‘Nin’ | Como nasce uma revista de arte erótica

Criadora da publicação que terá espaço cativo em Hysteria abre os trabalhos contando uma história feita de melancolia e coragem

10.10.2017  |  Por: Letícia Gicovate

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‘Nin’ | Como nasce uma revista de arte erótica

Foto: Lady Tarin

Sentada com o computador no colo, num sofá coberto com uma manta de lã cinza que não ornava nem com o sofá, nem com o calor colossal do Rio, eu tento me concentrar. Estou acompanhada de um copo de café já requentado e da TV ligada no Vídeo Show. Entre um gole de café e outro, entre uma gota de suor e outra e rodeada de celebridades globais, escrevo sobre sexo.

O velho francês com um pau imenso, a sensação estranhamente boa de se sentir uma putinha entre os lençóis do Copacabana Palace, o perfume que ficou na roupa por dias, o cheiro da boceta que lhe sobrou nos dedos. O celular apitava lembrando da aula de natação e Copacabana tilintava em obras lá fora.

Corta para uma noite de brisa fresca no Jardim Botânico. Foi com toda aquela sacanagem decantando no cérebro que, entre risadas e confusões, eu e Alice bolamos planos ingênuos para a dominação do mundo. Depois de alguns tapinhas e muitas taças de vinho, aos poucos, o que parecia devaneio ameaçava se tornar realidade.

Entre o delírio e o cotidiano nascia a primeira edição da Nin.

Divido uma poltrona improvisada com a Catarina pra rechaçar o frio recente. Com o computador no colo escrevo sobre gênero-fluido enquanto Twilight Sparkle, Rainbow Dash e Pinkie Pie roubam a atenção dela. A música tema de My Little Pony se repete como um mantra do capeta e sigo numa dúvida brutal entre o sangue de menstruação que escorre ou a bunda erguida. Não posso perguntar a opinião da minha filha.

Páginas internas da revista

 

Pelo skype Alice gravidíssima e virginianíssima decide pela vulva e ficamos satisfeitas com o novo layout da página, desta vez não podemos brindar com fumaça nem vinho.

Em um mês eu estaria deitada num chão de carpete de um azul inqualificável, chorando uns sentimentos esquisitos enquanto a revista era celebrada de mão em mão pelos meus melhores amigos, sem que eu mesma nunca tivesse visto.

Entre melancolia e coragem nascia a segunda edição da Nin.

Um sino toca avisando o meio de um dia que ainda desliza com gosto de começo. Esparramada num sofá-cama branco já com algumas manchas do tempo, ouço crianças se arrastando num futebol que já dura um mês, é o fim de mais um verão inglês, que, como todos os outros, parece nunca ter sido.

Desligo o FaceTime com Alice entre nomes, números e sorrisos escancarados da bebê. No Rio mais um dia começa.

Com o computador no colo pesquiso novas imagens, enquanto um desfile inevitável de véus cruza a calçada na frente da minha janela.

Entre goles num chá mais quente do que deveria, assisto a vultos escuros de moças coloridas num ir e vir apressado que me embaralha as ideias. A máquina de lavar geme enquanto imagino aquelas mulheres além dos seus hijabs. De olhos fechados desenho seus seios e faço cair sobre eles mechas longas de cabelo. Sigo num fuso existencial esquisito entre estações e intenções, entre o que oprime e o que liberta, entre os cabelos escondidos das minhas vizinhas e os homens nus da minha tela. É hora de ir buscar a Catarina.

Entre a fé e a sacanagem começa a nascer a terceira edição da Nin.

Letícia Gicovate é editora de conteúdo, escritora e uma das criadoras, ao lado de Alice Galeffi, da revista Nin, que terá espaço cativo em Hysteria a cada 15 dias

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