Inveja do pau é o cacete

Diante da verdadeira revolução do gozo feminino, um iluminismo sexual, toda nossa noção de sexo está sendo finalmente revista. Podemos, então, ter uma percepção nova e muito mais eficiente do que nos faz atingir o clímax

09.02.2021  |  Por: Letícia Gicovate

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Inveja do pau é o cacete

“Quem é ela?” A pergunta partiu de uma amiga na casa dos cinquenta, ao ver uma imagem em 3D do clitóris pela primeira vez. E ela não está sozinha no escuro.

Antes de responder voltei correndo pros anos 90, quando eu matava aula folheando a revista Nova na banca de jornal.

“Dez maneiras de arrasar na primeira noite”, “Cinquenta maneiras de enlouquecer um homem no sexo oral”, “Cem maneiras de  satisfazer seu namorado na cama” eram as matérias de capa. Porém “Mil e uma maneiras de anular seu prazer” é o que pareciam querer dizer.

O nome da revista mudou, mas a pauta principal não foi muito além. Pesquisas recentes indicam que 75% das pessoas com vulva não conseguem chegar ao orgasmo através da penetração. Ou seja, multidões de mulheres acham que tem algum defeito por não conseguir gozar como a indústria pornô, o cinema e as revistas ditam que devemos fazer.

Isso porque até hoje carregamos entre as pernas o peso da religião, o desprezo do estado, a vergonha social e a negligência da ciência. Nosso desejo ainda parece ser de segunda classe.

Não vou mentir, em 2014 quando comecei a pensar a Nin, uma revista feminista de arte erótica, eu também nunca tinha visto um clitóris como ele realmente é. Eu era mais uma entre praticamente todas as mulheres do mundo que desconheciam todo mistério do nosso pequeno botão do prazer.

E aqui tombamos o primeiro mito: pequeno é uma ova! O clitóris é grande em proporção e força, em centímetros e possibilidades. E está muito além do que podemos ver. Pelo menos até ele ser plenamente desvendado, graças aos esforços de uma mulher.

Só no final dos anos 90 a urologista australiana Helen O’Connell começou a mapear totalmente a estrutura interna do clitóris, mostrando em detalhes toda grandiosidade do órgão chave do nosso gozo. Ainda na faculdade que Helen ouviu a campainha da curiosidade tocar pela primeira vez. Estudando anatomia ela sempre se deparava com notas tímidas falando sobre a vulva, entre dezenas de páginas bem ilustradas dedicadas ao pênis.

Cansada de saber com quantos paus se faz uma canoa (com trocadilho, por favor), a médica se dedicou a mostrar o que a nossa vagina escondia. Ou melhor, o que escondiam de nós. Se por fora o clitóris se revela um montinho tímido coroando a vulva, por dentro ele se expande em mais de 9 centímetros de pura beleza e desbunde. Sendo assim, o gozo feminino sempre passa direta ou indiretamente pelo clitóris desmitificando sua função de acessório e o promovendo definitivamente a órgão sexual, cuja única função é nos satisfazer.

Então vemos cair por terra mais um histórico equívoco paternalista: a lorota criada por Freud de que o orgasmo clitoriano é inferior, ou pior, “infantil”. Embora cada uma de nós seja e sinta de forma diferente, nosso clitóris é rodeado por cerca de oito mil terminações nervosas, basicamente o dobro do sexo masculino.

Inveja do pau é o cacete! As feministas da segunda onda já levantavam essa bandeira e as civilizações antigas pareciam já saber disso, mas na sociedade moderna, se trata de um Renascimento. Afinal, esse novo capítulo no (re)empoderamento do nosso orgasmo só ganhou um reforço definitivo em 2016, quando uma impressão em 3D democratizou a imagem realista do clitóris. A tal foto que chocou minha amiga. Ou seja, a humanidade conseguiu revelar imagens de Marte antes da gente conhecer o nosso próprio corpo.

Estamos então diante da verdadeira revolução do gozo feminino, um iluminismo sexual. Toda nossa noção de sexo está sendo finalmente revista, podemos ter uma percepção nova e muito mais eficiente do que nos faz atingir o clímax.

O Instagram agora soma milhares de contas popularizando as reais formas do nosso sexo e expressões reais da nossa sexualidade. E até uma nova indústria floresceu, são novos shapes de brinquedos eróticos, lubrificantes mais naturais, obras de arte e até enfeites pra casa popularizando nosso querido grelo.

Mas ainda falta bastante, não revertemos milênios de apagamento, obscurantismo e tabu num clique. É preciso levar esse novo conhecimento pras escolas, pra mesa de jantar e principalmente pra nossa cama. E é bom lembrar, a sexualidade feminina segue plural e individual. Não existe fórmula ou método infalível que ensine a gozar.

Mas existe muito, muito prazer em se conhecer.

 

Letícia Gicovate é editora de conteúdo, escritora e uma das criadoras, ao lado de Alice Galeffi, da revista Nin

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