Isso não é uma fantasia de carnaval

Os dias de folia não são de amnésia geral: é preciso manter a ética, os princípios e o respeito para se jogar nos dias de anarquia total com novos filtros. Quem vem?

05.02.2020  |  Por: Lila Guimarães

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Isso não é uma fantasia de carnaval

A vida inteira pulei carnaval, desde quando ainda estava no colo da minha mãe. A vida inteira usei fantasias que achava que eram para ser vestidas. Beirando os 40, já vi de tudo nas ruas e avenidas. Conheço o fervo de Rio, Recife, São Paulo, Minas e Bahia. Vi a gente descortinando um véu de tule espesso, com camadas e camadas de ignorância a respeito da História do Brasil. Fomos, ao longo do tempo, descobrindo uma série de gafes e cafonices. Erros.

Percebi que me fantasiar de indígena talvez não fosse apropriado, afinal, um fake cocar e pinturas no rosto feitas com batom de marca gringa não são alegorias para usar bêbada por aí. Podem me chamar de chata, não me importo, mas indígenas para mim são como entidades, apenas não ouso. Também não uso mais purpurina. A gente sabe que existem muitas outras formas de brilhar sem cagar o meio ambiente. O glitter biodegradável já é realidade e o mercado está cheio de novas opções. “Ah tá, brilho politicamente correto, me poupe!” Pois é, e não é que ele brilha mesmo? 

Lembro que as crianças desde bem pequenas eram vestidas de noiva, melindrosa ou odalisca. Era bonitinho e eu fui uma dessas meninas fofas. Nos anos 80, nossas mães não viam nada de errado em botar as filhas nessas fantasias e a brincadeira era plena. Não guardo nenhum trauma desses tempos, pelo contrário, fui muito feliz. Na verdade, muito disso vinha do fascínio pela protagonista de Jeannie é um Gênio, um enlatado super vencido, produzido nos anos 70, que era sucesso na nossa TV. Em resumo, Barbara Eden, a atriz do programa, encarnava uma mulher tão perfeita que não era real. Sua única função era fazer com que a vida do marido, um homem que vivia de terno e pasta na mão, fosse milimetricamente perfeita. 

Hoje, quando penso em fantasias para a minha filha, sinto vontade de subverter toda essa memória e pirar em temas e arquétipos diferentes. No geral, não só as meninas, mas também mulheres de todas as idades usavam mais ou menos as mesmas fantasias – sensuais. Ah claro, tinha as freiras. Em síntese, a moda era ser santa ou puta. 

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Os homens aproveitavam os dias de festa para dar uma desconstruída no repertório muscular rígido de sempre. Rebolavam muito, contanto que estivessem travestidos de mulher. A masculinidade tóxica, um termo que não existia na época, imperava na livre interpretação de cada um sobre o que era ser mulher ou “piranha” (acho que só a relação entre essas duas palavras já era uma baita confusão para eles). Bem, o Bloco das Piranhas de Paquetá era um dos mais cheios e esperados. Era a balbúrdia do ano, o sanatório geral passando pelas casas da ilha e horrorizando os mais conservadores (aliás, que saudade daqueles conservadores). 

Era a sem-vergonhice permitida mais divertida e explícita que eu podia ver ao vivo com a idade que tinha. Meu pai, no fundo, não gostava muito que eu seguisse o bloco espiando. Imagina se eu ia perder aquele momento? Era com certeza bem mais light do que a cobertura dos bailes na TV Manchete!

Disso tudo, guardo recortes. Me impressionavam os gestos que os homens faziam, o jeito que eles falavam imitando as mulheres. Tudo era para fazer rir, eu sei, mas aquilo me deixava aflita. Pensava que tinha alguma coisa errada com as mulheres e que ser piranha (nem sei muito o que comentar sobre esta palavra) era algo muito maluco. Só a ingenuidade salva.

Uma cena em especial me marcou. Um amigo do meu tio entrou em casa às pressas porque o bloco já estava concentrado e ele precisava se arrumar. Pouquíssimos minutos depois ele estava pronto! Saiu de casa com um absorvente cheio de ketchup pendurado numa calcinha de lycra rosa. Essa era a fantasia dele.

Os conservadores estão cada vez mais insanos e os desvairados, mais conscientes

Corta para 2020: conservadores estão cada vez mais insanos e os desvairados, mais conscientes e interessantes. Não sei se isso é bom ou ruim. Acho que tudo é processo e que o carnaval traz todas essas questões assim de uma vez. Através da irreverência, alguns se vestem de protesto e evocam temas importantes para provocar reflexões num terreno abrandado pela alegria. São relances de realidade no meio da loucura. Esses foliões lançam seus raios de sensatez sobre feridas sociais no lugar de rir da dor do outro ou no lugar de não compreender e não enxergar o outro. 

Pego carona na marchinha do EP Escória, recém-lançado pelo Zeca Baleiro. Na faixa Você Não Quer Dividir o Avião, ele diz: “Seu ego gigante não sabe o que é constrangimento”, e resume bem tudo o que vimos até chegar aqui neste carnaval “politicamente correto” (expressão que, no fim, é puro pleonasmo). 

Se no ano passado nos deleitamos com grupos formados por laranjas animadas denunciando a corrupção política e fomos surpreendidos pela quantidade de Barbies Fascistas nas esquinas do país, penso que em 2020 vamos continuar pelo mesmo caminho, porque carnaval não é amnésia geral. Tem bloco Bacurau, temas como meio ambiente e Amazônia no Cortejo do Manguerê do bloco Arrianu Suassunga e no Terra em Transe do Tarado Ni Você. Já sinto o cheiro de sátiras políticas: Damares, Greta, viúva Porcina ressuscitada e Jane Fonda algemada. Tá valendo!

No Instagram, passam pelo feed ideias de adereços de cabeça feitos com material reciclável e até itens da despensa de casa como pregadores e esponjas de cozinha. A designer Guta Virtuoso fez um vídeo ensinando uma montação sustentável assim. Os brincos da marca Ken-ga com os dizeres Mulher Resiste, Preta Resiste, Bixa Resiste, Travesti Resiste, entre outros, vão direto aos muitos pontos que precisam de atenção e luz.

Hoje, vejo homens e mulheres ressaltando outros traços e poderes do feminino, a expressão através do alegórico parece mais plural e colorida, e os corpos livres de padrões estéticos se esbarram suados na mesma bagunça. A anarquia é total, mas ganha novos filtros e abraça o humano com muito mais amor. É bonito de ver!

 

Lila Guimarães é carioca e vive em São Paulo há quase uma década, sendo jornalista, atriz, stylist, mística e mãe. Escreve sobre comportamento e bem-estar no seu blog Cena Crua e é apaixonada pelo carnaval. Há seis anos é porta-estandarte do bloco Arrianu Suassunga e tem, com a estilista Heloisa Faria, uma coleção de fantasias inspirada em Deusas de diferentes mitologias

 

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