Largar a cidade grande, trabalhar duro com vista pro mar e sentir a recompensa na alma

Carolina deixou São Paulo para morar em uma vila de pescadores no Ceará. Aposentadoria antecipada? Nada disso!

29.07.2019  |  Por: Carolina Sbrana Sciotti

image
Largar a cidade grande, trabalhar duro com vista pro mar e sentir a recompensa na alma

O sol já queimava o couro quando, às 6h30 da manhã de uma terça-feira, escuto alguém me chamar na porta de casa. Um dos pontos de contradição entre quem de fato sou e quem adoraria ser consta dessa novidade que é o convívio social em seu ápice: cru e constante. Nascida e criada em uma cidade regida por enormes paredes brancas, portarias pasteurizadas e aqueles vidros esverdeados cafonas, reneguei minhas origens de burguesa paulistana para mergulhar de cabeça no sonho da casinha de sapê em uma vila de pescadores do litoral leste do Ceará.

Hoje são quatro anos de águas cristalinas, suingue, suor e perrengue – sempre rodeado por todas as formas possíveis (inclusive as já extintas) de demonstrações de afeto.

Enfim, enquanto respondia um e-mail ainda de pijama, dando de comer ao rebento, coloquei a cara na janela com um sorriso amarelo. Como na grande maioria das vezes em que sou chamada a gritos ou palmas no portão de casa logo cedo, o motivo era nobre: ganhei um frango de presente! O almoço estaria garantido, diminuindo um item da extensa lista de afazeres do dia – salvo pelo pequeno detalhe de o frango ainda estar vivo.

Uma vila de pescadores genuína é um portal. 

A oportunidade honrosa de viver relações entre pessoas (e entre pessoas e seus lugares, suas galinhas, seus botes) que não pude presenciar na megalópole na qual fui criada, uma chance de olhar ao que de fato rege a vida, de forma muito mais orgânica – e muito mais dura também.

Ao chegar aqui, não tínhamos um plano muito concreto. Segui aquele sonho-clichê de quem havia trabalhado como produtora de audiovisual por 14 anos e decidira, depois de me sentir remando sem chegar a porto algum, que precisava direcionar toda a minha energia à construção de uma vida que parecesse, a mim mesma, efetivamente interessante: teria minha própria pousada com vista pro mar. 

E a casa tinha uma vista estonteante, mas estava beeeeem (quantos “eeeee” cabem aqui?) longe de ser uma pousada. Não havia reboco, não tinha água encanada, não tinha sinal de telefone nem de internet, e eu não conhecia ninguém da comunidade. 

A saturação dos grandes centros pode representar o florescimento dos pequenos espaços

Enfrentamos problemas financeiros, enfrentamos problemas com nosso carro velho, enfrentamos problemas com goteiras, com insetos, com iguanas, carreguei sacos de cimento no lombo e lutei contra carrapatos com estratégias de fazer inveja a reis medievais. Envelheci. 

Foram mais de três anos tapando o sol de 40 graus com uma peneira furada e trabalhando muito até começar, por fim, a colher louros. 

Quando me descobri grávida, já tínhamos uma casinha graciosa, renda fixa vinda através da fábrica de castanha de caju que reativamos com as próprias mãos e aquela sensação, insubstituível, de estar no caminho certo.

O êxodo urbano em nenhum momento foi uma aposentadoria antecipada. Eu e meu parceiro não saímos de São Paulo pensando em descansar, muito pelo contrário. A escolha de somar meus conhecimentos formais ao bem manusear do mar e da terra que têm todos os meus amigos pescadores e agricultores nativos foi absolutamente consciente e hoje posso dizer: uma ótima combinação.

A saturação dos grandes centros pode representar o florescimento dos pequenos espaços e essa é uma frase que tenho repetido constantemente. Quando os problemas do macro nos parecem (talvez por, de fato, o serem) irreversíveis, vejo no micro as luzes que podem nos encher de ânimo e orgulho, evocando ao simples, ainda que em tempos sombrios.  

Porque, acredito piamente, não existe treva que supere um caldo de galinha caipira bem preparado, seguido de um caju fresquinho ao meio-dia, e o sol constante, castigador e estralado que tanto ilumina os pequenos povoados deste país continental.

 

Carolina Sbrana Sciotti é paulistana, administra a fábrica de beneficiamento de castanha de caju Matury e a pousada Vila Manzuá, plantou várias árvores e colocou dois filhos no mundo.

0 Comentários

Comentar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *