Bem-gozar é bem-viver

O orgasmo é um direito universal, mas não são todas as mulheres que têm a privilégio de ter a privacidade necessária para descobrir os seus corpos

31.07.2021  |  Por: Caroline Amanda Borges

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Bem-gozar é bem-viver

O ano é 2020, pandemia, isolamento social. Para algumas, período de reflexão, autocuidado, silêncio, privacidade, sexy toys; para outras, aglomeração doméstica, sobreposição de funções, sem direito a “mommy burnout”. 

Desde antes do coronavirus, eu já me questionava sobre a abordagem de algumas vozes da ginecologia natural, da sexualidade positiva ou mesmo do autocuidado. 

Afinal, essa tríade envolve atenção à intimidade, zelo por tudo que não é comumente publicizado ou exposto. É sobre aquilo que está, na maioria das vezes, invisível aos olhos. 

Então, já me questionava muito sobre para quem era esse diálogo, essas metodologias, se essas linguagens eram acessíveis. E eu chego à conclusão que ainda não são.

O período em isolamento social me fez constatar, através de depoimentos nas sessões terapêuticas e nas consultorias em educação e saúde sexual que realizo, o que já presumia. A privacidade, por exemplo, é um privilégio no Brasil, fundamentalmente para mulheres negras e aquelas que vivem nos territórios considerados margens na sociedade. 

Neste cenário, surgiu o conceito de sexualidade criativa e inclusiva, já que acredito que a criatividade é um recurso de sobrevivência das mulheres negras e periféricas no Brasil. Pode até ser um dom, mas sobretudo um meio. Então pensei: 

Por que não direcionar essa energia criativa para promover recursos de prazer sexual para todes, desde a menarca? Menarca sim, pois não basta visibilizar apenas a precariedade menstrual, mas toda a beleza e prazer que os hormônios manifestam a partir desse marco. 

No entanto, as orientações das revistas, blogs e afins, desconsideram a assimetria social no Brasil e padronizam os modelos de família e habitação ao universalizarem o acesso à privacidade, supondo que todas as adolescentes têm um quarto rosa para chamar de seu, colaborando mais uma vez, para exclusão simbólica e objetiva de um sem números de meninas que se tornarão mulheres.

Alguma de vocês já leu nessas revistas, algo como: 

“Vá para o seu quarto, garanta que a porta esteja fechada , se toque calmamente e reconheça seu corpo”?

Agora tente imaginar uma cena dessa em uma casa que tem três cômodos, um único quarto, cinco, seis ou sete moradores. Como se trancar no quarto ou mesmo alugar o banheiro por mais de 15 minutos? 

A premissa básica da intimidade pressupõe privacidade e reforço: a privacidade é um privilégio no Brasil. 

Só por esse recorte, já temos a régua que separa, quem é que pode desenvolver intimidade saudável, consciente e quem é que tá absolutamente alienada de si. Não por que não tem vontade de se acessar, se entender, de se tocar, mas porque não tem como, não tem espaço e tempo adequado para isso. 

Por isso e por tanto, que não caberá nesse texto, tenho aplicado o conceito de sexualidade criativa e inclusiva como recurso, é sobre se permitir sentir prazer com o que está disponível. Embora, hoje em dia atenda mulheres com razoáveis condições financeiras and blogueirinhas famosas, sempre separei semanalmente um dia para atendimento social e uma das coisas que as mulheres de quebrada mais reclamam é sobre o som do sexo!  Mais uma vez, a  questão sócio-habitacional se impõe, já que as casas são muito coladas, e costumam comprometer a privacidade do casal. 

Interpreto essa realidade de várias maneiras, pois nesse caso o gozo é reprimido em muitos sentidos. A cada atendimento saio mobilizada por muitas questões, especialmente quando penso nos impactos da supressão da expressão sexual e do prazer por meio do espaço. 

Nestes momentos, engulo seco, interajo de maneira descontraída e proponho alternativas criativas e inclusivas, as convido para desenvolver juntas algumas alternativas e proponho colocar um som um pouco mais alto enquanto rola a transa. Alterar os horários do sexo para momentos menos silenciosos em relação a madrugada.

Sempre digo que é fundamental ter rede de apoio, inclusive para o sexo, alguém que possa ficar com as crianças no período da tarde ou mesmo em algum momento do final de semana para facilitar a festa!  

Ou seja, quando eu falo de sexualidade criativa e inclusiva eu tô falando de circunstâncias que são obviamente, produtos da desigualdade social que impacta profundamente na relação de intimidade dessas mulheres.

O mais importante e que tem valido a pena,  me sinto feliz  quando elas conseguem, me ligam ou mandam mensagens que deu tudo certo. Minha alegria não cabe em mim! 

O conceito sexualidade criativa e inclusiva faz sentido nesta hora, pois é sobre cidadania plena, sobre o acesso ao prazer, que é – ou deveria ser – um direito universal. 

O orgasmo é um direito universal. Não basta bem-viver é necessário bem-gozar!

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