, na França, o Ministério da Cultura assinou um termo garantindo que até 2020 metade do fundo setorial será para projetos capitaneados por mulheres. É um movimento mundial, que tem muita troca com coletivos feministas de muitos países”, conta Beatriz.

Taina Nogueira é reporter freelancer

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