Escrita matinal: exercício diário da palavra como guia

Como o ritual das 'morning pages' pode ser a chave não só para o desbloqueio criativo, mas para doses de autoconhecimento

13.10.2020  |  Por: Daniele Moraes

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Escrita matinal: exercício diário da palavra como guia

Todos os dias de manhã, antes de mais nada, escrever três páginas à mão. Sobre qualquer assunto, sem censura, sem edição. Tomar tudo, de guti-guti, num gole só. O resultado? Doses de autoconhecimento, desbloqueio criativo e insights surpreendentes. Há mais de duas décadas, essa é a promessa da escritora americana Julia Cameron, autora do best-seller O Caminho do Artista – que já vendeu mais de cinco milhões de exemplares em todo o mundo.

Durante a pandemia, resolvi experimentar e mergulhar numa pesquisa sobre essa prática simples, e poderosa, conhecida como escrita matinal ou morning pages. Ela funciona como uma espécie de guia para nossos passos, processos e decisões – tendo como ponto de partida a criação preliminar de um silêncio interior para que possamos encontrar a nossa própria voz.

Minha primeira e divertida missão foi comprar um caderno bem bonito. Um daqueles que a gente fica até com dó de usar. Separei também umas canetas coloridas, porque, como disse, a prática é manual. Assim, encontrei a melhor das desculpas para precisar muito de visitas a papelarias – uma antiga paixão. E aqui vale lembrar que meus primeiros passos nessa experimentação começaram naquele tempo em que fazer compras incluía passar um bom tempo dentro de uma loja de lindas inutilidades, descobrindo necessidades que não existiam. Enfim, o puro impulso de aquisição de penduricalhos que, na verdade, não importam muito. É como aquele tênis bacana para fazer atividade física ou um fone sem fio ou ainda um tapetinho de ioga inspirador. Tudo aquilo que só serve se a gente sentar pra escrever, der o primeiro passo e correr ou caprichar nas asanas (posturas).

Alerto que a dinâmica dessa atividade é viva, como é vivo o nosso pulso interno. Isso significa que há dias de muita fluidez e desejo de deitar as palavras naquelas benditas três (inegociáveis, ao menos com a Julia) páginas. Por outro lado, há momentos em que cumprir esse exercício traz uma sensação de superação de uma jornada épica (contém exagero). O fato é que passadas as primeiras semanas nessa bipolaridade mais intensa, encontrei um eixo, um ponto de equilíbrio.

Acredito que isso aconteceu, justamente, porque a escrita matinal abriu um espaço muito rico em mim, criando um lugar de pertencimento para todos aqueles pensamentos que disputam a nossa mente, desde o instante em que abrimos os olhos – e às vezes até antes de despertarmos.

Naturalmente, esse exercício se transformou num ritual de autocuidado e numa espécie de meditação ativa – aprofundando minhas investigações pessoais, proporcionando alívio da incalculável carga mental (thank you, Julia!) e uma sensação de bem-estar, além da possibilidade de expansão de certa consciência coletiva, que, nem preciso dizer, é tão mais acessível para nós, mulheres.

As páginas matinais despertaram de mansinho a minha potência criativa, tanto que estou aqui, escrevendo como quem respira

Acontece que, ao contrário do que pode parecer, esse exercício diário não me levou à introspecção. Na verdade, foi um grande convite à ação. A expressão diária do gesto da escrita, do registro de pensamentos livres, descompromissados, da reflexão sem propósito ou fim, tudo isso suscitou descobertas e determinadas transformações se tornaram inadiáveis.

Vi, por exemplo, minha relação com as palavras renascer. Foi por conta desse processo que eu me reconectei com a escritora que, no fundo, sempre viveu em mim, mas estava adormecida, bloqueada. No final das contas, entre sussurros, as páginas matinais despertaram de mansinho a minha potência criativa, tanto que estou aqui, escrevendo como quem respira.

Posso dizer que me trouxe uma sensação de salvação? Sim, sinto que é parecido com mergulhar com um cilindro de oxigênio bem abastecido. Ainda que entre hiatos e dias de caos, em que imperativos atropelam as morning pages, voltar cotidianamente a escrever é a minha principal recompensa. A persistência de retornar ao caderno, mais do que a cobrança por não falhar, é o meu mais novo prazer. Sem contar, claro, a enxurrada de pequenas grandes descobertas que se apresentam e não param de dar as caras a mim.

Agora a cereja do bolo. Não. A farofinha do sorvete, a casquinha do crème brûlée dessa história toda foi a relação intrínseca revelada entre a criatividade desperta, que vibra em gestos e traços desenhados por letras, e a potência do meu feminino. Afinal, que revolução pessoal não passa por intuição, ampliação de repertório afetivo, criação de intimidade com o corpo e reconhecimento da sabedoria da natureza cíclica, fértil e potente?

Para começar, você não precisa de quase nada, nem mesmo do livro inspirador (embora eu recomende com entusiasmo). Para começar, você só precisa de três folhas, uma caneta e vontade. Ah, um tanto de silêncio também ajuda! É que, cá entre nós, é mais fácil a gente ouvir nossa voz interior, se silenciarmos os ruídos de fora.

Dar-se a si. Dedicar míseros 30 minutos do dia, não mais que isso, a um momento íntimo, a fazer descobertas profundas, achar respostas há muito esperadas e, tantas vezes, experimentar a sensação de “como não pensei nisso antes”. É como acessar o inconsciente, fazer um login no aplicativo da nossa intuição e utilizar a senha mais inusitada: tudo o que vier à cabeça – dos afazeres diários e listas de “tenho que” até lembranças remotas, dores e delícias de viver.

Nunca foi tão importante cultivar a capacidade de presença, de aterramento e de viver um dia de cada vez. Ao adotar a escrita matinal e dedicar alguns minutos a conversar com a minha consciência, como quem escova os dentes ou molha as plantas diariamente, pude encontrar novas ideias, projetos e desejos de experimentações. No lugar do “tudo pode” dessas páginas, podemos semear o desvelar de sonhos e vocações, tateando o caminho para o melhor dos encontros: com as nossas crianças interiores – artistas, livres, ousadas. Que tal rabiscar num caderno seus próprios atalhos?

 

Daniele Moraes é jornalista, escritora e mãe de duas. Oferece cursos e mentorias sobre escrita, é apaixonada pela palavra – substantivo feminino de criação e potência – e deixa seus registros e causos no Instagram @danielemoraes e no site danielemoraes.com.br  

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