Como estar junto à distância?

Ganha força a 'The New Low Touch Economy', que prevê cada vez menos contato físico e mais processos digitais. No segundo texto da série HysteriaTrends, a gente investiga as novas tentativas de conexão (afetiva) numa era de poucos toques

15.05.2020  |  Por: Natália Albertoni

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Como estar junto à distância?

No fim de abril, Cecilia Cussioli, a video director chiquérrima da Globo Condé Nast, estava combinando um encontro virtual no Zoom com as amigas pra comemorar o aniversário de uma delas quando alguém sugeriu: “E se a gente criasse um dress code?” Todo mundo animou. O convite, enviado pelo WhatsApp, deixava clara a proposta e definia o tema dos looks: carnaval. Os acessórios foram tirados das gavetas e Cecilia gastou cerca de duas horas só na montação. Foi a primeira vez que ela se dedicou a uma make desde o início da quarentena. E com glitter, o que torna tudo muito mais legal na opinião dela – e na minha também. Ela ainda arrumou a cozinha, preparou drinques e até fez uma meia-luz pra criar um climinha. É claro que foi uma festa diferente. Ela – a Cecilia – não durou seis horas dançando, por exemplo. Na defesa dela, que é festeira, o meeting acabou antes. E os pedaços de bolo chegaram aos convidados só no dia seguinte, envolvendo uma logística não tão simples quanto espalhar os pratinhos. Mas foi gostosa a breve sensação de normalidade.

Estamos buscando novas formas de estar junto. Esse é um movimento complementar aos processos digitalização que já vinham ocorrendo pelo mundo e foram impulsionados pelas políticas de restrições durante a quarentena. Seguimos na direção do que a consultoria Board of Innovation chamou de The New Low Touch Economy, algo como “a nova economia de pouco contato”. Não por acaso, nesse contexto, o jogo Animal Crossing: New Horizons, da Nintendo Switch, favoreceu a criação de uma comunidade online recentemente. O jogo não tem grandes objetivos. É a emulação da vida real na sua mais pura simplicidade. Lá você pode ficar “ao ar livre” enquanto cria um vilarejo, decora a casa e até faz um rolê digital com algum amigo que também tenha o videogame. Nessa simulação fofinha e animada da vida real você pode montar looks com peças da Chanel e da Dior. E até criar um desfile. Sim, o primeiro está marcado para julho, em uma colaboração entre o estilista Marc Goehring e a fotógrafa Kara Chung, criadora do perfil do insta @animalcrossingfashionarchive.

Precisamos de uma conexão de outra ordem

Enquanto isso, as conferências virtuais de trabalho se mostram eficazes – até para quem desconfiava da produtividade do home office. Também foram criadas pontes entre pessoas que talvez fossem inatingíveis em outro momento num período curto de tempo. Patti Smith, Johnny Depp, Cat Power e Olafur Eliasson participaram de um festival na mesma tarde, cada um de sua respectiva cidade, no fim de abril. Para nos aproximar da arte e de espaços que não podemos mais frequentar, nos oferecem visitas virtuais a acervos ao redor do mundo. Os hipsters podem visitar a casa da Frida Khalo, no México, ou ir ao Louvre, na França. Até espetáculos da Broadway foram disponibilizados em formato audiovisual.

Ao mesmo tempo precisamos de uma conexão de outra ordem, de preferência que pontue nossas singularidades em meio a tantas telas. Especialmente numa cultura como a nossa, em que se cumprimenta desconhecidos com (um, dois ou três) beijos e se mata a saudade no abraço. Ansiamos pelo possível retorno triunfante dos drive-in, pra ver um filminho em público mesmo que conceitualmente, cada um no seu carro, como já está acontecendo sobretudo nos Estados Unidos. É uma saída alternativa para escapar da realidade que se impõe entre quatro paredes e abrigo de moletom. De certa forma é um alento pensar que estar perto pode não ser físico. Mas meio que é também, né?

 

Natalia Albertoni é jornalista, meio camaleão. Cria, desenvolve e executa estratégias de relacionamento com a imprensa e de PR pra marcas, produtos e serviços

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