Carta aberta a Nelson Rodrigues

A instapoet carioca Sherazade Médici faz contato com o ídolo para contar como vão os amores, a vida depois da internet e o 'Flusão'

25.09.2018  |  Por: Sherazade Médici

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Carta aberta a Nelson Rodrigues
Oi Nelson,
Tô fazendo aquela parada que você falou, tô andando nua do pescoço pra baixo porque minha cara anda indecente pracaralho. As coisas mudaram por aqui cara, agora são as mulheres que escolhem os amantes de olhos fechados e os maridos de olhos abertos, porém, você estava certo em uma coisa, só o inimigo não trai nunca, e de fato não existe família sem uma adúltera, e amores bem resolvidos continuam não interessando ninguém. Você estava certo em mais de uma coisa, perdão, é que hoje aqui é sexta e já estou querendo prevaricar.
Tô com um cara aí que você tinha que ver, daqueles cínicos de dar gosto, um canalha tesudo que não foi canalha na véspera, mas foi canalha em todos os dias que se seguiram. Deus não está nas coincidências, Nelson, porra nenhuma! Se tivesse, não tinha me colocado nessa cilada. O bandido estava me esperando onde eu menos esperava, e como não dá pra ficar sem paixão nessa vida, tô chupando o cara e às vezes um picolé.
Desaprendi aquela outra parada que você me ensinou, ando frequentemente fazendo perguntas e obrigando o canalha a mentir em dobro. Mas sigo no propósito de não ser só bonita, me mantenho interessante. Já passei no teste dos 15 dias! Também faço questão de mostrar que não sou perfeita, mal passo maquiagem, quase nunca faço sobrancelha e às vezes nem me depilo. Meus defeitos são militantes. Quer perfeição? Vai namorar essas meninas tocadoras de piano, que fazem ioga ou veganas! Eu duvido que trepem melhor que eu, devem chupar pensando se o gozo é sem lactose.
Eu e ele simpatizamos na política além da cama, a gente se diverte rindo dos cretinos imbecis, você iria adorá-lo, nós não gostamos de unanimidade e muito menos do essencial. Confesso que acho que às vezes invejamos a burrice dos caras, porque de fato é a única coisa que é eterna nessa vida, puta que pariu! E a democracia é uma desgraça mesmo. Tem muito idiota no mundo, Nelson, só que agora tem muitos de ambos os lados. Você sempre soube disso, eu que era muito nova ainda pra entender.
Nem te conto! A televisão matou a janela, mas a vida é círculo… Apareceu uma tal de internet e assassinou a televisão. Coisa de doido, Nelson! As pessoas mal se olham na rua, sentam num bar e não se xingam, tem homem que nem mulher de carne e osso quer mais, você fatalmente iria chamar de viado e seria preso por homofobia. Sabe, não tá dando mais pra falar certas coisas por aqui, essa tal de internet deu alguma merda na cabeça dos humanos e agora a gente tem que medir o que fala, eu sinceramente não sei como ainda não fui presa também. Mas tem o lado bom, pelo menos hoje se tem mais companhia do que só a garrafa de Whisky em casos de pé na bunda. Agora podemos sofrer com a saudade, o Whisky e o celular. Se bem que quase sempre isso não ajuda, só piora.
Nosso Flusão não anda muito bem, mas quem me olha sabe que sou tricolor porque a gente tem aquela irradiação específica e deslumbradora. O Flamengo continua naquela, muita torcida, pouca gente.
A arte anda um pouco estranha, tem uns troços chamados caracteres que agora nos obrigam a empobrecer os diálogos, imagina o trabalho que isso me dá! Papel não é politicamente correto em 2018.
Inclusive vou ter que me despedir de você agora justamente por isso, caso contrário, não consigo mostrar nosso papo pra galera.
Vou lá em Laranjeiras beber umas e falar dos meus fracassos já que você, sendo anjo pornográfico, não reencarna.
O Ruy não vai comigo, ele não bebe mais. Diz que superou.
Beijos e saudações.
Sherazade Médici é atriz, escritora, poeta, cronista, compositora, produtora, mãe de três filhos e caótica. Escreve desde os 13 anos mas só começou a jogar seus textos pro universo em 2012, num blog chamado Bonitinha mas Ordinária (logo se vê que é fã incondicional de Nelson Rodrigues). Hoje é autora do Instagram NemTãoSuaveAssim e possui uma página de mesmo nome no Facebook. Foi publicada pela primeira vez este ano no blog do Jornal Plástico Bolha. Segue tentando achar seu lugar ao sol

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