Mulher no Cinema | Oscar dá final amargo a uma temporada de prêmios eletrizante

Carente de rebeldia, cerimônia reforçou a sensação de manutenção do status quo a cada troféu; premiação da Academia se tornou mais desigual, e não o contrário, nos últimos anos

05.03.2018  |  Por: Luísa Pécora

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Mulher no Cinema | Oscar dá final amargo a uma temporada de prêmios eletrizante

Greta Gerwig, quinta mulher a concorrer ao Oscar de direção, saiu de mãos abanando (foto: Matt Petit / A.M.P.A.S.)

A corrida pelo Oscar é tão longa e cansativa que quase todas as edições da premiação, quando finalmente acontecem, tendem a decepcionar. Mas a cerimônia de 2018 deixa gosto especialmente amargo ao encerrar de forma desastrosa uma temporada de prêmios que, até então, tinha sido eletrizante no que diz respeito às mulheres do cinema.

Embaladas pelas denúncias de assédio em Hollywood, o movimento #MeToo e a criação do Time’s Up, as mulheres da indústria cinematográfica americana causaram barulho ao surgir de preto no tapete vermelho do Globo de Ouro e tomar conta da cerimônia com discursos inspirados e provocações. O tema seguiu em pauta em cerimônias menos badaladas – como o prêmio do Sindicato dos Atores, o Bafta e o Spirit Awards – e o anúncio das indicações ao Oscar deu gás à sensação de avanço ao quebrar um tabu tão antigo quanto a própria premiação: pela primeira vez em 90 anos, uma mulher, Rachel Morrison, disputaria o troféu de direção de fotografia.

Outras boas notícias foram anunciadas com as indicações. Greta Gerwig tornou-se a quinta mulher a concorrer ao prêmio de direção, e a primeira desde que Kathryn Bigelow finalmente ganhou a estatueta, em 2010; Dee Rees entrou para a história como a primeira mulher negra a disputar roteiro adaptado; Mary H. Ellis foi a sexta mulher indicada a mixagem de som; quatro dos nove indicados ao troféu principal tinham protagonistas femininas; e títulos dirigidos por mulheres conseguiram espaço em categorias como melhor filmeanimaçãodocumentáriofilme estrangeiro e curta-metragem.

Na cerimônia deste domingo (4), porém, as esperanças de vitória feminina foram sendo abandonadas uma a uma. A decepção começou cedo, quando Visages, Villages perdeu o prêmio de documentário e o público ficou sem ver a codiretora Agnès Varda, nome fundamental da história do cinema, subir ao palco para receber o que seria o primeiro Oscar competitivo em uma carreira de mais de seis décadas (ela ganhou um honorário em novembro).

A derrota também indicou que a noite seria difícil para as mulheres, já que documentário era uma das poucas categorias em que o favoritismo era feminino. E a previsão se confirmou: o Oscar 2018 premiou apenas seis mulheres – três a menos do que no ano passado e metade do número alcançado em 2016. Além disso, pelo segundo ano consecutivo nenhum longa ou curta dirigido por mulher foi premiado. E pior: ao contrário de 2016 e 2017, produtoras mulheres não levaram o troféu de melhor filme, e todas as ganhadoras com exceção das atrizes dividiram a vitória com colegas homens.

Em outras palavras, nos últimos anos a premiação do Oscar se tornou mais desigual, e não o contrário.

Mas só percebeu isso quem prestou atenção aos prêmios, pois no discurso inclusão e mudança eram palavras de ordem. Alguns (poucos) troféus não foram para homens brancos – direção para Guillermo del Toro, roteiro adaptado para Jordan Peele –, mas a diversidade se projetou principalmente na quantidade de artistas negros e latinos escalados para entregar as estatuetas. A atriz chilena Daniela Vega, por exemplo, fez história ao subir no palco para introduzir uma das apresentações musicais, na primeira vez que uma mulher trans conseguiu tal espaço no Oscar.

A presença destes artistas foi bem-vinda, mas contrastou com a sensação de manutenção do status quo que era reforçada a cada prêmio. Especialmente difícil de engolir foi justamente o trecho da cerimônia organizado pela Academia em parceria com o Time’s Up, no qual três vítimas de Harvey Weinstein – Annabella Sciorra, Ashley Judd e Salma Hayek – apresentaram um clipe em que mulheres, negros e imigrantes falavam sobre a importância da diversidade. A intenção pode ter sido boa, mas não chegou nem perto de provocar a mesma reação das intervenções espontâneas no Globo de Ouro. No Oscar, o movimento contra o assédio ficou dentro do script – muito pouco para uma premiação que está intimamente ligada a Weinstein. Afinal, o produtor ajudou a transformar a corrida pela estatueta no que ela é hoje, e em inúmeras ocasiões usou sua notória influência na Academia para atrair jovens atrizes às impróprias reuniões em hotéis.

Weinstein foi expulso do grupo, um dos acontecimentos do #MeToo que foram abordados pelo apresentador Jimmy Kimmel na abertura. Nada se falou, porém, de outros vários membros da Academia que também foram envolvidos em denúncias de assédio, agora ou no passado, incluindo o vencedor do prêmio de melhor ator deste ano, Gary Oldman, e o do ano passado, Casey Affleck, que preferiu não ir à cerimônia e foi substituído por Jodie Foster e Jennifer Lawrence.

Estas e outras atrizes fizeram breves comentários feministas, mas nenhum ecoou com grande força. A melhor tentativa foi a da compositora Kristen Anderson-Lopez, que notou a “quase paridade” de gênero na categoria de canção original e manifestou o desejo de que o cenário se repetisse nas demais áreas. Não foi possível elaborar porque o marido, também premiado, logo a interrompeu. Em seguida, quando Kristen exaltava as filhas do casal que estavam sentadas à plateia, Robert Lopez repetiu a dose para ressaltar que o prêmio não era dedicado às meninas, e sim à falecida mãe dele (!).

Faltava um momento de pequena rebeldia como o de Natalie Portman no Globo de Ouro, quando destacou a ausência de mulheres indicadas antes de anunciar o prêmio de direção. No Oscar, tal momento apareceu nos 45 minutos do segundo tempo e graças a Frances McDormand, que ganhou o troféu de melhor atriz e pediu para que todas as mulheres indicadas e sentadas na plateia se levantassem e dessem a “perspectiva” da foto acima.

Foi uma bela e mais do que necessária dose de realidade em uma indústria que é especialista em se autoparabenizar até pelo que ainda não fez. A excelência de Hollywood em ações de marketing e relações públicas talvez seja o maior inimigo do #MeToo e do #TimesUp – a possibilidade de uma discussão tão complexa quanto o assédio ser reduzida a photo op. Há diferentes formas de se buscar a igualdade de gênero, e não há nada de errado em tentar encontrar soluções dentro do próprio sistema. Mas há que se atentar para a possibilidade de a máquina da indústria cinematográfica americana agir para tornar um debate sério e difícil em algo bonito e vendável.

Não há dúvida de que Hollywood sabe falar – mas o que vai de fato fazer? “Igualdade, diversidade, interseccionalidade… Foi isto que este ano nos prometeu”, disse Ashley Judd no palco do Oscar. Prometeu, sim, mas está longe de cumprir.

Luísa Pécora é jornalista, criadora e editora do site Mulher no Cinema. O texto original pode ser lido aqui

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