Beijo na boca também é coisa pra casal!

Em tempos de pandemia, uma simples bitoca ganhou status de joia rara. Você, que tem um par fixo, já abriu seu cofre hoje?

22.12.2020  |  Por: Lia Bock

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Beijo na boca também é coisa pra casal!

Existem poucas coisas no mundo melhores do que beijo na boca. Aquele beijo bem dado, que, enquanto beija, encosta o corpo inteiro, sabe? Um beijo molhado em lábios que encaixam nos nossos é coisa das deusas. E beijo bom mora tanto na namorada ou no marido como também naquele sujeito (ou sujeita) que a gente nem sabe o nome e se enrosca durante o bloco de carnaval. Pelo menos foi assim até o começo de 2020. Parece que essa categoria de beijo aleatório e anônimo vai ficar suspensa por algum tempo. Pessoal vai até beijar crushes do Tinder, claro, mas não sem antes bater umas boas horas de papo no chat, saber nome, RG, crença e resultado do PCR. Porque se tem uma coisa que não para, nem na pandemia, são os apps de paquera. Mas não dá pra negar que beijar mesmo, sem dó ou teste preliminar, vai ser coisa pra casal.

E aí é que entra o desperdício: o que tem de casal que não se beija neste mundo… Porque eu não estou falando de selinho não, me refiro aqui a beijos molhados, aqueles que puxam o lábio e entrelaçam línguas. É uma tristeza perceber que o tempo de um relacionamento é inversamente proporcional à quantidade de beijo deste mesmo casal. Passam os anos e diminuem as trocas de saliva. E vejam: beijo puxa corpo, corpo puxa sexo, sexo puxa conexão, conexão evita briga. Beijo é praticamente um antídoto contra a monotonia marital. Mas, ao que parece, muitos casais preferem seriados com temporadas intermináveis. 

Tem gente que transa mais do que dá beijo na boca, o que não é o pior cenário, verdade, mas eu ainda acho um pouco triste. O sexo sem beijo é como a praia sem mar. Quando uma boca cola na outra as respirações se conectam, os olhos se fundem, os peitos se encaixam e a respiração sincroniza. O beijo é como a última peça que completa o quebra cabeça, como o encaixe da chave que, num clique, abre o cadeado. E um beijo bom tem o poder de levar a gente pra uma outra dimensão, onde cabe sexo, cabe amor, cabe farra, cabe casquinha, cabe paixão, cabe dois, três ou mais. O beijo é uma espécie de portal. Beijo é leveza e liberdade.

Muitos casais param de beijar porque o beijo demanda entrega, intimidade e uma faísca de paixão 

Mas por que será que com o tempo os casais desencanam de beijar? Tem gente que acha que depois que acostumamos, o beijo perde a graça. Mas eu discordo. Acho que na verdade muitos casais param de beijar porque o beijo demanda entrega, intimidade e uma faísca de paixão que muita gente não quer dar. Sim, porque faísca a gente produz e pra entrega a gente tem que se doar, estar disposto a baixar a guarda, e isso significa engolir os sapos, as brigas, os boletos e a louça pra lavar. 

É por isso que, às vezes, é mais fácil beijar uma desconhecida ou um desconhecido do que um companheiro(a) de muitos anos. Uma boca sem história pregressa é como um papel em branco, é como sentar no carrinho de uma montanha-russa diferente pela primeira vez. Já o beijo em quem há anos dorme ao nosso lado precisa superar todas as barreiras do dia, do ano, da vida pra desenrolar. 

É praticamente um paradoxo. Explico: é como se a vida a dois fosse construindo barreiras para o beijo, justo ele, um santo remédio para os problemas que assolam os casais. E por que a vida faria isso, meu Deus? Bom, se a gente pensar que na construção social o casal é aquele par que se atura e cria os filhos (os gatos ou as samambaias), o beijo só teria a estragar. Afinal, nem todo mundo está preparado para jogar amor, conexão, desejo e transparência numa relação, não é mesmo?

 

Lia Bock é jornalista e mãe de quatro. É comentarista na CNN Brasil e autora dos livros Manual do Mimimi, do Casinho ao Casamento e Vice-versa e Meu Primeiro Livro, ambos pela Cia. das Letras

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