Me deixa gozar!: testamos um curso de empoderamento do prazer

Como é a experiência numa casa que reúne grupos só de mulheres para conversas e atividades com uma 'parteira de orgasmos'

14.03.2018  |  Por: Gabriela Borges

image
Me deixa gozar!: testamos um curso de empoderamento do prazer

“Dá próxima vez em que você for transar, antes de se preocupar se a sua boceta tá com cheiro, pergunte ao seu parceiro ou parceira se ele(a) escovou os dentes. A vagina é um dos lugares mais limpos do corpo humano!” Essa foi uma das primeiras frases que Mariana Stock falou para o grupo de 12 mulheres que escolheram passar toda uma tarde de sábado conversando sobre prazer, vulva e orgasmos.

Confesso que quando entrei no site da Casa Prazerela e dei de cara com a promessa de “empoderamento do prazer para mulheres” logo pensei: “Lá vem mais uma coisa da qual a gente precisa se empoderar…” Além disso, em vez da conhecida (e muitas vezes temida) massagem tântrica, a casa oferecia sessões de “terapia orgástica”. A própria Mariana Stock, idealizadora e mestre da casa, se diz uma “parteira de orgasmos”. A curiosidade falou mais alto. Lá fui eu.

Há alguns anos, passei meses frequentando um grupo de práticas tântricas em que se misturava cantos de mantras, meditações ativas e aulas de massagens (genitais e sutis). Em alguns dias, ficávamos todos pelados, homens e mulheres. O que a princípio parecia uma loucura se tornou uma das terapias mais profundas que já fiz na vida. Quebrei vários paradigmas em relação ao meu corpo, acessei lugares interessantes da minha memória, vi que falar sobre a vida sem roupas faz a gente se livrar de várias máscaras. E entendi que a energia sexual é poderosíssima e que pode ser estimulada sozinha, com um parceiro(a) ou, sim: em uma massagem feita por um desconhecido. Tudo isso é o básico oferecido em praticamente todos os centros de tantra do Brasil.

Mas o e-mail da Prazerela chegou com um alerta de que nos primeiros encontros não haveria nudez nem toque e que seria um grupo só de mulheres. Opa, isso já é diferente, porque normalmente essas dinâmicas buscam a polaridade entre masculino e feminino, o que nem sempre torna o lugar seguro.

No primeiro dia, Mariana começou apresentando o que seria “apenas” uma palestra, bem explicativa mesmo. A princípio fiquei até na dúvida do quão básico tudo aquilo seria para mim. Mas logo fui vendo como é poderoso ver uma mulher de 33 anos falar abertamente sobre sua trajetória profissional, suas dores e alegrias como mulher e sobre o caminho que a fez deixar uma carreira no marketing para se dedicar a falar a mulheres sobre masturbação, anatomia da vagina e as vantagens de gozar muito.

Com apoio de uma apresentação projetada no telão, ela contou, por exemplo, que o clitóris, órgão do corpo feminino que existe exclusivamente para nos dar prazer, só foi mapeado e começou a aparecer na literatura médica em 2009 (!), mostrou como existem pouquíssimos livros leves e informativos sobre a vagina, e lembrou que na escola aprendemos que os meninos têm ereções e poluções noturnas, enquanto o corpo das meninas fica com a parte “chata” de menstruar e reproduzir – onde é que isso incentiva a gente a bater siririca? Normalmente, os grupos de tantra não falam sobre nada disso. “Somos seres culturais antes de seres biológicos” e “damos mais prazer do que nos permitimos receber” são algumas das frases que ficaram ecoando na minha cabeça.  

No grupo tinha uma senhora de mais ou menos 55 anos que pediu para o marido levá-la àquele lugar onde ele não poderia entrar e onde ela passaria três horas escutando sobre orgasmos. Tinha também uma moça de 30 anos que contou estar frustrada e confusa com sua vida sexual. Tinham amigas que riam com timidez quando alguém fala sobre sexo anal. E tinha eu, que achava que ia ficar horas escutando o óbvio e acabei refletindo sobre os motivos e consequências do fato de eu só ter comprado meu primeiro vibrador aos 31 anos. Também tive vários insights que nada têm a ver com a minha vulva.

Mariana está se formando em psicanálise e é doula. Ela defende que as mulheres tenham mais espaços para conversar abertamente sobre sua sexualidade sem que se caia no clichê “como agradar seu homem na cama”. “Ao longo da nossa vida, passa a ser muito mais fácil falar do que nos causa dor do que sobre o que nos causa prazer, como se a gente não tivesse direito sobre sentir prazer. Quero mudar isso”, diz.

No segundo encontro, ela deixou o protagonismo da apresentação de lado e se juntou ao grupo para trocar ideias sobre as vantagens do pompoarismo, os diferentes tipos de vibradores, as preferências de cada uma ao se masturbar, e até mesmo para “brincar” de moldar a vulva com massinha. Ela nos fez comer um pedacinho de chocolate de olhos fechados por vários minutos. Teve gente que conseguiu se entregar tanto àquele prazer que quase gozou, sério.

É só no terceiro módulo de seu curso que as mulheres começam a tirar a roupa e trocar toques e massagens. Ou seja, na onda contrária de quem quer partir logo para a intensidade da massagem genital, dá para vivenciar uma experiência tântrica com sutileza.

Por mais moderna e livre que a gente ache que seja, o prazer da mulher segue sendo algo negado, visto como proibido, às vezes até sujo (tipo, você se masturba menstruada?).  A maioria das minhas amigas não se masturba, por exemplo. Esses encontros me fizeram ver como a gente passa a vida se distanciando da nossa autonomia para usar o clitóris para ter momentos únicos de prazer. Mariana diz (e eu concordo) que mulheres que gozam são mais fortes. Então, gozemos!

Gabriela Borges é jornalista, mestre em Antropologia e viajante inveterada. É criadora da Mina de HQ, projeto sobre a representação feminina nas histórias em quadrinhos e de divulgação de HQs feitas por mulheres 

1 Comentários

Comentar

Uma resposta para “Me deixa gozar!: testamos um curso de empoderamento do prazer”

  1. Bruna Overbeck disse:

    Adorei o relato! Pela desmistificação do prazer feminino! (:

Deixe uma resposta