Entrevista com o Produto | Sutiã

Na segunda entrevista com bens de consumo do 'universo feminino', Alessandra Colasanti conversa com o controverso sutiã

24.04.2018  |  Por: Alessandra Colasanti

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Entrevista com o Produto | Sutiã

ALESSANDRA: Olá! O ENTREVISTA COM O PRODUTO de hoje recebe um convidado controverso, um convidado que sustenta inúmeras polêmicas. Amado por umas, odiado por outras, ele é amigo e inimigo, para o bem ou para o mal, um mito. Bem vindo, SUTIÃ! Como foi chegar até aqui?
SUTIÃ: Nada fácil.
ALESSANDRA: Por quê?
SUTIÃ: Me considero um injustiçado.
ALESSANDRA: Por quem?
SUTIÃ: (num suspiro) Ah, pela História…!
ALESSANDRA: Hum… fala mais.
SUTIÃ: Eu sou um apaixonado pelas mulheres, um amigo do peito, todo mundo sabe disso. Eu só queria apoiar. Sou mal interpretado.
ALESSANDRA: Você é francês?
SUTIÃ: Tenho ancestrais na França, toda a família de vovô Soutien Gorge, mas também na Grécia antiga, Esparta, Áustria, Inglaterra, enfim, é difícil rastrear esse DNA, meus antepassados estão por toda parte, onde há seio, há sutiã, mas nasci oficialmente em Nova York.
ALESSANDRA: Ah, jura?
SUTIÃ: Fui patenteado em 1914, em um cartório da Rua 46.
ALESSANDRA: Como foi sua infância?
SUTIÃ: (ri alto)  Há! Foram anos loucos!
ALESSANDRA: Como é a sua relação com os mamilos?
SUTIÃ: Próxima, bem próxima.
ALESSANDRA: Já puxou papo?
(Sutiã fica vermelho)
SUTIÃ: Na verdade, não… Eu sou meio fechado.
ALESSANDRA: Mamilos são polêmicos. Você se considera um conservador?
SUTIÃ: Olha, eu queria aproveitar a chance de estar aqui com você, Alessandra, pra dizer que a função do sutiã, o propósito da minha vida, é amparar os seios. Agora, se isso implica em tapar mamilos, desculpa, não era a minha intenção oprimir ninguém.
ALESSANDRA: Conhece o movimento Free the Nipple?
SUTIÃ: Liberte o mamilo em português, seria isso?
ALESSANDRA: Sim.
SUTIÃ: Não conheço.
ALESSANDRA: É uma campanha pela igualdade de gênero. Homens e mulheres deveriam ser iguais perante a lei, mas se uma mulher sair por aí sem camisa e sem sutiã ela pode ser presa, o que não acontece com os homens. O que você acha disso?
SUTIÃ: O problema não tá no sutiã, tá na cabeça das pessoas.
ALESSANDRA: Oncinha ou renda?
SUTIÃ: Bege.
ALESSANDRA: Qual a maior falácia da sua mitologia pessoal?
SUTIÃ: A queima do sutiã.
ALESSANDRA: É verdade que nunca aconteceu?
SUTIÃ: Aconteceu simbolicamente, acontece na cabeça das pessoas o tempo todo, eu vivo uma inquisição virtual 24 horas por dia. É puxado. Mas em relação aos anos 60, tudo o que eu sei é que um grupo de mulheres quis protestar contra o concurso Miss América e ensaiou tacar fogo em mim mas, de fato, não aconteceu, a polícia chegou a tempo e conteve a baderna.
ALESSANDRA: Mas você não acha uma doideira que a maioria das pessoas acredite que o sutiã tenha sido queimado, mesmo sem nunca ter sido? Em alguns países é até feriado nesse dia!
SUTIÃ: Acho essa energia muito negativa, não sei lidar.
ALESSANDRA: Adesivos para seios?
SUTIÃ: Acho cafona, nesse sentido sou tradicional.
ALESSANDRA: Tomara que caia: bullying ou assédio?
SUTIÃ: Olho grande.
ALESSANDRA: Muita gente vê o sutiã de aro como um herdeiro direto dos espartilhos medievais e, portanto, um instrumento de controle do corpo da mulher, como é isso pra você?
SUTIÃ: Uma ofensa pessoal.
ALESSANDRA:  Por quê? (sente) Desculpa, não era minha intenção ofender.
SUTIÃ: O espartilho reinou soberano sobre o torso da mulher por cerca de mil anos, causou várias mortes, quebrou costelas, perfurou órgãos, isso sem mencionar uma série de óbitos por falta de ar e outros tantos por traumatismo craniano, muitas mulheres desmaiavam e na queda batiam com a cabeça. Mas eu não tenho nada a ver com isso. Esse estigma não é meu. Pelo contrário. Você conhece o caso da mulher que foi atingida por uma bala perdida em Belém e foi salva pelo aro do sutiã?
ALESSANDRA: Belém, que você diz… do Pará?
SUTIÃ: Conhece?
ALESSANDRA: (hesita) Nã-não…
SUTIÃ: Pois é. Esse tipo de coisa as pessoas não falam, né? Ninguém “lembra”. Foi amplamente divulgado pela mídia. É só botar no Google. Ivete Maurício estava caminhando quando deu de cara com um assalto do outro lado da rua. De repente, começaram os disparos. Ivete só percebeu que tinha sido baleada depois de se esconder em um supermercado. No vestido ficou o furo da bala, mas o aro do sutiã absorveu o impacto. Então, conforme você mesma pode ver, o sutiã vai de carrasco à guardião.
(tempo)
ALESSANDRA: Fascinante.
(tempo)
ALESSANDRA: Seria tipo um copo? Que pode estar metade cheio e metade vazio?
SUTIÃ: Tipo isso.
ALESSANDRA: Por falar nisso, e o sutiã meia-taça?
SUTIÃ: O que é que tem?
ALESSANDRA: Não sei, me diz você… servir seios em taças… objetificante, não?
SUTIÃ: Querida, o sutiã meia-taça foi criado por um engenheiro de aviões supersônicos. É uma peça de design sofisticadíssima.
ALESSANDRA: Comparar mulheres a aviões… objetificante idem, não?
SUTIÃ: Olha, Alessandra, eu tô cansado, confesso, é muita pressão, viu?
ALESSANDRA: É o que elas dizem!
SUTIÃ: Tá abafado aqui. O que você acha da gente sair pra dar uma volta?
ALESSANDRA: Acho ótimo.
(Alessandra e Sutiã saem)
SUTIÃ: Eu nasci pra libertar o corpo da mulher. Antes de mim era muito pior.
ALESSANDRA: Libertar em termos, né?
SUTIÃ: Não entendi.
ALESSANDRA: Liberdade, liberdade é caminhar contra o vento sem calcinha, sem sutiã e sem documento, vamos combinar?
SUTIÃ: Eu respeito a calcinha, mas trabalhamos em frentes diferentes. Agora, se pra você, Alessandra, é bom andar sem sutiã, o.k., vai fundo, eu só acho que a gente precisa considerar as mulheres que curtem esse acessório. Não dá pra ser essa patrulha o tempo todo.
(Alessandra tira o sutiã, tira a calcinha)
ALESSANDRA: Você faz terapia?
SUTIÃ: Eu seguro altas barras, a maior delas é a luta contra a lei da gravidade, sem mencionar o próprio peso da existência. Eu também preciso de apoio.
ALESSANDRA: Qual linha?
SUTIÃ: Freudiana.
ALESSANDRA: Entendo. Se considera instável emocionalmente? Toma remédios?
SUTIÃ: Hoje em dia, homeopatia. Me tornei mais leve, a maturidade me trouxe isso. As tendências da moda sutiã atuais não me deixam mentir. Sutiãs suaves, sem aro, sem bojo, sem presilhas, sem amarras…
ALESSANDRA: Qual o seu maior medo?
SUTIÃ: Desaparecer.
ALESSANDRA: Bom, posso te garantir que você não tá sozinho nessa.
SUTIÃ: Inclusive, Alê, eu tô lançando uma campanha chamada “Não deixe o sutiã morrer”. Somos perseguidos e isso precisa acabar. Criei uma petição online, é só acessar www.avaaz.org/Não_Deixe_o_Sutiã_Morrer. Quem me segue, quem gosta de mim, por favor assine. E pra quem quiser me ajudar a divulgar, eu criei uma hashtag.  Façam selfies com seus sutiãs e postem com a hashtag: #NãoDeixeOSutiãMorrer.
(tempo)
ALESSANDRA: Sutiã, eu quero dizer que tá tudo bem, tá?
SUTIÃ: Por que você tá falando isso?
ALESSANDRA: Não precisa ficar reativo, eu não tô aqui pra te julgar. Eu sou uma grande admiradora sua.
SUTIÃ: Ah, é?
ALESSANDRA: Claro. Eu sou da geração que aderiu ao primeiro sutiã por volta dos 11 anos.
SUTIÃ: Ai que fofa! Por que viu o comercial do meu primeiro sutiã na TV?
ALESSANDRA: Com certeza. Comprei um branco, um rosa e um bege. Quer dizer, minha mãe comprou.
SUTIÃ: Ai, ufa. Fico feliz, viu.
ALESSANDRA: Mas tem uma questão aí, né…
SUTIÃ: Qual?
ALESSANDRA: Trazendo pros dias de hoje, sutiã com bojo pra criança não seria adultização da infância?
SUTIÃ: (sarcástico) Ah, meu amor, não sei. Você fez essa pergunta pro batom?
ALESSANDRA: Não… mas você me deu uma boa ideia.
(Alessandra para, faz anotações)
SUTIÃ: (exaltado) Pergunta isso pro batom, pergunta isso pro esmalte, pro tamanquinho de salto alto, por que você não pergunta isso pra indústria de brinquedos, por exemplo?! Brincar de cuidar de neném, de trocar fralda, de passar roupa, cozinhar, servir chá, fritar hambúrguer, banco imobiliário, isso não é adultização da infância, não? Coisa chata! Tudo eu, tudo eu!
(Voltam a andar)
ALESSANDRA: Você quer dizer que, se a nossa sociedade está erotizando nossas meninas precocemente, isso não é culpa do sutiã?
SUTIÃ: É! É isso mesmo que eu quero dizer. (segue) É normal as crianças quererem imitar os adultos, brincar de “gente grande”, vestir roupas da mãe, usar maquiagem, espuma de barbear, celular, dançar na boquinha da garrafa, é natural! Até os macacos fazem isso.
ALESSANDRA: O que você acha de quem diz que o momento mais feliz do dia é quando chega em casa e tira o sutiã?
SUTIÃ: Me magoa, mas respeito.
ALESSANDRA: Uma cena inesquecível?
SUTIÃ: Anita Ekberg esplendorosa na Fontana di Trevi em La Dolce Vita.  Um trabalho competentíssimo do meu amigo corselet.
ALESSANDRA: Se não fosse sutiã você seria?
SUTIÃ: Um farol.
ALESSANDRA: Conversamos hoje com o SUTIÃ! Gostaria de acrescentar mais alguma coisa, meu querido?
SUTIÃ: Sim. Pra provar que eu também te admiro e à sua família eu gostaria de terminar recitando um poema da sua mãe.
ALESSANDRA: Poema da minha mãe? (entredentes) Olha, que galante…
(Bate uma brisa)
SUTIÃ: (recita) “Toda noite a mulher regressa/ da cruzada/ e liberta sua santa carne./ Descem as alças pelos ombros/ as mãos se encontram nas costas/ soltando amarras/ e na quietude do quarto/ os peitos/ como navios/ fazem-se ao largo”. Quer dizer… nem tão ao largo assim… (espicha o olho) Belos seios, Alessandra.
ALESSANDRA: Conversamos hoje com o SUTIÃ! Na próxima semana iremos conversar com a VASSOURA.

Alessandra Colasanti é escritora, roteirista, dramaturga e atriz, e a cada 15 dias entrevista, para Hysteria, um bem de consumo referente ao que o senso comum encara como “universo feminino”

1 Comentários

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Uma resposta para “Entrevista com o Produto | Sutiã”

  1. Mariana Stolze Custódio disse:

    Maravilhoso texto!

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