Bicho doméstico (ou não aprendi dizer adeus)

Isabel Guéron relembra cães e gatos que marcaram a sua vida – e a dor que foi perder cada um deles

04.07.2018  |  Por: Isabel Guéron

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Bicho doméstico (ou não aprendi dizer adeus)

Sempre tive bicho doméstico. Sempre. Desde que tenho qualquer consciência da minha existência, havia ali na minha convivência íntima um animal. Uma casa com quatro crianças e um quintal grande foi a desculpa para inúmeras espécies. Cachorro, gato, pinto, peixe, tartaruga. Meu pai de bom humor era capaz de arranjar até um cabrito, se insistíssemos muito. Aos 9 anos, quase emplaquei um macaco, com a conivência do meu tio. Foi a única vez que minha mãe, sabiamente, vetou: “Se entrar o macaco, saio eu!” Optamos por ela.

Ao todo, e ao longo de vários anos, foram oito cães, três gatos, um aquário, dois cágados e uma meia dúzia daqueles pintos que davam de graça na feira. Um virou galo, uma fera. Fugi dele, dentro da minha própria casa, durante seis meses, até seu desaparecimento misterioso. Acho que virou churrasco na festa da cumeeira da casa vizinha.

No meio de toda essa convivência, confesso que tive meus preferidos. Aqueles cujo desaparecimento foi doloroso. Porque ter bicho é conviver com a perda. O galo eu nem liguei, confesso. Mas teve o Bareta, que já existia quando eu nasci, e morreu velhinho, junto com o final da minha infância. E a Sabrina, nossa siamesa temperamental, com nome de pantera e um nó na ponta do rabo. Quando ela se foi eu estava na casa do meu primeiro namorado. E minha mãe, recém-separada, ligou aos prantos pra me contar. Como se a gata fosse um restinho de outros tempos. Na verdade era.

Logo uma amiga me ofereceu outra gata. Ganhou do namorado, mas detestou o presente. Peguei. Nem perguntei pra minha mãe, mesmo ainda morando com ela. Cheguei em casa e joguei aquela bolinha persa e ruiva no sofá. Demorou 37 segundos para ser aceita. Sofia era o nome dessa gata, que teve três crias, uma atrás da outra. Na última eu fazia uma peça medieval; elenco grande, teatro universitário. Cada colega levou seu exemplar felino pra casa, batizados com nomes de Artur, Guinevere, Lancelot, Morgana… por fim resolvemos castrar a bichana. Elenco grande é coisa rara depois que a gente precisa viver de teatro. Eu já não tinha para quem distribuir filhotes. Sofia partiu porque quis, foi aos poucos se mudando para uma casa vizinha. Respeitei.

Depois que meu irmão foi morar sozinho, viramos uma casa de mulheres, e nessa época um conhecido nos ofereceu a Bruna Lombardi. Era uma Dinamarquesa cinza-chumbo com os olhos amarelos esverdeados. Uma fêmea, gigante e dócil, para nos proteger. Só em se colocar de pé já assustava, o latido fazia tremer as paredes, mas de temperamento era irmã do Scooby Doo, o do desenho animado. Quando a minha mãe decidiu morar num apartamento, eu estava construindo a minha própria casa e levei comigo aquela cadela, que mais parecia um potrinho solto no jardim. A Bruna saiu de casa pra casar, junto comigo. Acompanhou a construção subindo, ficou amiga do mestre de obras. A Bruna conheceu meu pai. Quando ela adoeceu, do coração, minha mãe estava dando aula de Biologia na faculdade de veterinária, onde havia uma clínica-escola. Internamos ela lá. Seu coração muito expandido era objeto de estudo; ela era atendida por professores e alunos. Depois que morreu, em vez de levar seu corpanzil para enterrar em casa, achei por bem doá-lo para aquela escola. Existia essa opção, e eu, filha e neta de cientistas, achei normal. O que minha mãe jamais perdoou, alegando ser obrigada a passar de olhos fechados pela sala de anatomia para não se deparar com Bruna Lombardi e seu imenso coração raro, deitados na maca.

Um dia encontrei o meu bebê engatinhando para dividir com ele a água do pote. Mancha ficou doente de repente, morreu antes dos 5 anos

Depois veio o gato Cebola, quando eu já vivia em dupla. E ele foi o primeiro ser que dividimos, antes das crianças. Chegou com a gente na casa nova, enlouqueceu com as caixas da mudança. Me fez uma companhia imensurável durante minha primeira gravidez, lá longe naquela casa, com o pai tendo que trabalhar em dobro. Uma noite, Cebola passou mal em casa e foi para o jardim. Demorou a voltar e eu não fui atrás. Sua morte me pegou ocupada demais com o nosso bebê que tinha acabado de nascer. Eu não percebi que o gato tinha sido envenenado; talvez se tivesse levado às pressas na clínica 24 horas… Acho que fiquei mais culpada do que triste.

Já na minha segunda gravidez, tivemos a ideia clichê de dar um cachorrinho para o mais velho. Ele rapidamente escolheu o nome, Mancha, por causa da única pinta marrom no corpinho todo branco do Boxer. Era lindo de chamar a atenção e muito amigo das crianças. Sabia jogar futebol e tomava banho de chuveirão. Um dia encontrei o meu bebê engatinhando para dividir com ele a água do pote. Mancha ficou doente de repente, morreu antes dos 5 anos. Me pegou em turnê, longe de casa. E o pai tocando em outra cidade. Ouvir o menino do outro lado da linha, soluçando de tristeza, e não poder dar um abraço, um colinho, dilacerou meu coração.

Cheguei no dia seguinte, fizemos um enterro no jardim. Os meninos decidiram convidar os vizinhos, transformando aquilo num ritual. O pequeno construiu uma cruz com dois galhos, um rolo inteiro de barbante e fincou na terra, dramático. O grande quis escrever uma carta de despedida. Apesar da imensa tristeza dos garotos, aquele enterro virou um acontecimento entre as crianças da rua. “Tomara que meu passarinho morra amanhã!”, deixou escapar um amiguinho mais empolgado com o ritual de despedida. Foi como um Gurufim improvisado.

A essa altura, eu estava pela primeira vez experimentando a vida doméstica só entre humanos, quando a vovó apareceu com uma cachorrinha abandonada. Tinha sido encontrada muito machucada, e agora, depois de curada, estava para adoção. As crianças imploraram! Fui coagida a conhecê-la e aceitei, reconhecendo neles o truque que eu usei a vida inteira com meus pais: primeiro aparece com o bicho, depois pergunta se pode ficar com ele.

Dessa vez quem deu o nome fui eu. Numa inspiração repentina, olhei para aquela magrela amarela com os olhos mais doces do mundo e batizei de Manteiga. Descobri que vira-latas é o cão mais evoluído que existe. No início deu muito trabalho. Ainda sem entender que tinha uma casa pra chamar de sua, Manteiga era uma fujona. Perdi a conta de quantas vezes saí de carro à sua busca, com os meninos ansiosos no banco de trás. E depois aliviados, de volta pra casa, com a cachorra imunda emporcalhando o estofado.

Manteiga se mudou com a gente para as Laranjeiras. Demorou uma semana para se adaptar à vida de apartamento, muito mais rápida do que a gente. Adorou morar dentro da sala de casa. Abriu mão do quintal tranquilamente e nos levava para passear na rua no mínimo três vezes por dia. Socializou a família com a vizinhança, foi nossa relações-públicas canina. Arrebatou uma legião de fãs, me deu uma nova identidade. Aqui na minha rua eu sou a dona da Manteiga. E agora, doente, parada no cantinho dela, me ensina a elaborar a perda, mais uma vez. “Não tem muito o que fazer”, explicou a veterinária. “Talvez seja o caso de abreviar seu sofrimento.” E estamos nós aqui, tentando entender a hora de decidir o ponto final. Meu irmão garantiu que eu vou perceber. “Uma hora eles se entregam, você vai saber.” Dessa vez é a última, juro.

4 Comentários

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4 respostas para “Bicho doméstico (ou não aprendi dizer adeus)”

  1. romario schettino disse:

    Você é danada, além de texto gostoso de ler, me pegou pelo coração. Também tive cães e gatos, mas nenhum foi como Joca, o schnauzer. E foi assim mesmo, ele esperou a gente voltar de viagem para morrer ao lado de nossa cama. Ah, que triste!

  2. Teca Arantes disse:

    Nunca é fácil e nunca é a última vez! Cada um é um, como pessoas que passam nas nossas vidas, e deixam um sentimento diferente mas sempre com algum tipo de dorzinha… tristeza, melancolia, saudades, uma dorzinha mais conformada, outra que belisca no coração e aquelas que torcem a alma com a perda e trazem lágrimas independente do tempo passado…
    Mas uma coisa eu juro e garanto: abreviar o sofrimento de um amigo é a coisa MAIS DOLORIDA que já fiz. Não tenho coragem de passar por isso de novo. Morri um pouco.

  3. cristina lopes disse:

    Adorei o texto. Ate hoje quando penso no Lorde, meu cachorro de infancia, me emociono.
    Parabens

  4. Tatiana Maranhão disse:

    Me lembro a partir da Bruna. Nossa como era linda e enorme… Que delícia voltar no tempo… Tantas fases especiais… Lindo texto, Bel. Parabéns! ❤️

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