Fast-food para o espírito: o BBB é o equivalente mental de pedir lanche todos os dias

O reality show deixou de ser um “sucesso de audiência a que ninguém assiste”, mas está numa fase mea culpa. Diante do fato de que as pessoas gostam do programa, o discurso mudou para legitimá-lo, em vez de reconhecer o tempo perdido sem o qual a gente não vive

04.05.2021  |  Por: Natália Alavarce

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Fast-food para o espírito: o BBB é o equivalente mental de pedir lanche todos os dias

“Mas McDonald’s também tem nutrientes!”, eles nunca disseram. A gente come fast food, apesar da culpa, porque é gostoso. Algo naquela mistura de farinha branca, glutamato monossódico e gordura hidrogenada mexe com o nosso coração. A gente come fast food, apesar da culpa, porque é fácil. É prático. Está sempre aberto e nunca é muito longe. E é barato, não tão barato quanto o cachorro-quente da tia do metrô, mas acessível. Ninguém defende o valor nutricional ou cultural de comer McDonald’s, ninguém se ofende se você disser que é inferior à comida feita em casa ou em um restaurante de verdade.

O BBB deixou para trás os dias em que era um “sucesso de audiência a que ninguém assiste”. Aquele curioso fenômeno do assunto que a galera evitava citar, mas que, uma vez que alguém quebrava o silêncio, a maioria estava por dentro, prontíssima para palpitar. Agora o pessoal saiu do armário, mas está numa fase mea culpa. Todo tipo de gente fala do BBB, até “gente inteligente”, mas quase sempre junto com alguma reflexão que me soa como ressalva: “Olha aqui como, diante de um homem abusivo, as pessoas escolhem punir a mulher!”. Ou mesmo: “Esse paredão é a metáfora perfeita do problema racial do país!”

Em termos de discussão política, o BBB é a versão televisiva dos comentários de notícias, só que sem as notícias, que, ao que parece, ninguém lê, então tanto faz — fora que pular a parte da reportagem otimiza o tempo de todo mundo. O BBB, nessas horas, é a caixa de comentários dos portais. Grandes pérolas de sabedoria, nos dois casos. Quando eu caio na cilada de clicar ali, termino me sentindo estúpida, como depois de um almoço excessivo de domingo em que você arruína a dieta da semana inteira por pratos que nem são os favoritos, eles apenas estavam ali na sua frente, disponíveis demais. O sentimento é adequado. Nem eu nem ninguém vai pras redes sociais defender “ler comentários de notícia também é interessante, tem muita discussão válida ali!”. Porque, convenhamos, se você realmente está interessado em discussão, não é exatamente o melhor lugar para frequentar.

Claro que dá para ter boas discussões sobre o BBB, dá para ter boas discussões sobre qualquer coisa. Se é pelo prazer do exercício da retórica, da réplica e da tréplica, queria ver o pessoal partir logo pro canal da Polishop. Desafio bem mais admirável: “Essa estampa de castelinhos no edredom é puro colonialismo!”. Pena que na Polishop não tem fofoca. Pena não, sorte. Imagina se os caras começam a incluir a conversinha de corredor de bastidores na edição, aquele monte de tralha venderia ainda mais e todas as esperanças de humanidade capitalista sustentável estariam perdidas, se já não estão, porque fofoca é algo saborosíssimo.

Existe um esforço progressista em legitimar o gosto popular, num combate ao elitismo paralelo à defesa do funk, por exemplo, que é louvável. Mas calma lá, o funk é do povo, feito pelo povo, para o povo. Por mais que as reações das pessoas influenciem a programação, a relação de poderes é desigual: o BBB é para o povo, mas feito por gente que mora bem longe do povo, para vender para o povo coisas que eles mesmos não compram.

A maluquice é que, diante do fato de que as pessoas gostam desse programa inútil e ruim, o discurso mudou para legitimar o BBB, numa onda “isso é um resumo da sociedade brasileira, está tudo aí!”, em vez de legitimar o inútil, o tempo perdido, o chafurdar na lama social e moral, sem o qual a gente não vive. Era pra ter sido um “eu não consigo ser produtivo nem crítico o tempo inteiro”, e saiu um “o BBB também tem conteúdo de qualidade, tá?”. E os últimos bastiões da resistência, na forma de amigos chatos que não tomavam parte, foram caindo, só sobrei eu.

O BBB, como distração noturna do cidadão, é o shopping center como passeio de fim de semana (lembra daquela época em que a gente passeava?). É mediocridade estética e narrativa, todo mundo sabe. É o merchandising saindo do cantinho pra dominar o cenário inteiro, minutos inteiros, é o participante emocionado gritando o nome da marca. Que faltem opções de lazer, como nos tantos bairros em que o shopping é mais perto que o parque com grama pra pisar, é triste. Que, mesmo com opções a poucos botões de distância, o BBB seja a escolha de lazer de cada vez mais gente, é no mínimo suspeito. Assistiu ao filme daquele cara que experimentou comer McDonald’s todos os dias? Não deu muito certo, não.

Percebo que parte do que estou fazendo aqui é “crítica social foda” sobre “crítica social foda” sobre o BBB. Ah, as delícias da ironia! Mas não me entenda mal, gostar de coisa inútil e ruim é um direito inalienável, e por isso mesmo podemos ser francos: o BBB é uma porcaria. Algum filósofo já investigou de onde vem o prazer da porcaria? Psicólogo, talvez? Perdi tempo demais da minha vida vendo coisa inútil e ruim na internet (como naquela tirinha dolorosamente profética do André Dahmer), por isso não sei. Acontece sempre, mas não deixo de combater. Não é assim que eu quero passar meu tempo finito e escasso nesse mundo.

Também não vim pregar o clichê “desligue a TV e vá ver um livro”. Problema nenhum com clichês, que fique claro. Como diria um velho amigo, clichês são verdades gastas, epifanias já sem brilho, mas ainda são verdades. Ler é provavelmente o ideal, minhas ambições é que são mais modestas. Como todo fumante de Marlboro light, estou apenas tentando reduzir, estou apenas tentando melhorar. Então se a gente puder voltar a falar mal do BBB, acho saudável. De repente uma culpinha depois que terminar de assistir. Um pouco de droga, um pouco de salada, diz o ditado. Só que droga é droga, salada é salada. E fast food está bem mais para um do que para outro, importante lembrar.

 

Natália Alavarce é historiadora e designer. Entre outras coisas, foi professora, editora-assistente da falecida revista digital Celeuma e integrou a equipe de comunicação da editora Todavia.

4 Comentários

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4 respostas para “Fast-food para o espírito: o BBB é o equivalente mental de pedir lanche todos os dias”

  1. Eva Furnari disse:

    Muito bom. Inteligente, divertido, irônico.

  2. Eva Furnari disse:

    Achei ótimo. Inteligente, divertido, irônico.

  3. Verí disse:

    Eu NÃO consigo assistir. Acho super chato e achei sua analogia do fast Food genial. Talvez eu ache chato pq tbm detesto fast food.kkkkkkk… mequidonalds e bigbroder e Disney, pra mim, tudo tem gosto de fake, tudo é maquiado e feito assumidamente para vender. Fica demais na superfície. E olha que eu não sou profunda. Inclusive, gosto de passear no shopping… Mas gosto mais de parque mesmo.
    Achei sua crítica super pertinente e corajosa. 🙂

  4. Taila disse:

    Excelente ponto de vista. Melhor texto que já li sobre!

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