Festinhas de apartamento: modos de usar

Novas (ou velhas) modalidades de diversão numa São Paulo em crise

19.09.2018  |  Por: Gaia Passarelli

image
Festinhas de apartamento: modos de usar

Entre os modismos atuais da modernidade paulistana estão festinhas em apartamento, surubas e Borderline da Madonna.

Gosto bem da parte da festinha em apartamento. É divertido e funciona em tempos de crise galopante, porque ninguém tem R$ 40 golpinhos para gastar com um único gim tônica no bar bonito da vez. Ou até tem, mas aí acaba cedo e quem é que quer acabar festa cedo? Eu não. Então em casa dá pra levar a garrafa inteira de gim e levar outras coisas também, lícitas ou não. Nesse retorno do esquema cada um leva o que/quem quiser, a faxina é por conta do dono da casa e de quem se dispuser a ajudar na manhã (tarde, noite) seguinte, com cara amassada e aquele gosto horrível na boca, espantando a ressaca moral com uma passada de pano na pia.

Festinha em apartamento também tem aquele jeitão de informalidade e um fator-surpresa bom, porque você nunca sabe com quem vai esbarrar no cantinho do cigarro improvisado na área de serviço, entre o tanque cheio de gelo e cerveja e as vassouras apoiadas na parede.

O ideal, claro, é não exagerar ao levar gente extra pra casa do anfitrião, muito menos aparecer sem ser convidado. Mas isso meio sempre acontece (informalidade, lembra?) e talvez você encontre um antigo colega de trabalho, uma amiga de infância. Talvez a amiga que você levou (depois de confirmar com a dona da casa que tudo bem!) encontre a terapeuta, as duas bêbadas e evitando olhares. Talvez ali no corredor entre o banheiro e a cozinha você esbarre numa pessoa desconhecida com potencial para ser o amor da sua vida que você vai esquecer em algumas horas. Talvez você acabe sendo DJ da festinha e comandando o Spotify (“Something in the way you love me won’t let me be”) porque hoje todo mundo é DJ mesmo. Talvez você coma cogumelos, outro modismo atual totalmente dentro da legalidade, e tenha um ataque de risadas delicioso com alguém que nunca viu antes, enquanto sua amiga da escola está encostada na parede se atracando com seu antigo colega de trabalho e daí quando o riso acabar, qual era a piada mesmo? (“If you want me, let me know, baby, let it show”), alguém passou a mão na sua bunda. E nem é o caso de pegar mal, acredite, porque há duas certezas sobre festinha de apartamento em São Paulo hoje: a primeira é que vai tocar alguma antiga da Madonna (“you keep on pushing my love over the boooooorderline”) e a segunda é que vai acabar na pegação generalizada — as duas coisas não precisam estar ligadas, apesar de que Justify My Love deve ser sucesso em playlist de transa.

A pegação geral pode desenvolver pra uma suruba mesmo, e talvez isso aconteça no quarto mas pode ser que seja na sala, depende da disposição e desenvoltura dos demais. Claro, existe suruba planejada também. Tal dia, horário, endereço. Recipientes com camisinhas. Algumas regras ditas, outras subentendidas. Trilha sonora. Luz boa. Não frequento mas sei que existe. A não ser que todo mundo esteja inventando essas coisas e eu acredito em tudo. Acredito inclusive que as pessoas seguem transando solta e animadamente até a completa exaustão nos finalmentes da festinha de apartamento — não sei dizer com exatidão porque sempre vou embora.

Por quê? Sempre tem alguém pra perguntar. Mas por que você não gosta? Não é uma pressão, é mais uma curiosidade mesmo, afinal se é sexo tem que gostar, que não é pressão mas meio é sim. Ai, mas você é muito fechada. Poderia responder que, olha só meu amor, há uma epidemia de sífilis acontecendo, lá fora é uma selva, sabe? Aqui dentro, no caso. No apartamento. Dizem que tá rolando muito gonorréia também e pelamordedeus, quem precisa disso? Minha amiga diz que é para parar de me explicar: não tá fim e pronto, vai ser feliz do seu jeito. Obrigada. Isso significa pegar minha bolsa, às vezes casaco, chamar elevador e um carro e ver o que acontece depois em outro lugar, normalmente sozinha & em casa. Mas ainda pensando: por que você não gosta? Não é isso exatamente e nem isso apenas. É ter familiaridade demais com a ressaca moral. É não gostar da sensação de “lembro mas preferia não lembrar”. É não querer encontrar aquele antigo colega de trabalho ou a amiga da escola ou, deusmeperdoe, um ex-crush mal resolvido em plena pegação coletiva.

Vocês são muito desenvolvidos pra mim e o mundo já foi mais simples.

Mas as festinhas de apartamento, adoro. Podem me chamar, prometo ir embora sem alarde quando for hora, sem incomodar ninguém com meu resguardo de mocinha vitoriana. Também prometo tocar Borderline quando atacar de DJ. Convenhamos, é um musicão mesmo.

 

Gaía Passarelli é jornalista e escritora, autora de Mas Você Vai Sozinha? (Globo Livros, 2016). Nascida e criada em São Paulo, mora num prédio velho da Bela Vista com o filho, três gatos e uma crescente coleção de guias de viagem. Você a encontra no twitter @gaiapassarelli e no site gaiapassarelli.com

0 Comentários

Comentar

Deixe uma resposta