Como explicar relacionamentos abusivos entre casais de mulheres?

Situações em que elas reproduzem comportamentos tóxicos comumente associados aos homens são possíveis sim, e podem ser tão nocivas quanto

09.12.2019  |  Por: Karoline Correa

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Como explicar relacionamentos abusivos entre casais de mulheres?

Jade Marra | Piscina

Uma amiga passou os últimos seis meses saindo com uma garota. Vamos chamar aqui a amiga de Ana e a garota de Estela. Pois bem, aquela era a primeira vez em que Ana, do alto de seus 31 anos, mantinha um relacionamento com uma mulher. Além do forte desejo de fazer isso, havia outra razão que a inclinava a uma relação lésbica: não correr o risco de se sentir abusada pelo outro. “Na minha cabeça, as sensações de estar enganada, subestimada, louca, oprimida e desconfiada eram típicas das minhas interações com os homens, e seriam improváveis com uma outra mulher”, me contou, já anunciando a decepção que que viria a seguir. “Acontece que meu caso com Estela foi abusivo do começo ao fim. Como pode? Por quê? Abuso não é algo do kit masculinidade tóxica?”

Quando disse abusivo do começo ao fim, Ana falava, por exemplo, da vez em que Estela gritou com ela no meio de uma pista de dança. E da vez em que Estela beijou outra garota na sua frente como se nada fosse. E de quando Estela desapareceu por semanas depois de uma noite bem amorzinho entre as duas. Teve ainda a vez em que segurou forte o punho de Ana, como se quisesse controlá-la. “Esse foi o cúmulo, claro. E, como acontece nos relacionamentos abusivos com os homens, deixei ela quase me machucar para perceber que as coisas estavam passando dos limites entre a gente.”

Para Natália Bonini, psicóloga e psicanalista integrante do Divam – Debates Integrados pela Valorização e Atendimento das Mulheres, que atende o público feminino na cidade de São Paulo a preços acessíveis (inclusive gratuitos), “não se pode afirmar que [abuso] é uma característica exclusiva das relações entre homens e mulheres”. “Assim como não se pode negar que os lugares do homem e da mulher são socialmente construídos e que influenciam a construção de subjetividade a partir de uma localização histórica”, continua. Por isso, cenários em que mulheres reproduzem comportamentos tóxicos comumente associados aos homens são sim possíveis, e podem ser tão nocivos quanto os que envolvem a atuação deles.

Foi assim entre a gerente de marketing Carolina F., 33, e a ex-namorada, uma fisioterapeuta que não vamos identificar, com quem ficou junto por três anos. No caso delas, Carolina assume: “O abuso era via de mão dupla.” “Éramos ciumentas demais, agressivas demais, controladoras demais. Nem parecia que estávamos jogando no mesmo time e pelo mesmo resultado”, recorda. Em meio ao caos emocional instalado, o então casal decidiu pela terapia conjunta. Nas sessões, entenderam por que mantinham uma relação na qual a violência era uma espécie de combustível e perceberam machismos nas próprias atitudes. Puderam ainda lembrar que na infância as duas assistiram à violência doméstica em suas famílias. Enquanto crescia, Carolina viu o pai gritar com a mãe sem piedade e de forma constante. Já sua ex viu o avô paterno ser cruel com a esposa e os filhos e ouviu da mãe relatos de tirania. “Quando retomamos nossos passados, tudo ficou claro. Era como se a gente tivesse aprendido a se relacionar com violência”, diz Carolina. O namoro, mesmo com a terapia, não sobreviveu às feridas de um cotidiano agressivo. “Ao menos saímos daquela relação sabendo que em próximas não repetiremos as atitudes geniosas dos homens das nossas famílias”, acredita a gerente de marketing.

Exercício de poder, maldade, medo ou algum tipo de prazer?

Mas a história de Carolina ilustra apenas um dos gatilhos que pode levar alguém a usar de violência (física, psicológica, moral etc.) para diminuir o outro, e não responde por todas as outras vezes que uma pessoa sente a necessidade de abusar de alguém que estima. Seria exercício de poder, maldade, medo, algum tipo de prazer? Natália Bonini tenta explicar: “Os abusos estão muito relacionados com os padrões adoecidos de relacionamentos de uma sociedade. Atualmente, o padrão vigente ainda é o da heteronormatividade. Esta norma baseia-se em oposições em dois pólos distantes e separados, por exemplo, a masculinidade e a feminilidade, o lugar do homem e o da mulher. Esta compreensão simplória do mundo estimula a disputa pelo poder, pelo destaque, pela exclusividade, pela posse, já que o único lugar vislumbrado para além desses é o de submissão, o de não ser especial e o da objetificação.”

Segundo a psicóloga, uma saída para curar esse mau padrão seria “ampliar o mundo simbólico que permeia as relações para que outras possibilidades de vínculo, e de masculinidades e feminilidades, sejam exercidas, assim como os padrões adoecidos deixem de ser reproduzidos”. Isto é: as relações amorosas que fogem da heteronormatividade – e de suas condutas – podem ser muito inspiradoras nesse sentido. 

E então, claro, além das questões sociais levantadas por Natália, a história de vida de cada indivíduo influencia seus comportamentos. Ela destaca que nesse caso, apenas uma análise de cada pessoa, considerando suas particularidades, poderia levar à compreensão de tal dinâmica. “A terapia é um espaço importante para esta compreensão e transformação de si”, diz.

 Vale dizer aqui que há as raras vezes em que o lugar de poder, habitualmente ocupado pelo homem, é de uma mulher em relação a um parceiro submisso. Acontece tão pouco que nem as estatísticas ousam se valer de casos assim. Porém, de qualquer forma, a explicação para dinâmicas como essa, conclui Natália Bonini, ainda tem raiz na lógica patriarcal. “O machismo está tão incrustado nas subjetividades, que dificilmente alguém que não se debruça sobre esta reflexão tomará consciência de quando a reproduz e do quanto é prejudicial para todas as pessoas de todos os gêneros. Distanciar-se desta estrutura é um trabalho das pessoas que se identificam com qualquer gênero.”

No fim, sejam suas relações homo ou heteroafetivas, sempre vale lembrar: a Lei Maria da Penha, de 2006, classifica os tipos de abuso contra a mulher nas categorias violência patrimonial, sexual, física, moral e psicológica. O Ligue 180, o telefone para denúncias, funciona 24 horas, incluindo feriados e fins de semana. O serviço é oferecido pela Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres (SPM) do Ministério dos Direitos Humanos  e está disponível no Brasil e em mais 16 países para cidadãs brasileiras. 

 

Karoline Correa é ilustradora e escritora de caderninhos. Gosta de problematizar com as amigas e odeia minibios

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