Eu compro maconha na farmácia

Jornalista moradora de Seattle, nos EUA, conta como é a rotina num estado onde a erva foi legalizada: 'No meu dia de folga analiso as promoções na lousa e escolho um beque chamado Brazil Amazonia. O pré-bolado custa US$ 5. Na sequência vou buscar meu filho na escola'

06.08.2018  |  Por: Thais Oliveira

image
Eu compro maconha na farmácia

Lembro com detalhes a primeira vez que entrei num dispensário de cannabis em Seattle, lá pelas bandas de 2010. Foi como entrar na Kopenhagen, na fábrica da Estrela ou no mundo do Willie Wonka – sim, sou produto dos anos 80. Os aromas de planta, a sensação de estar fazendo algo mágico, a excitação da quebra de tabu, a ansiedade em fumar algo específico para as minhas necessidades, sem a culpa que vem da guerra do tráfico, do sangue e da amônia que estão misturados com a maconha ilegal.

Só que, em 2010, as farmácias ainda eram farmácias mesmo. Era preciso uma carteirinha provando que você precisava da cannabis como remédio para algum sintoma físico ou mental. Pra isso era preciso passar por um médico credenciado que te avaliava e aprovava ou não a sua carteirinha. Eu nunca tive essa carteirinha por pura paranoia. Como residente permanente nos EUA, fiquei com medo de “sujar” meu currículo e o Tio Sam usar esse cadastro para não renovar meu visto ou não me conceder a cidadania quando chegasse o momento.

Mas o Chris, maridão cidadão, não perdeu tempo e usou o seu real problema nas costas pra poder se medicar. E eu não perdia esse passeio na farmácia, claro. Nessa época, elas tinham uma espécie de antessala, uma recepção. Tinha o cardápio escrito numa lousa gigante, uma atendente checando as identidades (é preciso ser maior de 21 anos, como nos bares daqui) e organizando a fila de espera. Apenas os que tinham a carteira médica podiam entrar e conversar com o budtender (<3), escolher o tipo de flor, comprar e sair de lá sorrindo.

Eu ficava esperando ansiosa, folheando alguma revista específica do setor (e são várias!), sentindo aquele cheirinho delicioso de erva e sonhando com o momento de chegar em casa e experimentar a escolha da semana – o problema nas costas era dele, mas… quem não tem dor nas costas, não é mesmo? Eu também fumava. Aproveitava também pra tentar entender a diferença entre sativa, indica ou híbridos. E pra rir dos nomes de cada produto.

Hoje em dia, aqui no estado de Washington, essa carteirinha virou um documento vintage e já não tem mais antessala. Legalizou geral. As únicas restrições são ser maior de 21 e pagar em dinheiro. Isso porque os bancos são um sistema federal e a maconha é legalizada por Estado. Sim: saiu da criminalidade e entrou na burocracia. Mas veja: todos os dispensários possuem um mini-caixa eletrônico, porque americano não é bobo principalmente quando se trata de negócios e não perde uma oportunidade de venda. Ah, sim, tem um detalhe: os produtos não podem ser visíveis do lado de fora, então os vidros são fumês ou as janelas e portas fechadas.

Ontem fazia um lindo dia, eu estava de folga e resolvi dar uma passada na minha farmácia favorita, a Reefer Den, uma antiga casa convertida, bem no meio da zona de comércio da cidade. Entrei, senti aquele cheiro delicioso de floresta da alegria, esperei minha vez na fila enquanto já ia olhando os vários anúncios em lousa com os descontos do dia (sim: business!), beques pré-enrolados, dabs, haxixe, canetas com óleo, bongs, sedas e outros produtos em prateleiras, araras e móveis de vidro.

A senhorinha na minha frente comprou um vidrinho de conta-gotas de CBD, bem estilo Rinosoro. O CBD é o princípio médico da maconha. É bom pra dores musculares, efeitos colaterais de tratamento do câncer, estresse e cansaço, entre outros. Chapa o corpo, mas não a mente. Está sendo usado no lugar de ibuprofeno e relaxantes musculares.

Quando chegou a minha vez, falei com a budtender como falo com o farmacêutico da Droga Raia. “Hoje é meu dia de folga e quero algo que me dê energia, que seja uplifting, me faça rir e que não me deixe super-chapada, porque afinal tenho que pegar meu filho na escola em duas horas”, eu disse. Ela não tinha a minha favorita pra esses momentos, a Ladi Dodi. E eu não queria gastar muito dinheiro (um grama custa entre US$ 10 e US$ 15). Optei por provar a Brazil Amazonia, por motivos óbvios de: nostalgia. O pré-enrolado de um grama custou US$ 5. Vejam: os pré-bolados são feitos com os restos da flor, o chamado shake, e por isso são mais baratos. A bula no tubinho me avisa que não pode fumar grávida, que causa dependência e também me dá os números indicadores de THC, CBDA, THCA e CBD.

Sai de lá feliz com a minha escolha, sabendo da procedência da minha maconha e seus efeitos colaterais. E também ciente das consequências que o uso excessivo pode causar, tal como o cigarro e o álcool. Enfim, com a liberdade vêm as consequências e a responsabilidade. Mas deixa isso pra outro papo, né?

Thais Oliveira largou o jornalismo para rodar o mundo. Depois voltou, criou o Clandestino, um dos primeiros food trucks brasileiros, e foi rodar o mundo novamente. Hoje comanda o Barbarian Fine Cuisine e mora num trailer à beira de um lindo jardim em Port Townsend, EUA, com o filho e o companheiro

 

0 Comentários

Comentar

Deixe uma resposta