Conversando com meu filho sobre cannabis

Vivi Sedola voltava do Rio Grande do Norte, onde esteve a trabalho em um evento sobre maconha medicinal, quando sua 'criança' de 11 anos engatou um papo sério sobre a erva

13.12.2018  |  Por: Vivi Sedola

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Conversando com meu filho sobre cannabis

Desde que comecei a trabalhar com cannabis medicinal legal aqui no Brasil tenho participado de muitas discussões sobre o assunto. Esses dias ouvi de uma autoridade no tema que devemos educar as crianças sobre drogas, assim quando (e se) o mundo às oferecer, elas saberão tomar escolhas mais acertadas.

O assunto ressoou bastante dentro de mim pois, além de ter um filho de 11 anos, estou empreendendo no ramo de cannabis. Pensei que talvez ainda não tivesse feito o suficiente para garantir a segurança dele. A gente não controla os filhos, mas se esforça para dar uma direção.

Tivemos, sim, uma conversa muito boa dentro de um avião voltando de Natal, capital do Rio Grande do Norte, onde meu filho me acompanhou ao maior evento sobre cannabis medicinal do Nordeste do país.

– Mãe mas, afinal, o que é cannabis?

– Cannabis é maconha, filho.

Chocado.

– Sério?

– Sim, tem crianças que nascem ou desenvolvem problemas de saúde que são controláveis unicamente por medicamentos à base de cannabis.

– Crianças? Mas elas fumam?!?

Chocadíssimo.

– Não, não, filhote, acredita que tem outras maneiras de usá-la que não seja fumada? Há óleos à base de cannabis, os pais da criança pingam algumas gotinhas embaixo da língua e ela fica bem melhor. Tem criança que não gosta do sabor; para essas os pais cozinham as comidas preferidas dos seus filhos usando esse mesmo óleo e o remédio faz efeito.

– Entendi, então eu sou criança e posso usar?

– Não pode, seu cérebro ainda está em desenvolvimento, sabia? Antes dos 21 anos só devem usar derivados de cannabis as pessoas que têm algum problema de saúde tratável pela planta. Ouvi de um grande neurocientista lá no evento a que fomos que a cannabis pode atrapalhar o desenvolvimento do seu cérebro, mas depois dos 21 e em pessoas mais velhas ela pode ter efeito contrário: proteger os neurônios.

– Como assim?

– Já ouviu falar em Alzheimer, né?

– Sim, aquilo que deixa as pessoas mais velhas esquecidas.

– Exatamente, a cannabis usada com acompanhamento médico pode fazer com que esses esquecimentos parem de aumentar e proteger o cérebro de novos problemas do mesmo tipo.

– Uau, mas por que é proibido se faz tão bem pra tanta gente?

– Longa história, filhote. O homem usa a cannabis há milhares de anos para várias finalidades: como medicamento, como alimento e até como matéria-prima industrial para tecidos e outras coisas. Justamente por interesses de empresas de tecidos que não eram à base de cannabis, fizeram propaganda negativa para a planta há pouco menos de cem anos. De lá pra cá, vemos muita gente com preconceito e até medo da planta, acredita?

– Como você vai trabalhar com isso se é proibido, mãe?

– Ótima pergunta. O governo já entendeu que a cannabis pode fazer MUITA diferença na vida de pessoas com doenças de difícil controle. Por isso, elas têm uma autorização especial para se tratar. Existe muita gente que nem sabe que poderia se tratar dessa forma, mas tem essas doenças de difícil controle. O que eu estou fazendo é facilitando o acesso dessas pessoas que precisam e que podem, dentro da lei, se tratar com cannabis. A gente vai dar muita informação a respeito e facilitar o acesso delas ao tratamento com tecnologia.

Silêncio longo. Olha pela janela, respira fundo e fixa os olhos em mim:

– Mãe, preciso te dizer uma coisa, mas acho que você não vai saber administrar bem.

Sinto um calafrio que sobe do calcanhar até a base da cervical.

– O que é, filho?

– Eu acho que você deveria ser presidente do Brasil, mas seria muito difícil pra você administrar isso, né.

Neste momento eu repasso cada desafio que tenho para montar uma empresa que envolve um tema estigmatizado sendo mulher, mãe, divorciada, brasileira.

E concordo com ele: “Realmente, filho, se montar uma empresa do zero já exige tanto empenho, imagina consertar e gerir um país. Pode parecer pouco, mas com esse trabalho de agora já vamos ajudar muita gente.” E segue o vôo.

Vivi Sedola é relações-públicas, mãe e empreendedora na Dr. Cannabis

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