Equidade salarial no palco do SXSW 2019

Os inovadores estão acenando: remunerar homens e mulheres de forma igualitária é melhor para as empresas e para o PIB. Só falta convencer o mundo disso, refletem nossas enviadas especiais ao festival americano

15.03.2019  |  Por: Carolina Albuquerque Natália Carvalho

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Equidade salarial no palco do SXSW 2019

Lydianne Carney | Piscina

Precisaremos de pelo menos mais 217 anos para resolver a disparidade nas remunerações entre os gêneros. A informação foi dada esta semana na palestra Men’s Role in Gender Equality at Work, depois de uma apuração do Fórum Econômico Mundial. Um dos motivos desse número assustador com três dígitos pula na nossa frente no painel #TimesUp para Equidade Salarial. Membros do governo e de ONGs afirmaram que um em cada três americanos não acredita que este problema exista de verdade. E eles garantem que esse pensamento está presente também em outros países. Se o problema “não existe”, fica difícil acionar as  lideranças das empresas para que encarem a situação.

Pra quem acha que a disparidade salarial ficou no século XX ou faz parte de um delírio feminista, uma pesquisa da McKinsey & Company apresentada na palestra desenha: a cada 100 homens promovidos a um cargo gerencial em 2018, apenas 79 mulheres chegaram à mesma conquista. Um a cada cinco cargos de liderança é ocupado por uma mulher, e apenas um a cada 25 é ocupado por uma mulher negra.

As notícias não parecem animadoras, mas é preciso frisar que os criativos inovadores estão de olho na questão e isso é bom, é um começo e é o que temos pra hoje. A disparidade de salários entre homens e mulheres foi foco de discussões em diversos painéis este ano no festival South by SouthWest (SWSW), em Austin, no Texas. De pesquisadores a executivos, de políticos a militares, teve muito debate sobre os caminhos que podem nos conduzir à solução desse problema – de preferência em menos de dois séculos.  

E sabe o que pode ajudar a mudar este cenário? Dados, claro. E o melhor deles é o que fala com o bolso das empresas: embora as mulheres ainda ganhem menos que os homens na mesma posição, a força de trabalho feminina é mais rentável para as corporações. Segundo pesquisa da Hive, uma plataforma de produtividade, as mulheres trabalham 10% a mais do que os homens nos escritórios de hoje. Sabemos que a vontade é tacar logo a #AGenteSempreSoube, mas vamos ficar nos dados que podem nos levar além. Homens e mulheres completam cerca de 66% de seu trabalho, no entanto, as mulheres recebem 10% mais trabalho do que os homens hoje.

O #SXSW é um festival com DNA progressista e as palestras e painéis buscaram apontar referenciais e caminhos para inspirar organizações e países a mudar esse cenário. Por isso apresentar a conta é uma forma de sublinhar o que acontece nos escritórios mundo afora e todo mundo (finge que) não vê.

E sabe onde não é assim? No Exército americano. Não que o modus operandi das Forças Armadas seja maravilhoso, mas o Departamento de Defesa Norte Americano é taxativo quando diz: o que falta é transparência nas organizações. Pois é. Na carreira militar é tudo translúcido. Há um sistema de treinamento único, os salários são totalmente abertos, há planos de carreira bem estruturados e as promoções são planejadas e ao alcance de todos, homens e mulheres. Então, sim, se a organização militar pode nos ensinar alguma coisa, essa coisa é equalizar os holerites.

É preciso ficar claro que todo mundo tem a ganhar com a equidade salarial

Vimos por aqui que os EUA estão se mexendo nesse sentido. A Constituição já prevê ferramentas para estimular a equidade. A advogada Charlotte A. Burrows foi indicada pelo presidente Barack Obama e atua desde 2015 como Comissária da Comissão de Oportunidades Iguais de Emprego dos EUA (EEOC). Ali, ela defende a aplicação federal das leis trabalhistas com base no pagamento justo, nas iniciativas para combater o assédio e a retaliação e promover a diversidade no emprego – incluindo o policiamento e o setor de tecnologia.

Essas e outras lições do #SXSW se mostram valiosas para repensarmos a corrida em busca da equidade no Brasil.

Ficou claro que é preciso pressionar os órgãos políticos para que ferramentas de fiscalização sejam criadas. Além, é claro, de programas de comunicação que reforcem a necessidade da equidade salarial. Do lado de dentro do escritório é preciso exigir processos mais transparentes de salários, capacitação e planos de carreira. Quando há critérios claros de meritocracia fica mais difícil alimentar a disparidade salarial. E, a mais combativa de todas: quando você for uma liderança feminina, foque na implementação de processos e projetos referentes à equidade e que garantam mais visibilidade para as profissionais que estão no seu time.

A gente sabe que o problema não tem uma solução rápida, mas 200 anos também é um pouco demais. Pode parecer que não, mas iniciativas individuais podem sim ter impacto sistêmico. É importante agir agora em prol de um legado para as futuras gerações. E é preciso ficar claro que todo mundo tem a ganhar com a equidade salarial. Não somos nós que estamos dizendo, é o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID): se tivermos um cenário em que homens e mulheres ganham salários iguais, o PIB da América Latina pode aumentar em até 18%. Estamos esperando o que, gente?   

Se você enxerga algum outro caminho para somar, aponta aí nos comentários. Estamos super dispostas a expandir essa discussão aqui na Hysteria.

Leia o relatório completo da McKinsey, apresentado no SXSW: https://womenintheworkplace.com/

 

Carolina Albuquerque é diretora criativa da Hysteria

Natália Carvalho é coordenadora de projetos de social content e novos formatos da Conspiração

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