Camila Svenson e a arte dos ‘atravessamentos’

Nova fotógrafa retratada na série da diretora Mari Cobra, que vem perfilando os olhares contemporâneos, a integrante do coletivo Amapoa questiona a posição de poder do seu ofício

22.06.2020  |  Por: Mari Cobra

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Camila Svenson e a arte dos ‘atravessamentos’

Conheci a Camila Svenson através do Coletivo Amapoa, e há anos acompanho seu trabalho e sua evolução. Artista interdisciplinar, vive e trabalha em São Paulo. Em sua pesquisa investiga imagem, objetos, amor e ficção. Me encanta a busca das realidades com sobriedade e força, e vejo muito isso no seu trabalho, identifico os elementos narrativos de cada história em cada foto, e me conecto com as histórias ali observadas, uma inspiração contemporânea da fotografia brasileira pra mim.

Como você começou a fotografar? O que te motivou?

Não sei entender onde foi o começo, mas lembro de uma sensação de quando eu tinha 18 anos, mais ou menos, de ficar muito obcecada com as imagens, e de pensar que aquilo era algo importante – e que eu precisava entender como produzir imagens de uma maneira que me fizesse sentido. A partir dai é um caminho que segue acontecendo.

Como é seu processo criativo? O que te inspira?

Não sei se acredito muito na ideia de inspiração. Acho que os processos e os trabalhos se constróem quando eu me coloco em um estado de alerta e de presença. De prestar atenção no que está acontecendo ao redor de mim, e quais são os possíveis atravessamentos disso. Gosto de anotar coisas que eu escuto, gosto de prestar atenção nos objetos que eu convivo, nas pessoas com quem me relaciono, nos afetos, na mesa do bar. Fico guardando todos esses atravessamentos e na minha rotina de trabalho, vou puxando esses elementos – para que os processos e projetos possam acontecer.

No projeto Dezesseis, qual foi tua motivação? Me conta mais sobre? Como foi o acesso às personagens?

Dezesseis é um trabalho que o Coletivo Amapoa fez (Eu e Pétala Lopes) em 2018. Nesse trabalho a gente conversou, entrevistou e fotografou adolescentes de São Paulo e também de Belém do Pará. A gente ainda tá remoendo esse processo todo, não sei se entendemos muito sobre o que queríamos falar, mas estávamos vivendo uma relação muito intensa com o tempo – a passagem do tempo – de perspectivas individuais e também como coletivo. Eu já tinha feito um outro trabalho anteriormente que falava da adolescência e acho que observar esse espaço pra poder falar sobre o tempo é algo de muita potência, observar como esses rituais podem se dar, quando a gente é adolescente, e como as coisas se transfiguram. As pessoas que fotografamos vieram de diferentes lugares: irmão/irmã de amigo, pela internet, conversando também com escolas e redes de diferentes lugares. A gente foi pra Belém porque queríamos ver o rio… (rs). Mas a ideia é que esse trabalho aconteça em mais cidades pelo Brasil. Acho bonito quando as coisas vão se construindo conforme a gente vai trabalhando. Quando começamos tínhamos uma idéia muito fechada de formato, de fórmula – que vem muito desse lugar da figura da fotografia “documental”, do “fotojornalismo”, processos muito engessados na minha formação como artista, onde a pessoa já vai com uma ideia pré-concebida de algo e não dá brecha para que os atravessamentos aconteçam e para que o próprio processo mostre do que o trabalho esta falando. Acho que estamos nesse momento de ainda remoer o material, pra entender do que e com quem queremos falar.

O que é importante pra você na sua fotografia?

Não na minha fotografia, mas na ação de fotografar, acho que me lembra constantemente que a fotografia fala sobre poder – e que quem esta fotografando nunca está em uma posição de neutralidade sobre nenhum assunto. Entender que a fotografia pode ser perversa, que ela mente, que ela lida com a ficção – e que eu sou responsável por todas essas relações que podem acontecer. Acho que a fotografia é só um começo de conversa, mas existem muitos outros dispositivos e formatos onde as coisas podem acontecer também. Hoje em dia tenho fotografado bem menos e pensado muito mais sobre como as imagens são e podem ser construídas no espaço que eu habito.

Tem fotógrafas favoritas?

Sim, é uma lista em constante alteração. Tô olhando bastante Zanele Muholi no momento. Tem também Mariane Lima e Giovana Schulter.

De qual projeto seu você tem mais orgulho e por quê?

Acho que não tenho um projeto em particular, cada trabalho foi pertinente em algum lugar que me levou para uma outra coisa. Prefiro pensar mais em um “estado de trabalho”, uma prática processual, do que em projetos que começam e terminam.

Quais são seus sonhos?

No momento meu sonho é tomar uma cerveja em um boteco na calçada em um dia de sol (rs).

 

Para ver mais os trabalhos de Camila:

www.camilasvenson.com

www.instagram.com/camilasvenson

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