Eileen Myles: sexo, drogas e o uso de palavras nos anos 1970 e agora

A autora americana que é considerada 'a peça perdida para qualquer um que só tenha lido escritores homens da geração beat' fala sobre seu livro 'Chelsea Girls', lançado no Brasil este ano

19.06.2019  |  Por: Gaia Passarelli

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Eileen Myles: sexo, drogas e o uso de palavras nos anos 1970 e agora

Ela não é o Kerouac de saias, rótulo que uma crítica aqui e outra acolá tentou fazer grudar. Talvez porque Eileen Myles, escritora, artista performática, poetisa lésbica norte-americana, esteja bastante viva para falar sobre sua obra. Mas há algum sentido na comparação: Chelsea Girls, um livro que é menos uma biografia semi-ficcional do que relato cultural de uma época especialmente viva das artes nos EUA (e que foi lançado no Brasil este ano pela editora Todavia), tem tanta força quanto o clássico beat de Jack Kerouac, sempre lembrado quando se trata de relatos pessoais de vida desregrada.

“Havia um público para o livro quando ele saiu, em 1994, e que amou o que leu. Mas o livro saiu cerca de dez anos depois da época que descreve, então é possível que tenha sido muito realista, muito próximo das pessoas, até um pouco assustador. Eu quis registrar um certo tipo de vida queer feminina que era invisível na época, então talvez tenha sido chocante,” conta Eileen em vídeo enviado de seu apartamento em Nova York, uma mulher madura, de fala segura e cara lavada.

Chelsea Girls, livro publicado em 1994 (com uma reedição em 2015), é como um filme sem narrativa cronológica linear. Lembranças da infância dão lugar à realidade dura no Lower East Side nova-iorquino dos anos 1970 e 80 e se misturam a memórias difusas de transas e bebedeiras no interior da América. Alguma violência dá lugar a humor, e este volta para a violência, pobreza e busca de identidade. É em essência um livro sobre não ter lugar no mundo e precisar, querer, buscar encontrar esse lugar. Mas a Eileen já crescida, adulta de hoje, pode olhar para a câmera e dizer que “não é mais pobre” porque tem um lugar para morar. Ela está aqui pra contar e isso faz muita diferença, porque nos anos 2010 se pode falar com soltura sobre ter sido uma menina que queria ser um menino nos anos 1970.

Eileen acredita que seu livro segue relevante porque temos hoje principalmente uma diferença de linguagem. “Sexualidade é algo muito difuso. Eu sempre quero esticar esse conceito. Quando eu falo de mim eu uso o pronome they (eles/elas em inglês) junto do adjetivo lésbica. Mas acho que sou trans e acho que sou queer, acho que sou gender queer. Muitas de nós que ainda estamos usando a palavra lésbica, estamos a usando de uma forma bastante elástica, porque o termo não é tão simples, a comunidade não é tão simples. Não é que nós fossemos separatistas, mas é que não parecia haver tantas de nós nos anos 1970 e 80, então de certa forma nós tínhamos que manter a coisa entre nós e se você queria ver outras lésbicas você tinha que ir a um bar ou algum evento específico. A partir dos anos 1990 isso começou a mudar e ficar mais aberto, você podia ir em um evento de arte ou de política, nós passamos a nos ver no mundo de forma mais pública.”

Seria diferente se fosse escrito hoje? “Eu não sei, não posso nem imaginar. Seria e não seria, porque ainda estamos falando sobre estrutura de classe. Eu venho de uma classe média trabalhadora, muito masculina, você deve saber disso pelo meu trabalho, mas mesmo com esse movimento todo de tornar o queerness aceitável, é preciso pensar: nós estamos falando de tornar aceitável pra quem? O feminismo nos anos 1970 era excitante, mas ainda era muito uma preocupação de mulheres brancas em escolas particulares. Era uma preocupação minha também, eu achava que era uma menino quando estava crescendo e queria que as pessoas me vissem dessa forma, mas ainda assim era uma coisa sobre ser parte de um grupo, aquele clichê todo de queimar sutiãs. É isso que as pessoas criticam no feminismo branco – ainda é uma coisa relacionada à classe social.”

Eileen Myles é considerada por alguns como “a peça perdida para qualquer um que só tenha lido escritores homens da geração beat”.

 

Gaía Passarelli é jornalista e escritora, autora de Mas Você Vai Sozinha? (Globo Livros, 2016). Nascida e criada em São Paulo, mora num prédio velho da Bela Vista com o filho, três gatos e uma crescente coleção de guias de viagem. Você a encontra no twitter @gaiapassarelli e no site gaiapassarelli.com

 

 

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