De volta para o passado

Quando corpos felizes são uma ameaça e acabam ameaçados: no Brasil de hoje está em jogo a pulsão de vida da liberdade e do respeito ao diferente contra uma pulsão de morte que prega a violência a todo aquele que não se dobre à 'maioria'

29.10.2018  |  Por: Maria Clara Drummond

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De volta para o passado

Marcela Cantuária | Piscina

O voto em Bolsonaro e o voto em qualquer outro candidato – que aqui foi encarnado por Haddad mas também poderia ser em figuras de outros espectros ideológicos, como Alckmin e Amoêdo – representa duas concepções diferentes de alma. É por isso que essas eleições mexeram com a subjetividade de tanta gente.

O populismo de extrema direita é um fenômeno global com variados níveis de autoritarismo. Mas Bolsonaro é o único que defende abertamente o assassinato, tortura e eliminação dos opositores políticos – tom que não foi amansado nem às vésperas do pleito. Muitos outros governantes foram acusados desses crimes. No entanto, o desrespeito aos direitos humanos sempre foi motivo de vergonha, algo a ser varrido para baixo do tapete, e não bandeira política. Até Marine Le Pen, ícone da extrema direita europeia, reprovou moralmente as declarações de Bolsonaro.

Nos Estados Unidos, Trump divulgou um plano para o governo federal não mais reconhecer legalmente ninguém como transexual. O governo húngaro acabou de assinar um decreto que proíbe pós-graduação em gender studies. A perseguição de homossexuais russos chegou ao ponto de existir um campo de concentração na Chechênia. Mesmo assim, o discurso com forte teor identitário é algo que diferencia o capitão da reserva de seus pares ao redor do mundo. Nenhum dos demais líderes da mesma estirpe tem uma coleção tão infame de ofensas a mulheres, negros e LGBTs.

Essas três parcelas da população brasileira vivenciaram o empoderamento que possibilitou sua autonomia em relação à hegemonia branca-hetero-patriarcal. E assim aprendemos que só existe felicidade possível quando se é livre para ser quem verdadeiramente se é. A legitimação do discurso que “as minorias deverão se curvar às maiorias” significa que essa liberdade será restrita. Isso pode ocorrer oficialmente através da legislação ou por vias mais sutis, seja fazendo vista grossa para atos de violência perpetuados por civis, seja através de milícias paramilitares. Na Alemanha nazista, foram os camisa parda da SA. Mussolini tinha os camisa negra. Aqui, talvez o uniforme oficial seja a blusa amarela que predominou nas manifestações de direita. Vale lembrar: Bolsonaro em nenhum momento repudiou de forma enfática as agressões e assassinatos que ocorreram em seu nome durante as eleições.

Os fascistas que saíram do armário nestas eleições ficam ofendidos com as bichas que demonstram felicidade em público, com a mulher que não sente vergonha da sua sexualidade, com o negro que não se submete à branquitude

Está em jogo a pulsão de vida da liberdade e do respeito ao diferente contra uma pulsão de morte que prega a violência a todo aquele que não se dobre à “maioria”. Os fascistas que saíram do armário nestas eleições ficam ofendidos com as bichas que demonstram felicidade em público, com a mulher que não sente vergonha da sua sexualidade, com o negro que não se submete à branquitude. Não hesitam em agredi-los quando ousam saírem às ruas com a liberdade que eles não têm coragem de experimentar. É a felicidade mais estruturante desses grupos que está em jogo.

Muitos eleitores do Bolsonaro acham que isso é paranoia e que brigar com a família por causa de política é radicalismo. Falta-lhes a compreensão de que os fascistas não querem que nos sintamos felizes em nossas peles. Isso é tão doloroso que pode causar a ruptura de laços com quem não se importa com a nossa felicidade.

Os fascistas que elegeram esse presidente têm a alma atrofiada, que não concebe a possibilidade de olhar para o mundo e para a si mesmo sem o subterfúgio do moralismo. “O universo parece honesto para as pessoas de bem porque elas têm os olhos castrados. É por isso que não sentem nenhuma angústia ao ouvir o grito do galo ou ao descobrirem o céu estrelado. Em geral, apreciam os ‘prazeres da carne’, na condição de que sejam insossos”, escreveu Bataille em A História do Olho.

Quando vazou o vídeo da suposta suruba de João Doria, político adepto da filosofia bolsonarista, muitos homens heterossexuais acharam maneiro. “Olha, que fodão, seis mulheres ao seu dispor.” Não entendem que não havia nada de erótico ali. Apenas um exercício de poder que confirma a frase “Everything is about sex except sex. Sex is about Power” (em tradução literal: Tudo é sobre sexo, exceto o sexo. Sexo é sobre poder).

Como disse a antropóloga Alana Moraes no Facebook: “Não tem desejo, não tem ação, é apenas uma encenação para a masculinidade impotente – como já vínhamos comentando a respeito do fascismo. Os homens pagam para expropriar a sexualidade das mulheres no casamento; os homens pagam para que mulheres encenem para eles um resquício de desejo fora do casamento. A família tradicional brasileira é uma mentira bem contada para que mulheres encenem: esposas, prostitutas, as duas operárias da fábrica mais importante do capitalismo: a família heteropatriarcal. Uma oferece trabalho doméstico e reprodutivo gratuito, a outra oferece a ficção de uma virilidade dominante.”

E a postagem termina com uma frase Wilhelm Reich: “A mulher sexualmente consciente, que se afirma e é reconhecida como tal, significaria o colapso completo da ideologia autoritária.” Corpos felizes são uma ameaça a Bolsonaro. E Bolsonaro é uma ameaça a corpos felizes.

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