Entrevista com o Produto | Curvex

Na estreia de sua série de entrevistas fantásticas com bens de consumo do 'universo feminino', Alessandra Colasanti conversa com o sedutor curvex

10.04.2018  |  Por: Alessandra Colasanti

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Entrevista com o Produto | Curvex

ALESSANDRA: Olá, curvex! É um prazer estar aqui com você, como vai? Tudo curvo?
CURVEX: Olá, Alessandra! O prazer é todo meu, eu sou um grande admirador seu, especialmente das suas pestanas que vão longe!
ALESSANDRA: (risos) Obrigada, querido! E eu posso dizer que sem você eu não seria ninguém! Bom, antes de mais nada, pra quem não sabe, o ENTREVISTA COM O PRODUTO é um laboratório de investigação do humano através dos seus produtos. E eu convidei o curvex pra estar aqui hoje, pra gente tentar destrinchar um pouco essa coisa toda. Onde começa o humano e onde terminam os seus produtos? Essa fronteira existe de fato? Curvex, você se considera um mero  produto da criação humana ou não é bem assim?
CURVEX: Olha… eu respeito muito o ser humano. Afinal, o que seria do Pinóquio sem o Gepeto? Mas sinto que o dom da criação vem do além.
ALESSANDRA: Você acredita em Deus, é isso?
(pausa)
CURVEX: Sem dúvida. Quem poderia ter criado os cílios senão um Deus?
ALESSANDRA: Uma Deusa, talvez?
CURVEX: Ou uma Deusa! Certamente.
(pausa)
ALESSANDRA: O que você acha daquele rímel duplo, que começava com uma camada branca e depois se passava uma preta por cima? Esse rímel sumiu, nunca mais ninguém viu. Caiu em ostracismo? Por quê?
CURVEX: É a mecânica do mercado. Esse rímel era um produto bem interessante, que unia o lúdico e o político pela via da estética. Mas a sociedade de consumo é compulsiva, cria aspirações e desejos com o único intuito de vender e gerar lucro, e,com isso, muitos produtos caem no esquecimento.
ALESSANDRA: E pra onde vão os produtos esquecidos?
CURVEX: Para as ruas. Muitos vagam pelas calçadas sem destino. Os mendigos são os maiores amparadores de produtos perdidos.  Nossos anjos da guarda. Outros têm sorte, permanecem em gavetas, em segurança , outros vão parar em museus de design, se tornam estrelas…
ALESSANDRA: Qual a sua relação com o rímel de uma maneira geral?
CURVEX: Tem uma hierarquia aí, né, ele faz o trabalho sujo e eu adiciono o toque de mestre, mas admiro.
ALESSANDRA: De onde vem essa cultura de curvar os cílios? Conta pra gente.
CURVEX: Da mãe de todas as motivações: sexo
ALESSANDRA: Ah, o objetivo final no uso do curvex, seria para transar?
CURVEX: Todos os caminhos levam à cópula.
ALESSANDRA: Então, quem tem cílio grande tem maiores chances de se dar bem?
CURVEX: Com certeza.
ALESSANDRA: E como ficam as pessoas sem esse privilégio? Isso não seria uma forma de excluir, através de um padrão de cílios longos, quem não nasceu assim?
CURVEX: Tem muita gente sem cílio que é super sexy, para todas as outras existe o curvex.
ALESSANDRA: Ou seja: ninguém depende do curvex pra transar.
CURVEX: Humildemente, eu diria que a humanidade taí há milhões de anos, o curvex não passa de um segundo na madrugada da história.
ALESSANDRA: Homem pode usar curvex?
CURVEX: Com certeza, pode e deve! Aliás, esse é o meu sonho, um mundo onde todos usem curvex. Seria a glória para mim.
ALESSANDRA: Mas eles usam?
CURVEX: Um ou outro, mas ninguém assume.
ALESSANDRA: Seu público consumidor é formado majoritariamente por mulheres?
CURVEX: Sim.
ALESSANDRA: E por que você acha que os homens não usam curvex?
CURVEX: Medo.
ALESSANDRA: Interessante… De quê?
CURVEX: De ver além.
ALESSANDRA: O senhor/
CURVEX (interrompe): O senhor não, que eu não me limito a gêneros, meu nome termina com X.
ALESSANDRA: Desculpa. Você empodera as mulheres, porque faz com que elas se sintam potentes, donas do próprio olho , mas ao mesmo tempo, limita o olhar da sociedade sobre a mulher, porque todas passam a ter que corresponder a um único padrão de beleza, altamente erotizado, objetificado, que visa à satisfação do prazer do outro e ainda gera lucro para o sistema capitalista! Você se considera contraditório?
CURVEX: Ninguém é uma coisa só. Não sou eu quem diz, é a física quântica.
ALESSANDRA: Você acredita em curvex além da Terra?
CURVEX: Eu não acredito, eu sei.
ALESSANDRA: Quando foi criado o curvex?
CURVEX: Foi na Grécia Antiga. Tanto o curvex, quanto o babyliss.
ALESSANDRA: Olha… Não sabia.
CURVEX: Pode notar que nas pinturas em vasos que chegaram até nós daquela época, o efeito babyliss é evidente.
ALESSANDRA: A história é cíclica?
CURVEX: Ah, eu acho que sim, viu.
ALESSANDRA: Então o curvex está em consonância com a história por que também vive a vida em ondas?
CURVEX: kkk Você é muito divertida, Alessandra! Espero que sim! Espero que sim!
ALESSANDRA: Você tem medo de ser esquecido? De virar curvex de rua?
CURVEX:Se eu dissesse, que não tenho esse medo, eu estaria mentindo para você. Eu, como os humanos, também tenho o medo da finitude inscrito no meu DNA. A obsolescência é implacável.
ALESSANDRA: E como você faz pra se livrar desse medo?
CURVEX: A gente aprende a lidar, a ver a morte como algo natural, e enquanto esse momento não vem, eu tento curvar o máximo de cílios que eu posso, da melhor maneira possível, com amor, com criatividade, acordar sempre de bom humor e ser gentil.
ALESSANDRA: Você ama o que faz?
CURVEX: Com certeza! Eu amo o meu trabalho.
ALESSANDRA: E existe separação entre você e o seu trabalho?
CURVEX: Óbvio que não. É só olhar pra minha cara.
ALESSANDRA: E de onde vem a maioria dos curvex em circulação, hoje?
CURVEX: Da China.
ALESSANDRA: Se você quisesse trabalhar com outra coisa que não pestanas, seria possível?
CURVEX: Sempre é possível se reinventar. Eu tenho um colega que passou a abrir garrafas.
ALESSANDRA: Mas a sua aparência assusta muita gente por remeter a objetos de tortura. Você acha que pra ser bonita tem que sofrer?
CURVEX: Cada um vê o que quer, taí o teste Rorschach que não me deixa mentir. Mas é importante dizer que curvex não machuca, gente! Curvex não morde!
ALESSANDRA: Olha, Curvex, eu tô impressionada! Você não é nada fútil!
CURVEX: E por que seria? (Risos.)
ALESSANDRA: Você tem razão, preconceito meu.
CURVEX: CURVEX: Eu costumo dizer que, se o mais profundo é a pele, os cílios são as cortinas da janela da alma..
ALESSANDRA: Você se considera um poeta?
CURVEX: Um misto de poeta com fiiósofo.
ALESSANDRA: Por quê?
CURVEX: Porque amplio o olhar.
(Alessandra bebe água, curvex observa)
ALESSANDRA: Aceita?
CURVEX: Melhor, não. Obrigado.
CURVEX: E você me usa?
ALESSANDRA: Atualmente tô usando cílios postiços
CURVEX: Ah.
ALESSANDRA: Desculpa. Te magoei?
CURVEX: Não…
ALESSANDRA: A propósito, como você vê a concorrência dos cílios postiços?
CURVEX: Prefiro não comentar.
ALESSANDRA: Ok. Conversamos hoje com o CURVEX. Na próxima semana iremos conversar com o SUTIÃ! Até lá! Muito obrigada, Curvex!
CURVEX: Obrigada você!
ALESSANDRA: Até a próxima! Ah! Só mais uma perguntinha! Tem curvex para quem é fora da curva?
CURVEX: Quem é fora da curva não precisa de curvex.

Alessandra Colasanti é escritora, roteirista, dramaturga e atriz, e a cada 15 dias vai entrevistar, para Hysteria, um bem de consumo referente ao que o senso comum encara como “universo feminino”

 

2 Comentários

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2 respostas para “Entrevista com o Produto | Curvex”

  1. Rodrigo Nogueira disse:

    excelente entrevista. queria dizer abertamente que eu uso curvex. sempre me fascinou até que uma amiga me deu de presente de natal o meu curvex, que se tornou meu parceiro, amigo querido q já estamos juntos há alguns anos.

    ele tem razão, é difícil admitir, mas ultimamente revelamos nossa relação pro mundo e estamos bem felizes num relacionamento a três: eu, ele é o rímel incolor. ♥️

  2. Fina Tranquilin disse:

    Meninas, mt bom… amei…

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