Muito consagrada, mas pouco vista

Conheça Vera Chytilová, uma das cineastas mais importantes do leste europeu

29.04.2019  |  Por: Rosa Monteiro

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Muito consagrada, mas pouco vista

Vera Chytilová é a grande cineasta do cinema tcheco, talvez a diretora mais importante do leste europeu. Consagrada no mundo todo, seus filmes foram exibidos nos principais festivais do mundo – Cannes, Berlim e Veneza –, mas no Brasil ela é pouco conhecida. Alguns dos seus filmes, pouquíssimos na verdade, foram exibidos na Mostra Internacional e pronto. Por isso, uma mostra sobre a diretora chega em ótimo momento, e é uma oportunidade única para que o público daqui tenha contato com essa tão relevante artista.

Nascida em 1929, a diretora que começou a carreira como modelo, assistente de produção e claqueteira foi aceita na renomada Academia Superior de Cinema de Praga, a FAMU, na qual veio a estudar com diretores como Jirí Menzel, Jan Nemec Ji e Milos Forman. Passou a dirigir seus próprios filmes tardiamente, perto dos 40 anos, na década de 60.

Posso afirmar com convicção que Chytilová foi uma revolucionária: ela está para a antiga Tchecoslováquia o que a cineasta Agnès Varda está para a França, porém, sempre teve um olhar mais ácido, permeado por um forte humor sarcástico. O início de sua carreira foi durante o governo da União Soviética na Checoslováquia e o clima político teve forte impacto em seu trabalho. Não deixando de lado a crítica social e sátiras sobre o regime comunista, ela foi uma pioneira ao que se chamou posteriormente de Nouvelle Vague Tcheca.

Eu era ousada o suficiente para querer liberdade absoluta – mesmo se isso fosse um erro

Quando a liberdade artística foi tolhida pelo governo tcheco, Vera foi uma das poucas a resistir e continuar produzindo em seu próprio país. O longa Pequenas Margaridas, de 1966, que poderá ser conferido na mostra Vera Chytilová: A Grande Dama do Cinema Tcheco, foi o que a tornou conhecida internacionalmente, ao fazer críticas ao regime comunista e à misoginia, temas que a acompanharam, tornando-se marcas de seu trabalho.

Após a invasão da União Soviética, passou a ser impossível para Chytilová encontrar trabalho e ela passou a dirigir comerciais sob o nome de seu marido, Jaroslav Kučera. Mesmo após esse hiato, sua produção prosseguiu até os anos 2000. Porém, até o fim de sua carreira, Vera lutou intensamente em sua tentativa de produzir arte dentro de um meio complexo e asfixiante de intensa censura, no qual mesmo os diretores homens mais respeitados do país sofriam.

Os filmes de Chytilová não dissociam a visão subjetiva (e subjetivista) da mulher moderna de uma objetividade crítica feminista. Suas personagens são prisioneiras das palavras dos homens, da linguagem e do julgamento masculinos – nesse sentido, seria uma cineasta anti-patriarcal. Com o passar dos anos, suas produções se tornaram menos experimentais, mas nunca perderam as características subversivas e os elementos de paródia do estilo de vida e cotidiano da Checoslováquia. Até o fim de sua carreira, Vera lutou intensamente em sua tentativa de produzir arte dentro de um meio complexo e asfixiante de intensa censura, no qual mesmo os diretores homens mais respeitados do país sofriam. Ela resistia a rótulos e quando questionada sobre o feminismo dizia: “Eu era ousada o suficiente para querer liberdade absoluta – mesmo se isso fosse um erro.

 

Rosa Monteiro é a curadora da mostra Vera Chytilová: A Grande Dama do Cinema Tcheco, que passou pelo CCBB de São Paulo em maio de 2019. Formada em cinema, tem 16 anos de experiência em produção de conteúdo para televisão. Desenvolveu, através da edição, diversos pilotos para canais como GNT, Multishow, Canal Off, Rede Globo e Arte 1, dentre outros

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