Bipolar sim, louca só quando eu quero

Tirei minha doença do armário para que as pessoas parem de fazer confusão

24.06.2019  |  Por: Bia Garbato

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Bipolar sim, louca só quando eu quero

Jade Marra | Piscina

Não me importa que me chamem de louca por eu subir no palco da “festa da firma” e cantar um fado. Não me importa que me considerem louca por fazer um vídeo vestida de cigana e postar no Instagram. Essa é a minha personalidade e concordo que posso ser louca para caramba. Mas quando alguém chama uma pessoa mau caráter, “duas caras” ou que muda de opinião de bipolar – achando que na verdade arrumou um sinônimo bacaninha para dizer que a pessoa é “louca” (nesse caso com aspas) – eu quero morrer.

A verdade é que além de louca, sou bipolar. Não a “duas caras”, mas a que tem Transtorno Bipolar do Humor. E isso não é tão legal quanto se vestir de cigana. Chamar alguém de bipolar é tipo xingar de retardado, de mongol. Já aprendemos que não cola mais – ou pelo menos não deveria colar.

E outra coisa que me incomoda grandão é ter que viver dentro do armário por conta dessa doença. Você não tem diabetes e tá recusando doce por aí todo bonitão? Por que a desinformação e o preconceito alheio têm que me fazer viver com cara de não-bipolar, tentando disfarçar minha suposta “double face”?

Por essa razão estou aqui, contando pra geral e me habilitando a explicar o que isso quer dizer. O Transtorno Bipolar é uma doença e, como todas, é um saco. A depressão saiu do armário há alguns anos e praticamente todo mundo entende que é um estado em que a pessoa pode ficar sem energia, com a cabeça lenta, triste, pessimista, com alterações de sono e de apetite, ou seja, é uma droga. A causa da depressão não se sabe. Acredita-se em fatores desencadeadores, sendo o estresse um dos mais importantes. O Transtorno Bipolar inclui dois polos de sofrimento: a depressão e a mania, passando por estados mistos (com um pouquinho de cada polo) e o tão almejado meio, que seria o modo “estável” ou “normal”, se considerarmos que ele existe.

Agora vem a parte mais importante: a mania, além da depressão, é o estado que caracteriza alguém bipolar. E mania não tem nada a ver com mania de limpeza, mania de ouvir Beatles no chuveiro ou com o maníaco do parque. A mania é também conhecida como euforia e é, a grosso modo, o oposto da depressão: a pessoa fica cheia de energia, tanto que dorme e come menos, com a cabeça a mil por hora, cheia de ideias, a fala acelerada, otimista, se achany muito incrível, ou seja, é animal.

O problema é que as pessoas ao redor geralmente não acham tão legal assim. Por quê? Porque as ideias na verdade não são tão espetaculares e podem ser inclusive inconsequentes, porque dá um desejo louco de comprar, porque o chefe talvez não ache que de repente você tenha ficado tão inteligente, porque é comum a pessoa ficar mais irritada e agressiva, enfim, para os outros é um inferno.

Para ilustrar e pular do armário de vez, na minha maior crise maníaca decidi que iria comprar todos os apartamentos do prédio em que eu morava, mesmo sem ter grana para pedir pizza duas vezes no mês. A ideia era que todos os meus amigos fossem morar no meu prédio e eu ainda ia reservar um apê para fazer um grande ateliê pro meu marido e pra mim. “Como é que eu não pensei nisso antes!”, eu tinha certeza que tava abafando.

Então, com a cara de maluca, os olhos esbugalhados de não dormir por uma semana, eu ficava andando de elevador e fazendo amizade com os demais moradores, com aquele papo solto e rapidinho de maníaca: “Ah, que interessante, você mora no 304? Como é a vista lá, hein? Você também tem vazamento no banheiro? Abriu a cozinha pra sala? Aceito ver, sim. Não, não tô muito ocupada agora, não.” E lá ia eu conhecer meus futuros apartamentos. Eu estava tão convincente que fiz meu marido acreditar que deveríamos pelo menos pegar um empréstimo para comprar o ateliê. Graças a Deus o remédio “bateu” e eu mesma desisti da ideia.

De uma coisa eu sei: eu não sou a doença. Ela não me define

Para tratar o Transtorno Bipolar você vai a um psiquiatra. Só que, em vez de tomar antidepressivo, são prescritos estabilizadores de humor, sendo o lítio – um elemento da tabela periódica de química – o principal. Uma das complicações do Transtorno Bipolar são psicoses, que os pacientes podem ter ou não (eu tenho a sorte de não ter). Psicoses são episódios de delírio tratados com antipsicóticos, que também são usados para tratar qualquer tipo de bipolaridade. Aliás, existem duas classes de bipolar: o tipo dois, com depressões e manias mais leves, e o tipo um, com mais pesadas. Eu, como sempre sonhei em ser realmente boa em alguma coisa, sou tipo um.

Apesar de estar fazendo graça, o Transtorno Bipolar é uma doença muito séria, sendo a principal causa de suicídio no mundo. Outra dificuldade é que ela leva em média dez anos para ser diagnosticada a partir da primeira crise, pois ninguém vai ao médico porque está se sentindo super esperto e animado. Então, em geral, após algumas depressões e muitas vezes devido ao uso de antidepressivos, a pessoa tem uma virada, entra num quadro de mania mais grave e parentes ou amigos a levam ao médico. Isso pode ser bem complicado.

Tudo pode fazer a gente oscilar e mudar o estilo de vida para evitar esses altos e baixos, é obrigatório. O sono é o melhor amigo e não dormir, o maior gatilho das crises. Fuso horário, por exemplo, passa a ser um problema.

É comum o paciente ter outras doenças juntas com o TB, como: alcoolismo, vício em drogas, compulsões etc.

Outra chatice é que os remédios têm muitos efeitos colaterais. O aumento do apetite – as bulas chamam assim, eu chamaria de compulsão alimentar ou fome de monstro – pode ser brutal. Eu cheguei a pesar 100kg.

Depois de muito buscar, acho que encontrei a estabilidade. Não sei por quanto tempo, mas aprendi a viver cada fase da melhor maneira possível. Tenho dias bons, dias ruins, dias melhores do que deveriam ser, e em quase todos eu tenho que ficar atenta a mim mesma. Levei muito tempo, mas hoje aprendi a me cuidar. Dormir bem, comer bem, terapia, exercícios todos os dias, o pacote completo.

O processo é sofrido para todo mundo, mas é possível para um bipolar se tratar e levar uma vida produtiva: com trabalho, relacionamento, família, ou seja, viver bem. E quem sabe poder admitir sua doença para todo mundo e não ser preterido numa vaga de emprego, por exemplo. Sonho com um mundo sem psicofobia. Sem nenhuma fobia, nenhum medo do que desconhecemos.

De uma coisa eu sei: eu não sou a doença. Ela não me define. Sou bipolar, mas também sou mãe de um moleque genial de 7 anos; uma esposa chata, mas gente fina; uma mulher que conseguiu perder 30kg numa dieta; uma escritora que escreve do jeito que fala. Posso ser o que eu quiser, apesar de ser bipolar. E posso ser muito louca quando quero. E eu sei que vou querer.

 

Bia Garbato é escritora, publicitária e artista plástica. Nas horas vagas faz projetos de decoração e grava locuções. Mora e trabalha em São Paulo com seu marido, seu filho Antônio e sua cachorra Amora

1 Comentários

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Uma resposta para “Bipolar sim, louca só quando eu quero”

  1. Paula disse:

    Muito bom ler essa matéria. Eu, saí do armário com minha sexualidade. Um dia pretendo sair desse também.

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