A construção da desigualdade de gênero

Houve um tempo, no Egito Antigo, em que a mulher ocupava uma posição de igualdade e mesmo de superioridade em relação ao homem. A agência de pesquisa e tendência BOX 1824 fez um estudo detalhado sobre o que nos trouxe até aqui

07.03.2018  |  Por: Paula Englert

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A construção da desigualdade de gênero

Marcha de grupos pela liberação feminina em Washington, nos EUA, em 1970 (Foto: Leffler, Warren K.)

A mulher nem sempre esteve em posição de desigualdade em relação aos homens. E isso não é nenhuma teoria da oposição. Dados históricos mostram que já fomos protagonistas sociais e como, onde e por que fomos reduzidas a cidadãs (quando muito) de segunda classe.

Houve um tempo em que a mulher ocupava uma posição de igualdade e mesmo de superioridade em relação ao homem. Isso porque a capacidade natural de gerar vida dava às mulheres um poder místico de criação, sabedoria e interação com a natureza. Por possuir o poder da vida, no Egito Antigo, a mulher era comparada à expressividade do sol.

Durante muito tempo foram as mulheres as conhecedoras da cura, por exemplo. Por meio do emprego de plantas medicinais e articuladas em redes de apoio, elas dominavam conhecimentos e os passavam de geração para geração.

No período pré-colombiano, acreditava-se, de comum acordo, na relação de complementaridade e interdependência dos gêneros. E no princípio do judaísmo as mulheres atuavam no plano econômico, político e religioso.

Éramos iguais. As mulheres tinham voz, tanto no campo privado como no público. Mas com o desenrolar da história, e por uma forte influência grega, esse cenário começou a mudar. Movidos pela vontade de dominar a natureza, os homens começaram a destruir a autoestima feminina e excluir as mulheres de atividades públicas.

O direito, que até então era do matriarcado, muda de lado e torna-se do patriarcado. Com o confinamento das mulheres ao lar e à reprodução, os homens se veem livres para criar e controlar uma cultura centrada na figura masculina. É aqui que passamos a ver a mulher como submissa, apática, fraca e enclausurada.

Para ser ter uma ideia, em 1872 vemos nos dados do 10 Censo Nacional que 45,5% da população economicamente ativa era composta de mulheres. Em 1920, no 49o Censo, este número cai para 15,3%. Alguma coisa tinha mudado.

O processo de urbanização é crucial neste cenário. Ali aparece a necessidade de reordenamento na família e, consequentemente, da condição feminina. Para atender essa demanda surge a medicina higienista, que alinhada às convenções sociais do período cria regras e normas para as relações familiares. Leia-se: uma abordagem “científica” para justificar uma suposta superioridade intelectual do homem sobre a mulher e a necessidade de serem elas as cuidadoras da família.

É neste momento, por exemplo, que as mulheres passam a amamentar seus próprios filhos e surge o conceito de amor materno. Como é sabido, antes da Revolução Industrial, mulheres brancas repassavam a responsabilidade do aleitamento e criação de seus filhos para as amas de leite, e assim ficavam livres para exercer papéis de liderança social. Nesta época, as mulheres pobres e as alforriadas se viravam como podiam para criar e sustentar seus filhos. Na virada do século XX elas passam a deixar o campo para procurar trabalho nos grandes centros.

Foi a Revolução Industrial e o surgimento do mundo do trabalho que estruturou o pressuposto de que os trabalhadores têm esposas em casa.

Até 1943, existia uma lei regulamentando que mulheres deveriam ter salários 10% menores que homens

Como subproduto da Revolução Industrial surge a Indústria Cultural Brasileira, disposta a padronizar e massificar padrões comportamentais formando consumidores capazes de dar conta da nova oferta de produtos. Não faltam registros de campanhas (de produto de limpeza e eletrodoméstico a cigarros) que hoje são consideradas extremamente sexistas e constrangedoras.

Porém, da mesma forma que oprime, a massificação dessa indústria expulsa uma parcela da população feminina que não se encaixa no padrão. Uma geração que se opõe ao imaginário da mulher “rainha do lar” começa a protagonizar grandes mudanças. O melhor exemplo é a primeira onda de divórcios do país.

Ao longo desse período ocorreram grandes mudanças na política nacional – do estado de exceção da Era Vargas até a entrada de um regime ditatorial militar de supressão de direitos. O avanço de políticas específicas de gênero era lento em comparação com a crescente organização das demandas femininas. Sim, começava ali um levante. E é ele que resulta no que vemos hoje.

Em 1943, entra em vigor a CLT – com licença-maternidade, proibição do trabalho noturno e determinação da igualdade salarial por sexo. Em 1946, chega ao fim o estado de exceção e a Constituição novamente institui os direitos eleitorais, com obrigatoriedade de voto para mulheres que exercessem profissão remunerada. Em 1962, temos o Estatuto da Mulher Casada, em que essas ganham autonomia para trabalhar e têm direito à herança e à guarda dos filhos. Em 1965, evoluímos para a igualdade de direito a voto. Em 1967, o desquite entra na Constituição. Em1969, uma emenda constitucional proíbe a diferenciação de critério de contratação por sexo, cor e estado civil, garantindo a licença-maternidade remunerada, bem como os benefícios previdenciários femininos. Ufa.

A mulher moderna passa a ganhar certo dinheiro (ainda pouco) e chama a atenção do mercado. Lembremos que até 1943 existia uma lei regulamentando que mulheres deveriam ter salários 10% menores que homens. Sim, essa cultura esdrúxula já foi lei.

No mercado o cenário aperta. Empresas passam a exigir dedicação integral e demitem mulheres recém-casadas ou grávidas. Isso porque neste momento já era considerado papel natural da mulher cuidar da casa e da família. Noções de masculino e feminino produzidas socialmente foram naturalizadas a serviço de uma relação de poder e dominação.

Até 1979, as mulheres eram proibidas de praticar esportes tidos como “incompatíveis” com as suas condições. Judô inclusive

Mas na contramão deste mesmo movimento vemos surgir uma geração de mulheres que subverte essa ordem e a utiliza como mecanismo de hackeamento para desconstruir e desnaturalizar esses conceitos.

Com a entrada massiva da mão de obra feminina no mercado de trabalho, acontece uma feminização dos empregos no país. As possibilidades de atuação começam a se expandir na medida em que as mulheres questionam seu papel na sociedade e reivindicam sua presença nos espaços públicos. Neste momento o corpo feminino passa ser arena de combate político.

Em 1979, por exemplo, as mulheres eram proibidas de praticar esportes tidos como “incompatíveis” com as suas condições. Em protesto, a equipe feminina de judô se inscreve com nomes masculinos para disputar o Campeonato Sul-Americano. Aliás, neste ano o Brasil só conquistou o título por causa dos pontos obtidos pela equipe feminina, o que levou o governo militar a revogar o decreto. Neste momento, impulsionados pelo movimento de liberação das mulheres, sexualidade, orgasmo e anticoncepção começam a fazer parte do vocabulário feminino.

Símbolo pleno da mulher liberada, a atriz Leila Diniz posa para uma foto grávida e de biquíni e profere a famosa frase que mexeu com os brios dos conservadores da época: “Transo de manhã, de tarde e de noite.” A declaração fez o governo militar criar uma lei severa de censura prévia à imprensa – o decreto no 1.077, apelidado de Decreto Leila Diniz.

Em 2002 a BM&FBovespa registrou 15 mil mulheres cadastradas como investidoras. Em 2010 este número subiu para 136,8 mil

Em 1975, o chamado Lobby do Batom garantiu que a Constituição Federal incluísse a igualdade formal de direitos entre mulheres e homens no Brasil. Neste momento o movimento feminista se consolida e entra na agenda política do país. A ONU declara 1975 como o Ano Internacional da Mulher e patrocina várias atividades públicas em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

Dados mostram que de 1973 a 1981 houve um aumento exponencial no número de mulheres trabalhadoras. Somente São Paulo viu um aumento de 168% na emissão de carteiras de trabalho. O período, no entanto, segue marcado por importantes desigualdades de gênero, principalmente no recorte que inclui o viés racial. A questão da dupla jornada força muitas mulheres a interromperem a carreira ou optarem por empregos de menor carga horária e mal remunerados – a década de 90 é marcada por um aumento substancial de mulheres nesses subempregos.

Entre 2004 e 2010 o cenário muda e vemos importantes conquistas, com melhoria substantiva da renda e acesso ao trabalho. A educação financeira é um dos últimos degraus para a emancipação feminina e, nesta busca, nos anos 2000 há um aumento significativo do interesse das mulheres pelo tema. Pipocam clubes de investimento formados apenas por mulheres. Em 2010 a BM&FBovespa registra 136,8 mil mulheres cadastradas como investidoras. Repare, em 2002 eram apenas 15 mil.

A partir daí, as mulheres entram numa segunda fase de luta. Questões raciais aparecem com mais força e a esperança faz a diferença. Tomadas por um sentimento de que é possível mudar (afinal mudaram tanto até aqui), as mulheres vazam suas indignações e se organizam política e socialmente – muito em torno do conceito de sororidade.

E é aqui que estamos. Ainda muito longe de onde queremos chegar, mas também distantes de onde partimos, mas certas de uma coisa: não dá mais para confundir questões biológicas com culturas criadas socialmente.

 

Paula Englert é CEO e sócia da BOX 1824, uma consultoria estratégica que sempre parte da perspectiva do consumidor para solucionar problemas de grandes redes no Brasil e no mundo

3 Comentários

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3 respostas para “A construção da desigualdade de gênero”

  1. Laís Diel disse:

    Concordo com a Andressa.

  2. Andressa Romanek disse:

    Vocês SEQUER citaram MULHER NEGRA nessa “construção” da desigualdade.. Vamos la…. no Antigo Egito tivemos grandes RAINHAS E eram RAINHAS NEGRAS como Cleópatra. Outra coisa..vocês usaram no texto somente “termos” sem se referir as MULHERES NEGRAS. Amas de leite,alforriadas, pobres… QUE DECEPÇÃO!!!!!!!!! Amas de Leite pra quem não sabe eram as MULHERES NEGRAS escravizadas´. Elas que já eram mães e tinham seus filhos mortos (esses mesmos concebidos no estupro por filhos e senhores do Engenho – Que alem de desumanizar, hipersexualizou a mulher negra) pra amamentar as crianças brancas. Alforriadas eram MULHERES NEGRAS escravizadas que sempre trabalharam bem antes da mulher branca conquistar “DIREITO AO TRABALHO” e em liberdade não tiveram acesso aos serviços públicos. Bem, por ultimo POBRES… bem sabemos que as mulheres pobres da época, novamente em sua maioria MULHERES NEGRAS. E por ultimo vocês fecham LUTA POR QUESTÕES RACIAIS sem novamente citar MULHERES NEGRAS. Que tristeza profunda!!!

  3. Patrícia Gouveia disse:

    Ótimo texto, fiz uma pausa na leitura pra vir aqui elogiar esse incrível desmembramento da historia da mulher ao longo do tempo. Obrigada Hysteria! Que site do caralho!

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