Campanha contra assédio, ‘Não é Não’ espalha tatuagens pelo país no carnaval de 2018

Projeto distribui em seis cidades 20 mil decalques com a frase que tomou os corpos e se tornou emblema das mulheres nos blocos cariocas no ano passado

10.01.2018  |  Por: Audrey Furlaneto

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Campanha contra assédio, ‘Não é Não’ espalha tatuagens pelo país no carnaval de 2018

Sob camadas de purpurina e suor, uma tatuagem desfilou na pele de mulheres pelo Rio no carnaval que passou. Trazia apenas uma frase, tão curta quanto direta: “Não é não”. A máxima surgiu de uma conversa entre amigas, que comentavam a história (corriqueira, infelizmente) de uma garota que, agarrada por um homem que não aceitara suas negativas, esbravejou: “Não! Eu falei não, você não entende? Não é não!”

Foi o ponto de partida para uma campanha contra o assédio que tomou os blocos cariocas em 2017: as amigas, que não raro ouviam ou vivenciavam cenas semelhantes, decidiram se unir para transformar aquela frase curtinha numa tatuagem temporária, como um decalque a ser colado na pele. Num grupo de WhatsApp com cerca de 40 mulheres, conseguiram arrecadar R$ 3 mil e bancar 4 mil tatuagens, que, de imediato, feito confete, purpurina e serpentina, tomaram as ruas do carnaval carioca. Surgiram nos blocos previstos pela prefeitura e nos (já nem tão) secretos, grudadas em mãos, braços, colos, nucas, ombros, enfim, nos mais diversos nacos de pele dos corpos das mulheres na folia que, todos os anos, desconfia-se, parece que não terá fim. Já a tatuagem tem curta duração: em cerca de três dias, ela começa a se desprender até que desaparece por completo da pele.

A campanha, por outro lado, seguiu. As amigas que fizeram o primeiro carnaval do “Não é Não” no Rio foram em busca de verba para ampliá-lo em 2018. Com uma nova campanha de captação, desta vez na internet, abriram o projeto para doações. Resultado: arrecadaram mais de R$ 20 mil, o suficiente para produzir 20 mil decalques que, neste carnaval, serão distribuídos em seis cidades — Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Recife e Olinda.

Barbara Menchise, Aisha Jacob, Julia Parucker e Nandi Barbosa: as minas do “Não é Não”


“No carnaval, percebi que existia uma potência no uso do corpo para (a mulher) se manifestar. E também no carnaval a gente sente muito forte que o fato de a mulher estar com menos r
oupa intensifica o assédio que já existe no no cotidiano”, afirma a cineasta Julia Parucker, uma das idealizadoras do “Não é Não”, ao lado da editora Barbara Menchise, da estilista Aisha Jacob e da designer Nandi Barbosa. Ela completa: “Alguns homens não sabem lidar com todo o clima de liberdade que existe no carnaval, são educados numa sociedade machista, que coloca a mulher a serviço do homem, e acreditam que a liberdade da mulher está relacionada a eles.”

Como na primeira edição da campanha, as tatuagens serão entregues apenas a mulheres. Não que não se busque o apoio dos homens, pondera Julia. “Queremos, sim, a parceria deles, mas somos nós as protagonistas. Nós é que estamos dizendo: ‘Não, amiga, ninguém tem o direito de te invadir, de tocar seu corpo sem o seu consentimento’. E quando temos várias ‘tatuadas’, cria-se uma espécie de rede de segurança, em que uma mulher olha para a outra, vê o ‘Não é Não’ e logo se sabe protegida. A tatuagem cria essa identificação de uma forma muito explícita, clara, gravada na pele.”

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