Listas | Cinco poetas mulheres ainda não publicadas, por Pollyana Quintella

A historiadora da arte tem uma pesquisa paralela de poesia brasileira contemporânea e organizou este ano a exposição 'Rejuvenesça: Poesia Expandida Hoje', no Rio

27.07.2018  |  Por: Pollyana Quintela

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Listas | Cinco poetas mulheres ainda não publicadas, por Pollyana Quintella

Aos 25 anos, Pollyana Quintella já participou de curadorias em instituições como Museu de Arte do Rio, Museu Chácara do Céu, Casa França Brasil e Centro Cultural Calouste Gulbekian, entre outros. Apesar de ter sua pesquisa focada no crítico de arte Mário Pedrosa, seu interesse na poesia é crescente, principalmente quando vai além do formato livro, como em vídeos, objetos e performances – foi este o enfoque de sua exposição no Centro Cultural Hélio Oiticica. Também editou poesia na revista USINA. “São muitas as ótimas poetas brasileiras contemporâneas: Angélica Freitas, Ana Martins Marques, Júlia de Carvalho Hansen, Marília Garcia, entre tantas outras. Mas, embora uma série de novas editoras independentes tenha surgido para refrescar catálogos e leituras, a cena da poesia, felizmente, é maior do que o mercado editorial.” Nesta lista estão poetas que têm publicado em revistas digitais que funcionam como importantes plataformas de divulgação, como a Garupa, a Escamandro, a Modo de Usar & Co, e a Gueto. Além disso, elas participam de leituras públicas e publicam zines e plaquetes por pequenas editoras.

  1. Ana Carolina Assis (1991)

Ana é integrante da Oficina Experimental de Poesia, grupo que se encontra semanalmente no Méier, no Rio de Janeiro, desde 2015. Sua poesia é animista, constrói um universo povoado por musgos, insetos, caranguejos, tartarugas, galinhas, episódios da infância e imagens potentes (“ideias nos nossos calcanhares”; “vagalume no joelho dos dias”). Ela também pesquisou sobre Adília Lopes e Stela do Patrocínio e fala sobre elas com gosto. Aqui, a terceira parte do poema “o percurso (ou pequeno manual de escavação)”, entre cigarras, cabana de lençol e poeira de Saturno:

 

naquele mesmo dia
é possível que você tenha cochilado
enquanto olhávamos a árvore
toda crispada em cigarras
em pleno outono

a poeira das coisas feitas enchendo tudo
relampejando
ideias nos nossos calcanhares
então nos viramos em construir um vínculo

naquele mesmo dia
parados diante da margem
eu tentava sustentar com duas ou três palavras
a queda
e a impossível porosidade dos nossos ossos tão jovens
e a velhinha
que procurava ossos de sal no deserto,
era o que eu falava

mas você abriu um livro de filosofia
com um livro de poesia dentro
menor
olhos abertos
como quem vê seios enormes
pela primeira vez
numa cabana de lençol

naquele mesmo dia
eu queria dizer
mas não disse

é preciso que você saiba
ergue-se o globo
a fratura estala
entra em nós a poeira de saturno
vagalume no joelho dos dias

 

 

  1. Ana Frango Elétrico (1997)

É a caçula das cinco. Seu trabalho começa no nome, eu diria. Frango Elétrico vem de Fainguelernt, seu sobrenome verdadeiro, e é uma brincadeira com a dificuldade que as pessoas têm de pronunciá-lo. Este ano, lançou o álbum Mormaço Queima, cujo estilo ela define como “Bossa Pop Rock”. É dele o verso que anda sendo citado nos bares: “Fala pa caraio mas não pixa igreja”, embora os meus preferidos estejam em outra música: “Como dói / No bico do mamilo / um peteleco gelado.” Em 2017, publicou o zine “Escoliose / Paralelismo Miúdo”. Nos poemas da Ana, como neste aqui, um humor pop se adiciona a ares de despretensão e indiferença:

 

CÓLICA

A TORNEIRA PINGA
O SANGUE DESCE
MEU HAMSTER INTERNO CORRE
E ME ACORDA

COM O BARULHO DO EXERCÍCIO
DO COOPER NA RODINHA
NO TIC TAC DO RELÓGIO
A AVENIDA PARA

EM MARCHA RÉ
TODOS BUZINAM,
AO MESMO TEMPO,
UMA ODE AO MEU BUMBUM

(TRÂNSITO AMANTEIGADO)

MEU BUMBUM SENTADO
NA BEIRA DE UM VULCÃO
AO SOM DO CHEIRO
DE BÁBA

1 PERNILONGO
PARADO
EM CIMA DA UNHA
DO DEDÃO DO PÉ

DA MULHER DE ROUPÃO

 

 

  1. Fernanda Morse (1996)

Fernanda tem duas plaquetes publicadas, uma na Coleção Kraft, da editora Cozinha Experimental, e outra pelo selo Cactus. Ela anda traduzindo a poeta beat feminista Diane di Prima, além de pesquisar a obra de Ana Cristina César. É do Rio, mas mora em São Paulo. No inédito abaixo, acompanhamos a descrição de um percurso: a narradora expõe a cena de uma mulher banhando seu bebê, para buscar correspondências com seu amante (“e o ato é de amor, amor / lembra?”):

 

Caminhada

estamos no meio do caminho
um homem segue com a sua carroça
ele está cansado
eu estou cansada
procuro um passo
que não me custe tanto as pernas
(não posso mais sentir o peso da minha própria cabeça)
o sol a pino
ele já está longe
só agora vejo
que se arrasta apenas por uma roda
com a outra estourada — o pneu murcho
gasto
e por cima a sua casca
esgarçada
não ouço mais o que dizemos
pesa
estaríamos assim tão derrotados?
ou desertamos
e perdemos a guerra?
agora uma mulher dá banho em seu bebê
no chafariz da praça
a água é suja?
lava a cabeça, os cabelos, ele sabe
como ela ama lavar seus cabelos
você sabe?
a espuma nos ombros
escorrendo pelos braços
a sua pele! como é bom
tocar a sua cabeça — ele confia
mesmo que o chafariz lhe confunda
com tantas águas
lembra
do banho de xampu?
que espetáculo é Elizabeth
lavando os cabelos de Lota!
estrelas, uma constelação de espumas
e o ato é de amor, amor
lembra?
você já falou — lava meus cabelos
coça as minhas costas
e fechou os olhos e se virou
e se agachou e se entregou a mim
como a criança do chafariz
está nas mãos de sua mãe —
agora ele se enrosca
está suspenso no ar, com frio
quando tocar o chão
vai estar quente de novo
e um pano — nem tão macio —
lhe cobrirá a pele.

 

  1. Maria Bogado (1992)

Maria circula entre o cinema, a música experimental e a poesia. Seus poemas recentes têm se construído em texto corrido, próximos da ideia de prosa. Na prática, não sabemos se estamos diante de um poema, de um conto ou de uma crônica. Os gêneros se confundem, mas também não importa: pode ser, inclusive, que essa indefinição jogue a seu favor. Ela tem também experimentado oralizar os próprios versos em parceria com músicos, aproximando-se da performance. Aqui, um trecho de Entranha V, também inédito:

 

 

Entranha V

“Intragável. O mormaço. Aqui, começa hoje. A cor do mormaço. Branca e silenciosa. Levantar da cama. Arco de suspensão das pernas — uma de cada vez — um certo medo das cores. Brancas e silenciosas. Se chovesse, sim. Os pés pisavam o chão. Um de cada vez. Primeiro o chão. E depois o outro. Uma sucessão de chãos substituiria a ausência de céu — nudez de superfície — a ausência de suas expectativas frias queimando o fogão. Tocáveis. No fogo azul do gás de cozinha. Superfície azul e quente. Queimou a minha franja quando acendia um cigarro. Antes de dormir. De uma vez por todas, aprendi: o cheiro do cabelo queimado denuncia todo o crime. Rastro raro de sono, intromissão, deslize mínimo. O mormaço não cheira. E começa aqui. Contra a humanidade. Exatamente no momento em que suspendi minhas pernas, uma depois da outra…”

 

  1. Natasha Felix (1996)

Natasha é a única paulista do grupo, de Santos. Ou caiçara, como prefere. Ela publicou os zines anemonímia (2016) e j. não é um nome (selo Manga, 2017) e também costuma usar o Facebook para divulgar seus inéditos, além das revistas digitais. Neste poema, também inédito, a aflição de um vínculo construído entre a autonomia e a subordinação:

 

horas antes do voo 315, poltrona reclinável, o céu colombiano.
j. arranca meus dedos fora um a um.
na cozinha, sequer pensávamos em despedidas.
j. pega o alicate digo pega o alicate agora na gaveta
isso é uma solução prática.
ele arranca meus dedos fora um a um
não sem antes lixar passar base nas unhas
remover cutículas, beijar as cabeças.
j. reúne meus dedos em conserva tampa em
segurança me confia o pote transparente
antes do embarque.
não o levo ao aeroporto
sou uma mulher contemporânea.

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