Entrevista com o Produto | Vassoura

Alessandra Colasanti conversa com um mito presente em 99% dos domicílios do planeta Terra

15.08.2018  |  Por: Alessandra Colasanti

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Entrevista com o Produto | Vassoura

ALESSANDRA: Olá, eu sou Alessandra Colasanti e esse é mais um ENTREVISTA COM O PRODUTO. (Música. Acorde majestoso.) Ela está presente em 99% dos domicílios do planeta Terra. Ela é super conhecida, super querida e super seguida! Ela tem mais seguidores do que a Bruna Marquezine e o Neymar juntos! Ela é cheia dos mistérios, a rainha das mandingas e manda muito na faxina! Foi difícil, mas chegou o dia! É hoje! Eu não acredito que eu tô aqui cara a cara com esse mito. Senhoras e senhores, apenas, palmas. Com vocês, a VASSOURA!
(Palmas)
ALESSANDRA: Oi, Vassoura! É uma honra ter você aqui! Eu preciso dizer que eu tava super ansiosa por essa entrevista.
(Vassoura sorri com charme indecifrável)
ALESSANDRA: Pra quem não sabe, a Vassoura tava agendada pra bater esse papo aqui com a gente na semana passada, mas na última hora teve um probleminha e, infelizmente, não pode vir. Afinal, o quê que aconteceu?
VASSOURA: Bicho… (suspira) Enfim, pintou uma festa e… cara…  eu não sei dizer não para festas.
ALESSANDRA: Não seja por isso! Quer beber alguma coisa? Água, refri, drinks?
VASSOURA: Drinks.
ALESSANDRA: Alguma preferência?
VASSOURA: Hum… Whisky Sour. Tem?
ALESSANDRA: Com certeza! (chama) Coqueteleira!
(Coqueteleira toda coquete acena)
ALESSANDRA: Um Whisky Sour aqui pra Vassoura, faz favor.
COQUETELEIRA: É para já, chefinha!
ALESSANDRA: Um não, aproveita e traz dois.
(Vassoura pisca para alguém na plateia)
ALESSANDRA: Vassoura, conta pra gente, é verdade que quando varre o pé a pessoa não casa?
(Coqueteleira traz os drinks. Vassoura vira. Alessandra idem.)
VASSOURA: O quê que você perguntou?
ALESSANDRA: É verdade que quando você varre o pé da pessoa, a pessoa não consegue mais se casar?
VASSOURA: Eu acho que as pessoas deveriam era me agradecer. Maniazinha mais chatinha essa de casar, né não? Coisinha mais século XIX. Já foi, né? Acho chato.
ALESSANDRA: Você já foi casada?
VASSOURA: Casar seria o fim da minha aura de mistério. (franca) Amor, eu fui feita pra passar de mão em mão, de dia sou de quem eu quero e à noite ninguém me segura, eu voo longe.
ALESSANDRA: Então é verdade mesmo, você voa?
VASSOURA: Achou que era folclore?
ALESSANDRA: Dizem que na Europa as casas são mais sujas porque lá o mercado de empregados domésticos é menor do que o brasileiro. É verdade isso? Se sim, não basta ter uma vassoura em casa? É preciso um profissional para manuseá-la?
VASSOURA: Vassouras só varrem sozinhas nos filmes de Walt Disney.
ALESSANDRA: A grande imprensa não divulga, mas dezenas de navios lotados de vassouras provenientes do Oriente têm desembarcado diariamente no Brasil. Você tem conhecimento desse fato?
VASSOURA: Sim, tô sabendo.
ALESSANDRA: E qual a sua opinião?
VASSOURA: Só me cabe acolher, sabe, Alessandra? Imagina o que elas passam. Eu tento não me conectar com mazelas, mas é tudo muito triste, elas vêm aos montes, em navios sem condições de higiene, ventilação… Pior que isso, só vassouras menores de idade sendo vendidas nas beiras das estradas.
ALESSANDRA: Como você vê o espanador?
VASSOURA: Como uma vassoura sem cabo.
ALESSANDRA: E o aspirador?
VASSOURA: Um paquiderme. Quando surgiu o aspirador, os fatalistas de plantão disseram que a vassoura estava com os dias contados. Quantas pessoas você conhece que têm aspirador em casa, Alessandra?
ALESSANDRA: Não muitas.
VASSOURA: Pois é.
ALESSANDRA: O que você mais gosta de fazer?
VASSOURA: Farra.
ALESSANDRA: Quem olha assim, acha que você preza pela organização, não?
VASSOURA: Sou um utensílio de mil faces. Vivo ao sabor dos ventos, nada me detém.
ALESSANDRA: Dançar com a vassoura é sinônimo de segurar vela, por quê? Vassoura não conta?
VASSOURA: Vassouras são excelentes dançarinas, o resto é intriga do senso comum.
ALESSANDRA () : “Diga aonde você vai que eu vou varrendo. Vou varrendo, vou varrendo, vou varrendo, vou varrendo”, o que você tem a dizer sobre isso?
VASSOURA: Bons tempos, os anos 90. O Anderson do Molejão, enfim, fez essa música pra mim, a gente se conheceu numa roda de pagode, ele me viu dançando e, óbvio, ficou louco comigo. (se enche de si) Ah, minha filha, porque quando eu danço, eu levanto a poeira mesmo! Hahaha! Quero nem saber!
ALESSANDRA: Anderson, que você diz, é o Anderson Leonardo da Banda Molejo, confere? Vocês namoraram?
VASSOURA: É, a gente se conheceu.
ALESSANDRA: E o que você achou dos novos dentes dele?
VASSOURA: Sinceramente? Preferia o sorriso antigo. Aqueles dentes tortos é que me conquistaram, era uma marca do artista que ele é. Agora tá aí, com essa boca padrão, o famoso “sorrisinho Instagram”.
ALESSANDRA: É galera, quem nunca viu, vale a pena dar um check na Internet! (cúmplice) Agora vem cá, Vassoura, é verdade que a reforma do sorriso do Anderson custou mais de 100 mil reais?
VASSOURA: Ah, amor, não sei, nem quero saber. Sinceramente?
ALESSANDRA: E você? Como você faz para manter as suas cerdas assim, sempre impecáveis através dos tempos?
VASSOURA: No meu caso é fácil, pois eu sou a matriz, né? A primeira Vassoura entre todas as vassouras, por isso eu sou perfeita. As que vieram depois de mim já sentem a ação do tempo, mas eu não.
ALESSANDRA: E você se sente superior por causa disso?
VASSOURA: Olha, eu sou ideal, mas, assim como você, vim com ego embutido de fábrica, então confesso que muitas vezes eu me acho sim! Me acho bonita! Me acho gostosa! Tô nem aí pro que as pessoas falam! (muda o tom) Mas tem hora que é duro, viu? A vida eterna não é bolinho, não. Não é fácil ser uma Vassoura Highlander.
ALESSANDRA: Nossa, você deve ter visto muita coisa!
VASSOURA: Ah! Eu vi, vi muita coisa, vi coisa até demais. Vi o Cavalo de Tróia vir abaixo, o Titanic afundar, a Queda da Bastilha e vi coisas chocantes nos porões da ditadura que prefiro não comentar.
ALESSANDRA: Cite uma lembrança boa.
VASSOURA: Quando o Mar Vermelho se abriu. Dizem que Moisés segurava um cajado, mas era mesmo uma vassoura. Tenho muito orgulho desse dia, foi um belo trabalho de equipe.
ALESSANDRA: Em 1810, com a Revolução Industrial, surgiu a máquina de fazer vassouras. E antes da Era da Reprodutibilidade Técnica, como era a vida?
VASSOURA: Mais criativa. Tinha vassoura de palha, de erva, de milho, de coqueiro, de graveto, de tudo! Era tudo artesanal, era bem mais emocionante. A gente tinha assinatura, sabe? Nenhuma vassoura varria igual a outra.
ALESSANDRA: E como você vê a forma como a Vassoura é retratada pela História?
VASSOURA: Boa pergunta. Na verdade a Vassoura é mais antiga que a própria História. Depois do fogo e da roda, veio o quê? A vassoura! Antes mesmo da escrita! Mas ninguém sabe disso, ninguém fala sobre isso, isso não aparece nos livros, nem no YouTube! A história das vassouras foi apagada totalmente.
ALESSANDRA: E por que você acha que isso aconteceu?
VASSOURA: Adivinha? Porque a história foi escrita principalmente por homens. E segundo eles, depois do fogo e da roda veio o quê?
ALESSANDRA: O quê?
VASSOURA: O tacape! Ou seja, uma falácia! Colocaram o tacape na origem de tudo! Não me surpreende que a história oficial seja a história das guerras. Um absurdo!
ALESSANDRA: A vassoura tem papel de destaque na crendice popular.  É verdade que pra atrair felicidade basta varrer a casa de fora pra dentro às segundas, quartas e sextas e que pra eliminar o mal é preciso varrer a casa de dentro pra fora às terças e quintas? De onde vem essa fama de bruxa?
VASSOURA: A vassoura possui de fato um poder sem limites, mas isso tem sido usado contra nós. Milhares de vassouras morreram nas fogueiras da Inquisição injustamente, foi uma época de trevas, eu perdi muitas amigas, muitas vassouras guerreiras, cujo único “defeito” era ser livre.
ALESSANDRA: Sexualmente falando?
VASSOURA: Especialmente.
ALESSANDRA: By the way, e o Jânio Quadros? É verdade que vocês tiveram um caso?
VASSOURA: Eu conheci Janinho num piano bar em Copacabana na década de 50, inicialmente não me interessei, mas ele insistiu tanto… Eu tava sem nada pra fazer, acabei dormindo com ele. Ele, óbvio, queria mais, mas pra mim era uma transa de uma noite só. Ele nunca se recuperou.
ALESSANDRA: É verdade que o jingle da campanha para presidência de 1960, “Varre, varre vassourinha”,  foi em sua homenagem? Tem gente que diz que foi estratégia de marketing, afinal, você é super popular e Jânio acabou sendo eleito.
VASSOURA: De fato, o nome da vassoura tem poder. Aproveito pra deixar aqui o meu beijo pro Janinho, esteja ele onde estiver. Que descanse em paz.
ALESSANDRA: Piaçava, pelo ou plástico?
VASSOURA: Pet. Eu sei! Vassoura de garrafa pet é uma coisa super anos 2000, mas adoro! Os anos 2000 estão voltando com tudo agora!
ALESSANDRA () : “Igreja vende por 1 mil reais vassouras ungidas que prometem varrer o  mal”, o que você acha disso?
VASSOURA: Um engodo, estou, inclusive, processando.
ALESSANDRA: Já se escondeu atrás da porta de cabeça pra baixo para espantar uma visita indesejada?
VASSOURA: Com certeza.
ALESSANDRA: Varrer ou voar?
VASSOURA: Varrer é também uma forma de voar. Tudo depende da perspectiva.
ALESSANDRA: Como vocês podem ver, vassoura também é filosofia! Quero te agradecer, querida. Super obrigada pela entrevista!
VASSOURA: Imagina, Alessandra, foi um prazer. Se um dia quiser dar um volta comigo, já tem meu WhatsApp.
(Vassoura levanta voo e desaparece no ar, deixando todos fascinados)
ALESSANDRA: Senhoras e senhores, apenas, palmas.

 

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