Eu tive uma Barbie preta

O racismo é estrutural e impacta todas as esferas da sociedade, inclusive o desenvolvimento econômico. As demandas da população negra são tão deixadas para escanteio que é difícil até mesmo encontrar brinquedos de personagens superpopulares, como os heróis de 'Pantera Negra', para as crianças

29.11.2018  |  Por: Linda Marxs

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Eu tive uma Barbie preta

Rua 25 de março, Centro de São Paulo. Não importa a crise ou a situação econômica: é cheio, é barulhento, é um centro de compras populares onde é possível encontrar todo tipo de produto manufaturado no atacado, varejo e comércio nas ruas.

Naquele sábado eu tinha uma missão: encontrar um presente para meu sobrinho que tivesse como tema o Pantera Negra. Qualquer brinquedo que fosse barato, como uma fantasia, uma máscara ou um boneco.

Pantera Negra, de 2017, história do estúdio Marvel sobre o rei de Wakanda, foi considerado um dos filmes de heróis mais importantes de todos os tempos, e o nono filme mais visto da história do Brasil com dois milhões de espectadores, lucrando mais de R$ 150 milhões.

O filme foi mais que um lançamento cinematográfico, mas um ato simbólico da comunidade preta. Uma ação afirmativa conjunta em que pessoas se mobilizaram para ver o filme, afirmar e celebrar nossa negritude e nossos ancestrais através da cultura pop. Muitos eventos foram criados para levar crianças e adolescentes pretos ao cinema, porque é real a necessidade de criar imaginário e repertório racial positivo para crianças durante o desenvolvimento da personalidade e da autoestima.

E com esse espírito eu fui de loja em loja, barraca por barraca, naquele calor infernal, procurando um bonequinho, uma toalha, talvez fantasia ou carrinho, produtos comuns e acessíveis. E, para minha surpresa, não havia nada. Me enganei em pensar que seria difícil encontrar; simplesmente não havia.

O racismo é estrutural e impacta todas as esferas da sociedade, inclusive o desenvolvimento econômico. A concentração de renda e dos meios de produção faz com que as empresas essencialmente brancas não tomem decisões que incluam as demandas da população preta na sua produção. Se 1% dos dois milhões de pessoas que foram ao cinema quiserem comprar um simples caderno do Pantera Negra simplesmente não vão encontrar. Assim, o racismo impacta o varejo e a economia.

Será sempre tão árduo criar um ambiente de afirmação racial para crianças pretas?

Atualmente, através do fenômeno do afroempreendedorismo, encontramos produtos afro, de temática e estética preta produzida em pequena escala por empreendedores em todo o Brasil. Mesmo assim, para atender à demanda de consumo, o mercado de produtos afro deve se estender também à indústria e à manufatura. A falta de profissionais pretos proprietários e nas esferas de decisão das empresas manufatureiras faz com que não haja atendimento das necessidades básicas da população preta com brinquedos dos poucos personagens pretos que existem, estampas de roupa, design de produtos, artigos culturais, cosméticos etc.

E, para fechar o ciclo de desigualdade sócio-racial e segregação, se um pequeno empresário tenta usufruir das oportunidades do capitalismo e da globalização e importar produtos manufaturados no exterior – da China, por exemplo, como fazem os empresários da 25 de Março –, será arrasado por impostos, taxas bancárias e burocracias que dificultam o desenvolvimento do negócio, e esta é mais uma das tragédias brasileiras.

Fiquei pensando no impacto que o racismo na economia tem na autoestima do meu sobrinho. Será sempre tão árduo criar um ambiente de afirmação racial para crianças pretas? As escolhas pessoais, os padrões e as estruturas racistas persistem, e a democratização dos meios de produção se faz cada vez mais necessária e urgente.

Me fez lembrar quando, há 25 anos, meu pai tinha uma amiga de trabalho que tinha uma filha que era comissária de bordo, e eu tive a sorte de ser uma menina preta que teve uma Barbie preta. Fiquei pensando em como depois de pegar naquela caixa, com aquela boneca linda de pele bem escura e cabelos pretos, eu nunca mais fui a mesma. E o mundo também não.

1 Comentários

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Uma resposta para “Eu tive uma Barbie preta”

  1. Macabea Mantikara disse:

    Excelente artigo, eu tive poucas bonecas pq minha diversão era socar a cara dos meninos, mas minha mãe fazia bonecas pretas de meia para minhas irmãs!

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