Geração ‘ageless’, ou: eu não tenho a minha idade!

Envelhecer mudou. Ainda bem

03.07.2019  |  Por: Gaia Passarelli

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Geração ‘ageless’, ou: eu não tenho a minha idade!

O Rodrigo Santoro olha de volta pra mim numa foto da Folha de São Paulo enquanto tomo café da manhã. Não é o Rodrigo Santoro com o qual me acostumei a lembrar, um cara moreno, bonito, de rosto anguloso e olhos escuros. Quero dizer, é tudo isso mas também é um homem mais velho, acho que a palavra certa é maduro?, com alguns fios brancos na barba e mais do que algumas rugas nos locais onde essas costumam aparecer.

Logo depois, na timeline do Twitter, passei por uma foto atual do um ex-namorado. A gente teve uma relação longa e cheia dos altos e baixos típicos de primeiro amor, lá nos anos 1990. Nosso término foi horrível, mas mesmo assim lembro dele sempre com muito afeto. Também lembro dele como ele era há 30 anos: cabelos pretos lisos, olhos verdes, a pele jovem esticada sobre o rosto, um dos caras mais bonitos que conheci. Por isso demorei pra reconhecer a foto de um senhor grisalho com bigode branco sobre um sorriso torto passeando num dia cinzento em Amsterdam, onde ele mora hoje.

Não estou criticando o Rodrigo Santoro e meu ex-namorado por envelhecerem, por favor, mas ver essas duas fotos assim na mesma manhã me impactou.

É verdade que, na idade em que estou, tenho alguns amigos de mais de 20, 30 anos de convivência, que não percebo envelhecerem porque estamos sempre em contato. Mas, se prestar atenção, paro pra ver que uma amiga deixou de ser menina para se tornar uma mulher bonita, de voz grave, vestindo terninhos pra ir de manhã pra agência onde é diretora. Outra casou, engordou e parece bem mais feliz do que estava sempre tentando ser magricela. Um casal enriqueceu e tem cara de pessoas adultas que assinam clube de vinhos e fazem ioga com professor particular de manhã. Outro entrou pra turma da malhação e exibe um corpão nas fotos de Instagram onde não parece garotão, mas um homem maduro e bem cuidado. Entre vincos no rosto há muitas histórias pra celebrar.

Mas isso de viver em um tempo em que há muitas formas de envelhecer não é traço exclusivo da minha geração. Meu pai, minha mãe, os avós do meu filho são pessoas 70+ que seguem ativas, mas que se vivessem com essa idade há 50 anos estariam relegados à situação de poltrona com chinelinho e mantinha. No último fim de semana assisti a um romance da Netflix com o Robert Redford e a Jane Fonda. O filme é de 2019 e ambos estão com a aparência que se espera de pessoas de 80 anos que tem rugas, aflições e uma energia que não é de gente que se contenta com ver a vida passar na janela.

As questões de diferença de idade aparecem em coisas cotidianas, tipo quanto tempo eu levo pra me recuperar de uma ressaca ou de uma gripe, ou as coisas das quais me lembro

Envelhecer mudou e minha geração tem nome pra isso: perennial e geração ageless (tem um texto bem legal sobre isso da maravilhosa colega perennial Adriana Ferreira na Marie Claire), um conceito com o qual me identifico e que a minha terapeuta resumiu ao me dizer que “eu não tenho a minha idade”. Que idade tenho então,? perguntei. “A que você quiser.”

Na equipe onde eu trabalho sou a mais velha. Sou mais velha inclusive do que o fundador da empresa, mas é um ambiente onde isso faz pouca diferença quando se trata de funções e responsabilidades. As questões de diferença de idade aparecem em coisas cotidianas, tipo quanto tempo eu levo pra me recuperar de uma ressaca ou de uma gripe, ou as coisas das quais me lembro. A queda do Muro de Berlim? O primeiro Rock in Rio? O impeachment do Collor? Vi na TV! As primeiras raves no Brasil, um show do Sepultura no Estádio do Pacaembu, a época em que se podia fumar dentro de avião? Eu estava lá! Também vivenciei o telefone com fio todo enroladinho, a ascensão e queda do VHS, da MTV Brasil, da internet discada, do Zip Drive e do aparelho bip!

Tudo atestado de velhice ou, como eu gosto de colocar, uma prova de que a minha geração tem uma capacidade de adaptação invejável.

Vim do tempo da TV em preto e branco, quando você tinha que, pasme, levantar do sofá pra trocar de canal (eram 13 canais, mas só pegavam uns seis), e hoje tô aqui escrevendo numa máquina de escrever com tela de digital ink que manda o texto automaticamente pro Google Drive via wi-fi que eu mesma configurei.

Mas, afora esse tal capacidade de adaptação da qual gosto muito, não consigo ver quais são outras características do meu envelhecimento. Por isso o susto ao ver o Santoro com barba branca. Eu ainda olho no espelho e vejo a Gaía, e só. Tem dias, como hoje, em que ela está com o rosto inchado porque andou bebendo um tanto a mais de vinho, e tem dias em que os olhos castanhos já acordam enormes e bem espertos. Ah, mas se eu mexer nos cabelos, que mais uma vez decidi tentar deixar crescer, consigo catar um chumaço de fios brancos. Antes eles ficavam só num pedaço da testa, mas agora começam a circundar todo o rosto.

Talvez alguém que não me vê há 20, 30 anos também possa se espantar com uma foto recente minha no Instagram e pensar: “Meu deus, olha como a Gaía envelheceu!” Espero que sim.

Jane Fonda, Madonna, Sonia Braga — tô mirando em vocês.

 

Gaía Passarelli é jornalista e escritora, autora de Mas Você Vai Sozinha? (Globo Livros, 2016). Nascida e criada em São Paulo, mora num prédio velho da Bela Vista com o filho, três gatos e uma crescente coleção de guias de viagem. Você a encontra no twitter @gaiapassarelli e no site gaiapassarelli.com

 

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