Listas | Cinco cenas de sexo no cinema, por Laís Bodanzky

A diretora do premiado filme 'Como Nossos Pais' enumera os trechos que considera mais impactantes 'do ponto de vista do discurso, e não da fotografia'

28.11.2017  |  Por: Laís Bodanzky

Foto: Antonio Brasiliano

 

1. Toni Erdmann (2016), de Maren Ade
A cena é forte, mostra o sexo nada glamourizado, à luz do dia, sem nenhuma preparação exatamente, um sexo que explica muito a protagonista, a maneira como ela vive, como vê o mundo, como se comporta de um jeito objetivo, seco. Na vida como ela é, o sexo muitas vezes é resultado de quem somos nós e do que pensamos. E esta cena mostra quem é a personagem de forma muito corajosa, incluindo um nu masculino frontal. Os atores estão completamente abertos a isso, algo que não temos no Brasil. Quando mostramos nossos corpos no cinema aqui, é sempre com um recorte de uma falsa beleza, construída. Os europeus, os alemães, eles têm outra relação com o corpo, e este filme expõe isso. Me chama a atenção a coragem dos atores de se expor a favor da dramaturgia e dos personagens. É uma cena inesquecível.

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2. Azul É a Cor Mais Quente (2013), de Abdellatif Kechiche
É um filme fortíssimo, atual, e com cenas de sexo entre mulheres igualmente fortíssimas, pela realidade como são filmadas. Parece que estamos ali, juntos, assistindo a uma cena de amor e de sexo intenso. O filme mostrou — para mim pelo menos —, pela primeira vez, uma cena de sexo entre duas mulheres com uma intimidade e uma verdade a que não estamos muito acostumados. Trata-se de uma cena de sexo a princípio filmada quase como um documentário e que tem muita libido, que mexe com a plateia inteira, independentemente de suas preferências sexuais. Fiquei bem impressionada com a capacidade cinematográfica de causar no espectador sensações, sem perder a classe em nenhum momento, com uma cena que respeita as personagens e, principalmente, é intensa e educativa também. Acho muito importante falar e mostrar o sexo dessa forma, que, na minha opinião, é muito respeitosa.

 

3. Aquarius (2016), de Kleber Mendonça Filho
A personagem da Sônia Braga é corajosa e contemporânea, uma mulher independente, de opiniões fortes e que tem uma relação com o corpo, na idade em que se encontra, de respeito e de busca do prazer. Ela se propõe uma situação: chamar um garoto de programa que vai à casa dela, transa, faz sexo oral, e ela sente prazer. É, mais uma vez, uma cena de sexo forte a favor da explicação das personagens, das situações. Uma cena que revela o corpo da personagem, explica mais ainda quem ela é — e que também liberta as mulheres. Estamos acostumadas a ver os homens comprando o seu prazer, com todo o universo da prostituição, mas a gente não fala com a mesma tranquilidade sobre isso com relação à mulher. A mulher nem se permite comprar o próprio prazer, sente-se o tempo inteiro muito podada pela sociedade. E nesta cena a personagem se dá esse direito, liberta-se.

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4. Cisne Negro (2011), de Darren Aronofsky
Apesar de o filme ter uma cena forte de sexo entre as duas personagens femininas, para mim, a mais impactante é outra: aquela em que a protagonista, vivida pela atriz Natalie Portman, sozinha, no quarto, na cama dela, se masturba. Me chama a atenção a generosidade da atriz, emprestando a intimidade de seu corpo para a personagem, para a história. Não estamos acostumados a falar de sexo da mulher com ela mesma e, por isso também, ressalto esta cena. Encontrei o diretor e queria ter dito a ele, mas acabei não dizendo: “Parabéns, você fez a melhor cena de masturbação feminina da história do cinema!”

 

5. Houve uma Vez um Verão (1971), de Robert Mulligan
Vi este filme quando era criança e adorei a temática: a descoberta da sexualidade na adolescência. Mas fiquei mesmo muito emocionada e chorei quando assisti à cena deles dois — um garoto de 15 anos e uma mulher mais velha, casada, cujo marido foi para a guerra— dançando na cozinha. No nosso imaginário do que é uma cena de sexo, em que se tira a roupa e vai para a cama, não é isso. Mas, para mim, é sim uma cena de sexo, porque sexo é um encontro de corpos, que pode ser também um encontro de amor. E você pode nem tirar a roupa e ter um encontro sexual, exatamente como acontece nesta cena.     

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