Eu sou a gorda do Tinder

Quer dizer, eu fui. Porque depois de receber mensagens como 'Eu até sairia com você, mas tem que ser escondido', resolvi dar um tempo. Ser gordo não significa ser idiota, não é mesmo?

30.10.2017  |  Por: Jéssica Balbino

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Eu sou a gorda do Tinder

Foto: Alile Dara Onawale / Coletivo Piscina

Eu sou mulher, sou formada em Jornalismo, tenho mestrado na área de comunicação, amo ler e trabalho bastante. Já ganhei alguns prêmios na profissão. Gosto de sair, de viajar, de beber e de me divertir com as amigas. Também amo cozinhar. Gosto de plantas e de crianças e sou viciada em café. Já plantei uma árvore, dirigi um documentário e escrevi dois livros. Uso roupas que estão na moda, mas tem um porém: eu não visto 38. E aí começa o problema.

Quando chega nessa parte, parece que nada mais do que eu sou importa. Entrei e saí do Tinder algumas vezes. Aconteceram alguns matches e foram eles que me fizeram abandonar o aplicativo por tempo indeterminado. A importância do corpo se sobrepõe a todo o resto de forma brutal. E vejam, eu nunca escondi nada, mas as perguntas que recebi falam por si só: “Mas você é gorda quanto?”, “Tem foto de corpo todo?”, “Eu até sairia com você, mas tem que ser escondido, o.k.?”, “Você é bonita de rosto, faz sexo oral?”, “Adoraria receber sexo oral seu”, “É verdade que as gordinhas são mais fogosas na cama?”.

E quem dera essas fossem questões exclusivas dos usuários do Tinder. Elas ocorrem também no happn, no OKCupid, no Lovoo, nas antigas salas de bate-papo, no ICQ, no Messenger, no WhatsApp, no Telegram…

Na verdade, são indagações da sociedade como um todo, que me fizeram descobrir aos 4 anos que eu era gorda e “por isso” não me encaixava na brincadeira. Desde lá o mundo insiste em me dizer que eu só posso existir se for escondido, que eu só posso sair com alguém se for para dar prazer – e que isso ainda seria um favor pra mim. Afinal, sou a palavra que não deve ser dita: GORDA!

Ser gorda no Tinder é levar todo o peso da vida para o universo virtual. É mais ou menos como ser gorda no Facebook, onde recebo enxurradas de mensagens de haters. Na cabeça deles é impossível uma mulher ser gorda, feliz e viver a própria vida sem ser em função de perder peso e se adequar aos padrões. Isso é tão impossível para essas pessoas que até picharam meu muro com a mensagem: “Jéssica Gorda.” Sim. É sério. Haters saem das telas e ganham as ruas para proferir a palavra que jamais foi positiva: GORDA.

E ser gorda na vida é bem isso: é ter a existência exposta por causa da sua forma física. E ter que lidar com o fato de que, para alguns, nada mais importa. Qual sua cor preferida? Qual seu signo? Vestido ou calça jeans? Comida com ou sem pimenta? Filme de terror ou comédia romântica? Se você não vestir 38, nada disso importa. Você vai ser sempre a gorda do Tinder: apagada, silenciada, que presta favores e não serve para desfilar publicamente.

Sim, sou gorda no Tinder, sou gorda no muro que mantenho pichado, nas lojas nas quais entro para comprar roupas, no mercado de trabalho, na academia, no trânsito e na vida que já dura 32 anos. E vou seguir sendo gorda, porque não penso em perder peso só para me adequar. Mas você pode ter certeza: sou um monte de outras coisas também.  

Jéssica Balbino é o tipo de mulher elétrica, que mistura jornalismo, produção cultural e literatura com pimenta, cafeína, fósforo e gasolina

7 Comentários

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7 respostas para “Eu sou a gorda do Tinder”

  1. Carol Zavatini disse:

    Eline, eu tenho o mesmo corpo que você. Com um plus, meu seios são pequenos e horríveis e minha barriga é enorme. Tenho coxas assadas. Tenho espinhas na bunda. Tenho estrias vermelhas na barriga. Tenho pescoço e axilas escuras. Eu tb tenho q limpar atrás. eu tenho espinhas em toda minha cara. Não se sinta sozinha

  2. Eline Estudando disse:

    Desde a adolescência eu suportava o preconceito pois achava que quando fosse avultada tudo iria melhorar. Bem, cheguei aos 26 e 113kg e simplesmente desisto de me aceitar como sou, desisto de tentar estar bem comigo mesma Já vi todos os videos de autoestima, aceitação e etc da Alexandra Gurgel, Ju Romano, Jéssica, Camila Pires, Fred Elboni e etc. O meu problema não é a minha forma redonda, é como as pessoas me vêem. Estou cansada de ver no espelho varias e varias vezes tentando decidir se estou bonita ou não, tentando ver o meu melhor angulo, tentando aceitar os defeitos e procurando qualidades. Pelo amor de Deus, eu só queria ser um pouco bonita, eu só queria ser vista como uma mulher. Eu não aguento mais ser só notada pelos velhos tarados da rua. Eu quero poder instalar o Tinder sem precisar avisar que sou gorda ou ter que avisar antes de um encontro. Eu quero fazer sexo casual, não quero ter que esperar alguém estar apaixonado por mim ao ponto de relevar o que tenho de feio. Eu tenho um ódio dessas garotas que fazem tour pelo corpo. Sera que só eu tenho peitos caídos e tortos? Só eu tenho marcas vermelhas nos pneus da barriga? Sera que só eu tenho o pescoço, axilas e virilhas escuras? Só eu tenho acne entre as coxas que inflamam e viram bolhas? Só eu tenho espinhas na bunda? Sera que só eu não consigo transar de lado? Sera que só eu quando vou mijar tenho que limpar atrás tmbm?
    Como eu aceito um corpo desses?

  3. Mupy Nekokan disse:

    As gordas do Tinder são meu tipo favorito <3

    Quando eu tinha cabelo longo, muitas garotas do Tinder falavam: "Nossa, você parece mulher!", "Vai cortar esse cabelo!", "Por que você não corta? Vai ficar muito mais bonito!". Isso me deixava triste durante alguns segundos e depois eu pensava: Bom, pra que eu iria querer alguém assim na minha vida? Que importância essa pessoa tem/teria pra mim? E Após alguns apertares de botão, encontrava alguém que gostava de caras com o meu perfil.

    Enfim. O que eu quero dizer é que não faz bem se focar em alguém que não gosta do seu tipo físico. Focar a ponto de absorver um sentimento ruim. Uma hora você sempre encontra quem goste e são essas pessoas que realmente importa. (isso virou tão clichê, que as pessoas deixaram de compreender.)

    PS: Te acho gata, Jéssica.

  4. vlv rvlc disse:

    augusto, com todo respeito, mas esse seu blá blá blá evolucionista não faz sentido algum. até porque você mistura biologia com construções sociais e, claramente, mistura seus ressentimentos pessoais com a realidade. pode ser que a jessica enfrente uma situação dessas de extremo desrespeito diário porque homens desumanizam mulheres, simplesmente, e não conseguem enxergar para além da própria cegueira que só valoriza o padrão. não estou dizendo que homens fora do padrão tbém não tenham os seus lamentos, mas a realidade é muito mais difícil para mulheres nesse quesito, porque mulheres valorizam bom humor, charme, elegância, habilidades e várias outras coisas sim. se você olhar bem ao seu redor, verá muito mais homens fora do padrão com mulheres de todos os tipos do que o contrário. e não é por causa de dinheiro não. o mundo real é repleto de famílias monoparentais sendo sustentadas por mães solo, é repleto de mulheres enfrentando jornadas múltiplas de trabalho no lar e na rua e ainda sendo grandes provedoras familiares, mesmo quando casadas e tudo mais. temos uma realidade composta de mulheres guerreiras, mas homens como você tentam rotular as mulheres em geral de “interesseiras” para não precisarem olhar para dentro de si mesmos e perceberem que ás vezes vocês estejam sendo desagradáveis e desinteressantes e, por isso, não atraindo ninguém. ou porque estejam apenas almejando um padrão restrito e inalcançável ao invés de olharem para as mulheres que estão perto de vocês, cheias de qualidades que a cegueira de vocês não enxerga. a melhor idade dela não passou, porque todas serão as melhores, principalmente porque ela tem consciência de quem ela é e do valor que possui, mesmo vivendo em uma sociedade calcada em valores heteronormativos, machistas, gordofóbicos e que visam excluir e movimentar inseguranças e gerar consumo. caras como você não nos assustam mais.

    • Hysteria disse:

      Oi, vlv rvlc! Não permitimos comentários ofensivos por aqui e também não precisamos tolerar gordofobia mascarada de preocupação com a saúde. Por conta disso, o comentário do Augusto foi retirado, ok? Abraços!

  5. Julia disse:

    Flor, fiquei triste ao ler seu relato. Uma mulher claramente inteligente, interessante e bonita (sim, fui stalkear no google, sou curiosa, rs), mas que não está nos padrões, só isso. Aliás, acho que beleza é algo que todo mundo tem, mas não essa beleza com gosto de cloro e silicone que nos é imposta. E vou te dizer, o mesmo se aplica para quem veste 36, mas não tem cabelo liso, não tem corpão da moda, não tem a tatuagem bacanuda… não tem isso, não tem aquilo…É muito triste todo um universo interior ser desprezado por causa de um molde que extrapolamos. Que relações podem ser criadas a partir disso, sabe? Tenho questionado muito. Mesmo que eu seja a Gisele Bundchen, quero alguém que caga solenemente para quem eu SOU e só se importa como ESTOU? Pq corpo é transitoriedade pura: corpo engorda, emagrece, envelhece, fica flácido… Enfim, acredito que vivemos nas relações o reflexo de uma sociedade fútil, doente, hipócrita e desconsiderada em todos os níveis. Acredito, com força, que você seja bem mais que um rostinho bonito e um corpo delicioso de abraçar. Precisamos sair da Matrix e buscar aquel@s que estão na mesma sintonia, possuem os mesmos valores e estão buscando algo para além da simples aparência… Fora isso, fica a reflexão: o que essas pessoas do Tinder farão quando o prazo da beleza delas acabar? Beijocas ;*

    • bia varanis disse:

      Olá, Julia.

      Olha, você vai me desculpar, mas não, não é a mesma coisa para mulheres que vestem 36 e não tem cabelo liso ou essas coisas que você citou.

      A gordofobia é um problema ESTRUTURAL. A gordura já está ligada como algo ruim e nojento na cabeça das pessoas. Antes de qualquer coisa, elas vão reparar no nosso corpo. Agora, sim, opressão estética, todas as mulheres sofrem. Mas eu tenho certeza que muitas das mulheres 36 não vão sentir a mesma solidão que uma mulher gorda. E eu posso te garantir que até o desejo é um privilégio.

      Beijos.

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