Como saber que o fim chegou?

Sobre o processo de botar um ponto final em algo, ainda que esse algo seja incrível

21.09.2020  |  Por: Graziele Shimizu

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Como saber que o fim chegou?

Ainda que o contexto atual me faça refletir muito sobre interrupções, este não é um texto sobre a pandemia (e se fosse, a pergunta talvez seria “como esperar um fim que nunca chega sem enlouquecer?”). Há algumas semanas fiquei um tanto obcecada pela pergunta que teimo em colocar como título, mas já adianto que não vou responder à questão ao longo dos próximos parágrafos – talvez eu traga alternativas à pergunta, mas respondê-la me parece impossível.

Em agosto deste ano, fechamos nossa empresa – uma agência de comunicação feita por mulheres, com quase seis anos de mercado, em processo de consolidação e o projeto profissional mais bem-sucedido das nossas vidas até hoje (e aqui falo também pela minha parceira de vida e sócia nessa empreitada). Ainda que a influência tenha sido enorme, não foram os impactos da pandemia em si que inviabilizaram nosso trabalho. Administramos bem as perdas que aconteceram desde março, as finanças estavam equilibradas, as projeções eram positivas, tínhamos a melhor equipe que poderíamos imaginar… e, ainda assim, decidimos fechar. 

Tomar essa decisão, mesmo com um contexto particular relativamente favorável, demandou um monte de coragem – a coragem de observar por outras perspectivas, de conversar abertamente sobre isso, de aceitar e decidir que o fim, apesar de tudo, havia chegado. Os porquês dessa resolução são tantos que alguns valeriam um texto próprio – outros talvez nem uma graduação em psicologia ou ciências sociais dariam conta de explorar (o cansaço de bancar uma empresa só de mulheres no mercado de comunicação; a falácia do empreendedorismo; gerir uma empresa sendo mãe; gerir uma empresa na pandemia sendo mãe etc.). O que me proponho a refletir aqui é como saber que chegou a hora de botar um ponto final em algo, ainda que esse algo seja incrível. 

Vejo muitas falas por aí sobre “eliminar o que te faz mal” e “cortar da vida o que é tóxico para você”, mas, salvo exceções, quando o discurso se torna assim tão generalizado, quando finalizar algo se torna um dilema, um “ou isto ou aquilo” e só, sinto que se ignora uma das características mais fundamentais da vida: sua complexidade. Nossa empresa se tornou exatamente o que sonhamos, mas isso não eliminava nosso papel e demandas como empresárias – e o porquê de fechar a empresa caminha muito por aí, mas, como já falei, não é essa minha proposta nesse texto. Porém, mesmo com a empresa fechada, CNPJ cancelado e nenhuma taxa mais sendo cobrada pelo banco ou governo, a Agência Camélia segue existindo: ela faz parte de mim, de quem eu me tornei nesses anos, da minha história e de todas pessoas que fizeram parte dela. A parte prática foi sim eliminada, mas os aprendizados, sofrimentos, alegrias e todo o caminho percorrido, esses continuam a existir. Como eu poderia “eliminar” isso da minha vida?

Se não quero esquecer, como chamar isso de ‘o fim’?

Uma vez me falaram sobre o desejo de prender as imagens, cheiros e sensações pra sempre dentro da gente quando uma viagem está chegando ao fim, e, de uns tempos pra cá, me peguei diversas vezes segurando a rotina com os dentes, torcendo pra que minha memória não jogasse lá pro canto as cenas do cotidiano da agência, a sensação de conviver diariamente com as mulheres sensacionais que essa empresa trouxe pra minha vida, a satisfação de ter construído algo tão alinhado a quem somos e nos orgulhamos de ser. Penso que talvez esse seja um dos sinais de que o fim de algo bom está chegando: quando a gente sem querer vai tentando apreender na memória tudo o que aconteceu para nunca mais esquecer. Mas se não quero esquecer, como chamar isso de “o fim”?

Desde a minha gestação, a forma como encaro o fim vem mudando – e me dou conta disso agora, enquanto escrevo. Apesar de ainda poder reviver a sensação daquele final, da minha barriga completamente esvaziada depois do parto, mais que o fim da gravidez, o que ficou realmente marcado ali foi um início: naquele momento, deixei de ser uma gestante (entre outras coisas) para começar a construir minha jornada como mãe (entre muitas outras coisas também). Depois disso, tem sido cada vez mais estranho pensar em finais absolutos enquanto ainda estou viva, pois me parece que apenas a morte física contenha um fim de fato. O resto é nascimento, processo, luto e caminhada.

Sou profundamente grata à Agência Camélia, às pessoas que caminharam conosco, até mesmo às rasteiras que tomamos e sufocos que passamos. Empreender durante esses seis anos foi duro, ser mulher na criação e no mundo dos negócios é cansativo, gerir uma empresa é desafiador e, muitas vezes, fatigante, e trilhar esse caminho me ensinou muita coisa, tanta coisa que me transformei, nos transformamos. Ao escrever tudo isso, vejo que a pergunta inicial talvez não seja só sobre o fim, mas também sobre um começo. Quem sabe, para descobrir se algo realmente terminou, seja necessário também ter a coragem de perceber quando um novo caminho se apresenta, ainda que a gente não saiba onde é que ele vai dar.

Ainda não tenho certeza sobre qual pergunta quero responder ou quanto tempo vou levar elaborando o luto das partes que se foram, mas não tenho dúvidas de que algo novo se iniciou na minha história. Esses anos empreendendo, as pessoas que encontrei e todo o percurso desse caminho não foram eliminados, continuam aqui, vivos em mim, e é a soma disso tudo que me dá força para enfrentar a tristeza de alguns dos adeus, ao mesmo tempo em que me ajuda a ter o atrevimento suficiente para encarar o medo e dizer sim para essa nova aventura que começa agora – seja ela qual for.

 

Graziele Shimizu era sócia-fundadora e diretora de criação na Agência Camélia. Mãe de uma criança e autora do livro de poesia Parte Eu Parte Outro (Dobradura Editorial), agora segue escrevendo, estudando e pretende ser o que será

 

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