Beije sua preta em praça pública

Parece pouco, mas é o que queremos e, acredite, não estamos acostumadas a receber: confissões de uma mulher negra na véspera do Dia dos Namorados

11.06.2018  |  Por: Monica Honorato

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Beije sua preta em praça pública

Capa da Revista do MNU - Movimento Negro Unificado

Eu nunca fui uma pessoa de datas: Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia das Crianças, Páscoa. Nunca liguei. Isso porque meu pai sempre buzinava na nossa orelha o quanto essas datas foram criadas pelo capitalismo só pra nos fazer comprar mais e mais. Já minha mãe se importava mesmo era com o Dia das Mães, quando tínhamos a obrigação de levá-la para almoçar fora, afinal: “Hoje eu não vou cozinhar!”

Nesse meu núcleo familiar mais próximo, a única data para qual ligamos é o Natal – muito porque ele é um ótimo motivo para reunir a família. Contudo, por esses dias me peguei pensando no Dia dos Namorados. Ele é complexo para mim. Porque apesar de ser algo para se comemorar em dupla, tem uma coisa da gente com a gente mesmo, independente de estar ou não num relacionamento.

E aqui cabe falar da pertinente questão da solidão da mulher negra, mesmo que eu, pessoalmente, nunca tenha me colocado muito nela. E veja, não porque não aconteça, mas apenas pelo fato de não ficar matutando sobre isso. Contudo, ando pensando que o Dia dos Namorados talvez seja uma boa data para se falar dessa realidade e pensar sobre o lugar que ocupo nela.

Amor não tem cor?

De todas as (muitas) amigas negras que tenho, apenas cinco estão em um relacionamento sério ou são casadas. E na maioria dos grupos de mulheres negras dos quais faço parte é costume ver reclamações sobre o quão difícil é estar em um relacionamento. Ou, ao menos, sair com alguém legal, com continuidade. E aqui vale dizer: não me venham com a ideia de que “amor não tem cor”. Atração tem, sim, estética. E essa estética na maioria das vezes não combina com ir com uma mulher negra a um restaurante, cinema ou café. Por isso, a conversa nesses grupos sempre chega na mágoa de não nos sentirmos assumidas por conta de nossa cor.

Em função dessa realidade, a frase “Beije sua preta em praça pública” virou um hino pra mim. Ela estampou a capa de uma publicação do MNU (Movimento Negro Unificado), que ilustra este texto. E vem com uma mensagem implícita: é preciso estabelecer o espaço público como um local de trocas afetivas para negros. Não existe nenhum motivo para não nos assumirem.

De muitas frases que a minha mãe sabiamente disse a vida toda duas eu só fui entender quando adulta: “Ser mulher é difícil, ser mulher negra é muito mais” e “Você nunca deve sair com alguém escondido”. O homem que sai com a mulher negra escondido, dizendo “Assim é mais gostoso”, me remete ao sinhozinho transando com a escrava (escondido), porque ele não a levaria para passear, certo? Afinal, ela existia para ele não como pessoa, e sim como objeto de prazer. Achou pesado? Imagina viver isso na pele.

Pra mim a lógica das atitudes atuais são consequências dessa linha do tempo que começa no período colonial. Não mudou muita coisa. A mulher negra hiperssexualizada e o quanto alguns homens não enxergam um corpo negro digno de ser amado e respeitado. É doloroso, cansativo e devastador.

Mas eis que o Dia dos Namorados está aí e, desta vez, estou pensando sobre ele solteira e em Nova Iorque, mais precisamente no Harlem. O Harlem é um bairro negro e (por que será?) considerado por muitos brasileiros como perigoso. Mas, na verdade, é vibrante e transborda uma cultura incrível. E, juro, não é exagero, esse bairro está me curando de muitas mágoas. Ser uma mulher negra no Harlem é, sem modéstia, ser chamada de black queen e beautiful black sister por homens e mulheres a cada esquina. Surra de autoestima todos os dias. E, claro, muita inspiração.

Aliás, sinto a questão do colorismo bem forte aqui. Você não é negra ou negro, você é light, brown ou dark skin. Mas há controvérsias, claro. Tem gente que diz que sou dark skin, outros que sou brown e tem aqueles ainda que dizem que nem negra sou, e devo ser chamada de “afro-latina”. Meu ponto aqui é: não importa o tom da pele, a todo momento o Harlem simbolicamente grita pra nós: “Aqui nós queremos (sem ter vergonha) beijar nossa preta dark skin em público.”

‘Dates’ na gringa

Claro que eu não iria perder a oportunidade de ter dates nessa vibe. E sendo negra de pele escura, senti uma diferença enorme entre estar solteira em São Paulo e estar solteira em Nova Iorque. Meus dates aqui foram todos negros. E veja, em São Paulo a maioria também era negra. É importante dizer que acredito que essa questão afeta todos os homens de maneira geral, sejam negros ou brancos. Mas aqui fui beijada em público e andei de mãos dadas, e isso, pra mim, significa muito. Foge totalmente da situação corriqueira de apenas sair pra transar (com o sinhozinho) às escondidas – porque ele diz que não quer um relacionamento agora e prefere um formato não monogâmico. Mesmo que no outro dia esteja de mãos dadas com uma mulher branca, prontinho pra casar. Aqui não. No Harlem não sou coadjuvante no amor, sou protagonista.

Convites pra jantar, tomar café, ir ao museu, passar à tarde em um parque… Eu merecia isso. E mais, eu precisava disso. Fiquei radiante e feliz, é tão nítido. É desse amor que nós mulheres negras precisamos, merecemos e vivemos questionando exatamente porque não recebemos. Onde estavam esses singelos e poderosos atos? Tudo tão simples: Sentar num parque e falar sobre a vida, andar de mãos dadas e por fim ser beijada em público. Parece pouco, mas é o que queremos e, acredite, não estamos acostumadas a receber.

Monica Honorato é também “Monicat”, produtora e jornalista que trabalha com publicidade. É feminista negra e adepta de um estilo de vida saudável: acredita na sintonia da comida limpa e na harmonização dos bons pensamentos para um equilíbrio do corpo físico

 

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