Filme ‘Chega de Fiu Fiu’ dá corpo à campanha que viralizou em 2013

Movimento criado pela ONG Think Olga vira documentário que estreia nesta terça, centrado em depoimentos de três mulheres dirigidas por Amanda Kamanchek e Fernanda Frazão

15.05.2018  |  Por: Maria Clara Drummond

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Filme ‘Chega de Fiu Fiu’ dá corpo à campanha que viralizou em 2013

Raquel Carvalho é uma das protagonistas cuja rotina é acompanhada no documentário Chega de Fiu Fiu, que estreia hoje. Em determinado momento, ela diz: “Uma das violências psicológicas que a mulher sofre é precisar ouvir um ‘psiu’ para se sentir gostosa. E muitas vezes ela não gosta, mas ela não percebe aquilo como uma violência. A violência passou por mim a vida inteira despercebida.”

Este pequeno depoimento resume ao mesmo tempo toda a filosofia do projeto Chega de Fiu Fiu – a de que o assédio verbal das ruas é violento mesmo que inicialmente não seja percebido como tal – e indica as consequências no feminismo brasileiro depois das campanhas da ONG Think Olga. As hashtags #chegadefiufiu e #meuprimeiroassédio serviram como um catalisador de vozes que, apesar de insatisfeitas com os tratamentos cotidianos que recebiam dos homens, até então estavam caladas. E foi apenas a partir dessa troca que foi possível o empoderamento. Novamente, um bom exemplo dessa mudança de pensamento é a fala de Raquel Carvalho: “Eu já pesei muito mais do que peso atualmente, e tinha dificuldade de passar pela borboleta do ônibus. O motorista fazia questão de me constranger e eu tinha vergonha de sair de casa. Mas agora eu estou pouco me lixando se as pessoas me acham gorda. Eu me acho bem, eu não preciso seguir padrões”, afirma.

Ao focar principalmente em três mulheres contando suas histórias, o filme mostra que o assédio de rua é mais que um incômodo momentâneo e passageiro – é algo definidor de vidas.  Afinal, quando mora-se longe dos grandes centros urbanos, é preciso andar longas distâncias em terrenos isolados para ir ao trabalho ou à faculdade. Assim, as mulheres precisam de coragem extra para essas ações cotidianas, o que acaba inviabilizando seu futuro. “Se eu quiser me formar na faculdade eu preciso passar por esse trajeto ermo.”

Rosa Luz é a personagem trans que conta em primeira pessoa sobre as diferenças de tratamento antes de depois da sua transição para mulher. Esse aspecto do movimento é em geral cercado de controvérsias entre as transfeministas e as denominadas TERFs  (Trans Exclusionary Radical Feminists). Estas últimas dizem que, por terem sido socializadas como homens, mulheres trans não deveriam fazer parte do movimento, e algumas chegam ao extremo de dizerem que são “homens fantasiados de mulheres”. O documentário trata do tema com delicadeza: dá voz a uma mulher trans que explica as mudanças que enfrentou andando pelas ruas como homem e posteriormente como mulher, e com isso não esbarra na exclusão proposta pelas TERFs.

O documentário intercala a história dessas três mulheres – a terceira é a professora de história paulistana Teresa Chaves – com dados, estatísticas e depoimentos de especialistas, como a filósofa e ativista do feminismo negro Djamila Ribeiro. Há também espaço para a fala da fundadora do Think Olga, Juliana de Faria. Ela conta dos assédios que sofreu quando ainda era uma criança e do estopim que a levou a criar um movimento: o episódio em que o aclamado diretor teatral Gerald Thomas, ao ser entrevistado no lançamento de seu livro pela panicat Nicole Bahls, enfiou a mão dentro do seu vestido.

Na época, muitas pessoas enxergaram esse ato como uma brincadeira ou performance, e outros tantos chegaram a defender publicamente o diretor teatral. Hoje, cinco anos depois do ocorrido, é difícil pensar que alguém minimamente esclarecido levante a voz para justificar esse tipo de comportamento, o que comprova o quanto a sociedade mudou em tão pouco tempo, graças a iniciativas como essas.

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