Julia Branco: uma estreia solo para ver e ouvir

A vocalista da banda mineira Todos os Caetanos do Mundo lança 'Soltar os Cavalos', projeto composto por um disco e um vídeo-álbum cujo primeiro registro Hysteria lança com exclusividade

06.06.2018  |  Por: Maria Clara Drummond

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Julia Branco: uma estreia solo para ver e ouvir

Depois de movimentar a cena musical como vocalista da banda mineira Todos os Caetanos do Mundo, que coleciona elogios de figuras como Arnaldo Antunes e recentemente anunciou uma pausa, Julia Branco lança seu primeiro projeto solo, Soltar os Cavalos. Trata-se de uma estreia em dose dupla: este mês ela lança um vídeo-álbum com canções apresentadas em cinco vídeos assinados por diferentes diretoras, e em julho o disco propriamente dito, produzido por Chico Neves, conhecido por trabalhos com grupos como O Rappa, Skank, Los Hermanos e Paralamas do Sucesso. Além de ser seu primeiro trabalho solo, Soltar os Cavalos marca a estreia de Julia como compositora.

São, portanto, dois trabalhos distintos homônimos: os registros audiovisuais – cada um com uma estética e um caminho particulares, embora com uma unidade que conecta todos – e o disco, com 11 faixas, em versão digital, CD e LP. Julia, que sempre escreveu mas ainda não havia transformado essa prática em canções (ela o fez por sugestão de Chico Neves, diga-se), é autora de todas as músicas de Soltar os Cavalos, sozinha ou com parceiras como Letícia Novaes, a Letrux, em 30 Anos, Mariana Volker, em Cheia de Dobras, e Luiza Brina (Graveola), também coarranjadora e responsável pela harmonia do disco, que participa de quatro canções. Além de Julia, o banda é complementada por Chico Neves e Luiza Brina.

“Eu estava no processo de criação do meu primeiro disco quando tive a alegria de ser aprovada no edital da Natura através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais e, como também sou atriz, decidi apresentar algumas das canções em outros formatos, criando assim o vídeo-álbum”, conta Julia.

Hysteria lança com exclusividade o primeiro registro audiovisual do vídeo-álbum, o vídeo-manifesto Coisas. Dirigido por Sara Lana, que também assina a direção criativa geral do projeto, Coisas funciona como uma espécie de manifesto sobre os trabalhos que virão. Nele, Julia elenca as coisas que não sabe fazer. A empreitada audiovisual traz ainda outras quatro gravações: Sou Forte e Estrela, duas canções compactadas em um único registro com direção de Luisa Horta, que assina também a direção de arte do vídeo-álbum; 30 anos, a tal parceria com Letrux, que conta com participação da artista e é dirigido por Raquel Pinheiro, que cuida da montagem do vídeo-álbum; Eu sou Mulher, dirigido por Samanta do Amaral, colorista do projeto; e Meu Corpo, dirigido por Julia Zakia, que cuida também da direção de fotografia do vídeo-álbum.

A seguir, conversamos com Julia Branco sobre o vídeo Coisas, que dá a partida no projeto.

 

Em Coisas, você elenca incapacidades suas. Como você acha que esse vídeo dialoga com os dias de hoje?

Eu adoro o tema do fracasso. É um assunto que mexeu comigo quando eu estava prestes a fazer 30 anos, aquela fase da vida em que a gente acha que deveria ter chegado a certo estágio, conquistado determinadas coisas. Desde então, essa questão me fascina. A internet trouxe muitas maravilhas, mas também trouxe essa cultura da vida perfeita, que gera uma autocobrança muito grande. Na contramão disso, eu acabo me encantando pelas pessoas que admitem o lugar do erro, que assumem a própria vulnerabilidade. Isso é muito mais real e potente que se colocar como invencível o tempo inteiro. O fracasso pra mim não é se colocar em lugar de inércia, e sim em constante aprendizado e movimento. Acolher a própria história e assim a capacidade de fazer com que ela se transforme.

No vídeo, você fala de não ser politicamente correta e poeticamente correta.

Acho que todos os seres humanos, inclusive os artistas, são, em alguma medida, contraditórios. A gente pode defender algo verdadeiramente, se mobilizar por uma causa, mas, talvez, no nosso ambiente mais íntimo, ou depois que o tempo passa, ter nossas contradições. Ser uma pessoa e sustentar um pensamento é algo complexo. A gente muda, a vida faz a gente mudar, quem está vivo vai ser sempre colocado em xeque – o ser humano, que é um ser político, é vivo, e viver é errar. Quando falo da dificuldade de ser politicamente correto eu falo da dificuldade de ser coerente o tempo inteiro. E isso não tem a ver com defender a negligência ou o não-posicionamento político, pelo contrário, falar dessa dificuldade tem a ver com se colocar num lugar de escuta.

Em relação a não ser poeticamente correta, é uma forma bem-humorada de brincar com a ideia da perfeição. Essa frase me traz uma ideia de risco. Se eu não consigo ser poeticamente correta, eu me sinto livre para arriscar, e o risco é a matéria-prima do artista.

E o que Soltar os Cavalos tem a ver com o feminismo?

Nos últimos anos fui muito tocada por esse tema, e nesse trabalho eu o correlaciono com o erro, a vulnerabilidade, o questionamento, a contradição – acho que esses temas fortalecem o assunto do feminismo na obra. Não é porque somos feministas que não erramos. Para mim, pessoalmente, é cansativo ter que dar conta de tudo, eu quero que as mulheres tenham os mesmos direitos que os homens, mas eu não quero ser a Mulher-Maravilha. Tem essa conversa que as mulheres são mais fortes, guerreiras, mas isso também faz com que sejamos sobrecarregadas. Não acho que feminismo tem a ver com ser invencível, incansável.

Você ficou hesitante em colocar alguma coisa na lista das suas incapacidades listadas em Coisas?

Não, porque escrever essa lista foi um exercício de libertação. Tenho o hábito de fazer piada das minhas dificuldades, acho que no fundo é um jeito de lidar com coisas que são complicadas para mim, tipo a vida cotidiana burocrática. Falar dessas questões com humor faz tudo ficar bem mais leve. Há também questionamentos mais profundos, como: “Não tenho certeza de que gostaria de ter filhos” – gosto de assumir minha dúvida porque mulheres ao longo da Humanidade nem sempre puderam se questionar se realmente queriam ser mães. A dúvida até pouco tempo atrás era algo impensável para muitas de nós. Espero que falar sobre as minhas incapacidades abra espaço para as pessoas falarem sobre as próprias, também. Espero alcançar esse lugar em que o outro se reconhece,  e assim se sente menos sozinho.

E você fala da potência do erro.

Ninguém consegue mudar alguma coisa em si se não assume a própria dificuldade. Ser imperfeito nos leva a querer ser melhor da próxima vez. Como já disse acho muito bonito quem revela a própria vulnerabilidade, vejo mais potência que fraqueza. Todo mundo tem sua lista de incapacidades, e, assumindo-as, nos tornamos mais capazes – tem esse paradoxo. E, com certeza absoluta, muito mais corajosos para os enfrentamentos que surgirem.

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