Enquanto o mundo congelava, eu congelei meus óvulos

Como foi o processo de fazer um procedimento de mini fertilização in-vitro em plena pandemia

05.08.2020  |  Por: Ana Luisa Camargo

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Enquanto o mundo congelava, eu congelei meus óvulos

Dizem que o tempo passa rápido. A verdade é que eu nunca me preocupei muito com isso. Mas, se tem outra coisa que é verdade, é que o corpo sabe a idade que tem. Por isso, ao chegar aos 36 anos, decidi encarar a realidade inexorável para pessoas com úteros: o tal declínio da fertilidade, e as consequentes barreiras e riscos para engravidar. Estudiosos chamam isso de gravidez “tardia” – como se a mulher estivesse atrasada para um compromisso que assumiu involuntariamente no dia em que nasceu. Estudiosos menos sensíveis chamam isso de gravidez “geriátrica”, expressão que consegue juntar dois extremos do espectro da vida, e aterrorizar qualquer mulher que a ouve. Bom, como se não bastasse essa complicação toda, decidi congelar meus óvulos na mesma época em que o resto do mundo congelou. A louca.

Há três anos, terminei o relacionamento estável que havia sido o motivo da minha mudança para os Estados Unidos. Fiz as malas em Miami e vim para Nova Iorque, recomeçar a vida do jeito que só um fim intenso possibilita. Eu tinha 33 anos e, pela primeira vez, pensei em congelar meus óvulos. Fiz muita pesquisa, avaliei os riscos e custos, e cheguei à conclusão de que não valia a pena. Li muito sobre a porr*da de hormônios que seu corpo leva e fiquei receosa com a possibilidade de produção exagerada de óvulos, a chamada síndrome do hiperestímulo ovariano.

Alguns anos depois da minha chegada a NY, conheci uma startup de saúde chamada Modern Fertility, que vende um teste hormonal que você faz em casa para entender em que pé sua fertilidade está e acompanhá-la ao longo do tempo. O kit chega pelo correio, você fura seu dedo e deixa gotas de sangue caírem em cima de um papel. Depois é só enviar de volta pelo correio e receber os resultados online. Eles recomendam fazer isso uma vez ao ano, e monitorar ao longo do tempo os hormônios que influenciam na sua fertilidade. Não diz coisas como “quantos anos você ainda tem para ter filhos” – infelizmente, a ciência ainda não chegou lá. Mas te dá informação e dados sobre a sua fertilidade. E informação é o que, minha gente? TUDO nessa vida. Com informação, você tem a possibilidade de reduzir incertezas, refletir sobre o que você quer e planejar seu futuro. 

Ter feito esse exame me fez reconsiderar a decisão de congelar óvulos. Os resultados são bem fáceis de entender e, quando li os meus, vi que um dos índices – o de reserva ovariana – estava meio baixo. Todas as mulheres quando nascem já têm uma quantidade determinada de óvulos nos seus ovários, que vão se desenvolvendo a cada ciclo, a partir da puberdade. O exame estava basicamente dizendo que o tanque dos meus óvulos estava ficando vazio. Com essa informação em mãos, voltei a pensar sobre o congelamento.

Eu ainda estava incomodada com a possibilidade de submeter meu corpo a uma avalanche de hormônios quando soube, por uma amiga, da existência de um procedimento menos invasivo. Aqui eles chamam de mini-IVF, ou mini fertilização in-vitro, processo que coleta óvulos com uma estimulação hormonal mínima. Além de ser um procedimento com carga hormonal reduzida, tomando o hormônio por via oral, ele também é menos caro do que o processo de congelamento de óvulos tradicional. Mas, como dizem aqui, “there’s no free lunch” (não existe almoço grátis). O outro lado dessa moeda é que você coleta menos óvulos. Se o processo tradicional consegue coletar entre 15 e 20 óvulos, o “mini” coleta entre dois e dez. Os praticantes do minicongelamento de óvulos argumentam que a quantidade é menor mas a qualidade, melhor. Os dados científicos são ainda limitados, mas a galera que defende o procedimento tradicional diz que se a qualidade dos óvulos fosse de fato melhor, veria-se um índice de concepção mais alto com esse procedimento – o que não acontece.

A razão pela qual esse processo fez sentido para mim é porque esse não é meu plano A – é um plano B. Eu não estou com nenhum problema de fertilidade, mas como quero muito ser mãe um dia, estou fazendo o que posso para aumentar minhas chances. Estou com 36 anos, num novo relacionamento estável, e planejamos ter filhos no futuro. Caso tudo dê certo quando a gente tentar ter o primeiro, eu já estarei com uns 38 ou 40 anos quando quiser ter o segundo. Congelei ovos mais novos (ou “menos velhos”) para o caso de ter dificuldade em ter o segundo. Na pior das hipóteses, usá-los caso tenha dificuldade para uma primeira gravidez. Na melhor das hipóteses, nunca usar.

O processo exige que você comece a tomar uma carga hormonal baixa todos os dias e vá frequentemente ao consultório monitorar (com coletas de sangue e ultrassom) o desenvolvimento dos óvulos. Quando eu estava prestes a começar o processo, veio essa tal pandemia. Nova Iorque virou o epicentro da doença nos Estados Unidos. A cidade parou. Mas como o relógio biológico não para, decidi seguir adiante.

Irônico arriscar minha vida para aumentar as minhas chances de um dia gerar vida

O que veio a seguir foram semanas de um coquetel de anticoncepcional, hormônios e visitas quase que diárias ao consultório médico. Nesse tsunami viral que dizimou a economia do mundo inteiro, fui uma das sortudas a manter o emprego, por isso o monitoramento tinha que ser feito antes do horário comercial. Às 6:30h da manhã, eu entrava num Uber, torcendo para que ele não estivesse infectado de Covid-19. A caminho do consultório, via estupefata pela janela do carro a cidade deserta passar por mim. Às 7h da manhã, eu já estava tirando o primeiro de três tubos de sangue.

Eu praticamente só saía de casa para ir ao médico. Irônico arriscar minha vida para aumentar as minhas chances de um dia gerar vida. Sabe aquele medo que todo mundo sentiu (ou ainda está sentindo) por conta dessa crise global, com doses de tensão, ansiedade e insegurança? Agora coloca mais uns hormônios em cima disso. A dose hormonal pode até ser mais baixa que a do procedimento tradicional, mas foi o suficiente para sentir impacto no quesito saúde mental. Perto do dia da coleta dos óvulos, o efeito acumulativo dos hormônios tirou minha sanidade e meu sono. Minha admiração às mulheres grávidas que tiveram que lidar com um miniapocalipse enquanto seus corpos estavam sendo inundados por hormônios já por si só capazes de transmutar qualquer realidade.

A única injeção de todo o processo é a “injeção gatilho”, aplicada 36 horas antes do dia da coleta, quando os óvulos estão no pico da maturidade. Para o momento da coleta, eu escolhi estar acordada, só com anestesia local. 

“Você aceita tomar um Valium antes do procedimento?”, me perguntou a enfermeira. “Sim-por-favor-me-dê-todas-as-drogas.” Eu não estava necessariamente me sentindo tensa ou nervosa, mas o corpo naturalmente reage nesse momento em que algo penetra uma das suas cavidades mais íntimas. E eu confesso que nunca tinha tomado um ansiolítico – achei que o contexto pandemia + hormônios era uma boa justificativa para uma primeira vez. E foi a melhor parte do processo todo. Fiquei querendo vandalizar o bolso do jaleco da enfermeira, onde moravam os irmãos da pílula que ela me deu.

Entrei feliz da vida e relaxada na sala da coleta. Assim que deitei na cadeira, o médico veio se apresentar. Será que os profissionais de saúde acham estranho os pacientes agora estarem usando as máscaras que eles sempre usaram? Tentei sorrir com os olhos e expressar a alegria que o Valium havia trazido. O procedimento em si foi rápido e praticamente indolor. É basicamente um exame de ultrassom normal com uma rápida pressão no final, para atravessar a parede do ovário e pescar os óvulos. Eu basicamente não senti nenhuma dor na hora e tive uma leve cólica nas horas seguintes. No procedimento, dois óvulos meus foram sugados para uma placa de petri e imediatamente transferidos para o congelamento. Na real, dois óvulos não são muito – seria até considerado pouco se eu tivesse de fato fazendo um tratamento de infertilidade. Mas como não estou, bastou para mim. Lá eles ficarão armazenados até que eu queira usá-los ou descartá-los, pagando uma taxa anual de manutenção, claro. Quinze minutos depois, eu já estava na sala de recuperação.

Mas por que eu decidi falar sobre isso tudo? Sendo muito sincera, eu quase desisti de contar essa história. Depois do procedimento, tanta coisa aconteceu. A pandemia continuou, e em seguida começaram os protestos anti-racistas que tomaram os EUA. Com tanta coisa socialmente relevante acontecendo, questionei se um relato como este fazia sentido ou não. Mas aí pensei como as pautas feministas ainda são tão necessárias. Aliás, já que mencionei o anti-racismo, cabe lembrar que a mulher negra é a pessoa mais negligenciada e desrespeitada neste país, como já disse Malcolm X há meio século e continua sendo verdade até hoje. Pensei sobre a falta de acesso a informação que eu mesma vivi durante esse processo, que ainda é tão novo e em constante evolução. Sobre como nós mulheres somos silenciadas em geral, educadas a não falar sobre assuntos que são da nossa natureza e da natureza humana – como menstruação, sexualidade, aborto, o trabalho invisível e não reconhecido das mães e mulheres pelo mundo todo.  

Eu acredito no poder da fala e de histórias como ferramenta poderosa de transformação. Então eu acho que a gente deveria falar mais. Vamos expor nossas delícias e também nossas dores. Vamos pensar sobre elas juntas, e mudar as realidades que não nos servem mais. Vamos juntas. 

 

Ana Camargo mora em Nova Iorque e une seu interesse por natureza e design ao pensar sobre estratégia para marcas. Se quiser falar com ela sobre a sua jornada de fertilidade – não que ela entenda muito do assunto – ela adoraria conversar: você a encontra no Instagram @analucamargo

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