Facetune também é cringe?

Na Noruega postar fotos com filtros irreais pode pagar bem, mas não pega bem

08.07.2021  |  Por: Mariana Caldas

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Facetune também é cringe?

Mais do que cringe, agora é ilegal publicar fotos retocadas ou com filtros irreais nas redes sociais da Noruega, sem mencionar quais mudanças foram feitas. A nova lei entrou em vigor no mês passado – apenas no caso dos conteúdos patrocinados – como uma tentativa de conter padrões estéticos impossíveis e irrealistas. “A pressão corporal está sempre presente, muitas vezes imperceptivelmente, e é muito difícil de combater”, afirmou o governo. A proibição reverberou no mundo como uma luz no fim deste túnel esquisito que virou o Instagram desde que nossos conhecidos começaram a postar selfies com toques de rinoplastia. 

No Brasil, desde que a pandemia começou os únicos lugares que não ficaram vazios foram as clínicas e os centros de procedimentos estéticos, e os números são tão impressionantes quanto preocupantes. Tantos meses vendo todos os detalhes do nosso rosto no call criou uma caixinha de pandora batizada de Efeito Zoom, que basicamente consiste na vontade de realizar retoques definitivos depois de tanto se ver na tela. Muitas mulheres, e homens também, aproveitaram o dinheiro não gasto com viagens para investir em pequenas ou grandes plásticas, e o isolamento social também deixou o pós-operatório mais discreto e possível. 

Autoestima é importante sim. Para tudo. Quando estamos nos sentindo bem tudo na nossa vida tem a possibilidade de fluir melhor. E fazer ou não fazer uma plástica ou um procedimento estético não deve ser um problema em si mesmo. Precisamos sim ter a liberdade de escolher as curvas e os caminhos dos nossos próprios corpos. Mas se demoramos tanto tempo lutando para sermos as donas do nosso destino, por que vamos, bem agora, escolher ser mais uma na multidão de bichectomias, preenchimentos labiais, rinoplastias, harmonizações faciais e lipo lads?

O que pode estar por trás de um desejo, que parece ser genuíno, de fazer uma mudança física no nosso corpo? Hoje, em pleno apocalipse, depois de mais de um ano atravessando um deserto sem miragens do paraíso, fico pensando que decidir fazer uma cirurgia plástica pode ser até uma necessidade de viver uma experiência em que podemos nos sentir no controle. No controle de qualquer coisa. Nessa realidade dissolvida que estamos navegando, totalmente à deriva, qualquer tipo de controle pode parecer extremamente estruturante e benéfico. Eu decido, eu me movimento, eu faço isso acontecer. Mas também pode ser pressa, tédio, medo, insegurança, trauma, luto, ansiedade.

Calma, respira

Melhor abrir o Facetune e postar uma fotinho no Insta. Risos e choros. Publicar uma foto com filtro é querer ser alguma coisa que não somos? Ou querer ser o que também somos? Ou querer ser o que achamos que deveríamos ser para o outro achar que somos alguma coisa? Socorro! Nada do que nós vivemos nos últimos tempos foi exatamente simples e haja autocompaixão para lidar com tudo e tanto. Ao mesmo tempo, por que sentimos que precisamos ser mais do que somos, sendo que nós somos um universo inteiro? O que tem por trás do nosso desejo de usar aquele filtro que deixa a gente bem bonita de pele porém com sardinhas?

Não acho que querer se sentir deusona na foto é um problema. Mas querer, de alguma forma, se padronizar pode ser sim. Às vezes tenho a sensação que, nessa grande viagem digital que virou a nossa vida, queremos a todo custo ser diferentes mas só se a gente puder ser completamente igual. 

Faz sentido. Fazer parte é importante. Mas o lado bom de fazer parte, de qualquer coisa, é poder compartilhar com o outro o que a gente tem e que é só nosso. E quando buscamos qualquer tipo de padrão como uma forma de se encaixar, e existir no mundo, nós podemos perder o que nos faz ser nós mesmos pelo caminho e nem perceber. Olhar para o que temos de único, com amor e atenção, também pode ser uma forma de retocar nossas cicatrizes, e até, quem sabe, curar aquelas feridas que, de tão profundas, lipoaspiração nenhuma alcança.

 

Mariana Caldas é diretora, fotógrafa e jornalista, seu trabalho autoral investiga e revela a natureza selvagem que vem de dentro.

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